Reginaldo Faria discute etarismo em filme com os filhos: 'Eu não quero me deixar morrer, quero continuar vivendo'

 

Fonte:


“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.” A frase icônica de Glauber Rocha marcou o movimento do Cinema Novo, sendo símbolo de um cinema feito de forma independente e com liberdade criativa. A geração teve como um de seus expoentes o ator Reginaldo Faria, protagonista do clássico “O assalto ao trem pagador” (1962), dirigido por seu irmão, Roberto Farias (1932-2018). Mais de seis décadas após o lançamento da obra, Reginaldo, aos 88 anos, segue em plena atividade e levando a sério o lema de sua geração. Foi com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão que nasceu “Perto do Sol é mais claro”, protagonizado pelo ator, escrito e dirigido por Régis Faria, seu filho mais velho, e coestrelado por Marcelo e Carlos André Faria, o filho do meio e o caçula, respectivamente.

Com 'O agente secreto' e 'Ainda estou aqui': Abraccine atualiza lista de 100 melhores filmes brasileiros

Em cartaz no teatro: Taís Araújo diz que resolve crises no palco, revela que pensou em abandonar a carreira e elogia Bella Campos

Trabalhar em família não é novidade para os Faria. Régis foi assistente de direção em trabalhos do pai na TV Globo, como as minisséries “Boca do lixo” (1990) e “Contos de verão” (1993), além da novela “Lua cheia de amor” (1990). Marcelo fez sua estreia como ator aos 12 anos na minissérie “A máfia no Brasil” (1984), protagonizada pelo pai e dirigida pelo tio Roberto e pelo primo, Maurício Farias. Já Carlos André Faria foi dirigido pelo pai, Reginaldo, no longa “O carteiro” (2011), que também traz Marcelo no elenco. Apesar dos múltiplos encontros, a família Faria ainda aguardava por uma oportunidade de uma parceria criativa mais ampla entre o pai e seus três filhos. Exibido em primeira mão no Festival do Rio de 2025, o novo longa chega aos cinemas nesta quinta-feira.

— O projeto começou a partir do desejo de trabalhar com meu pai quando eu estivesse mais maduro. Durante a pandemia, ele veio morar na minha casa. Eu nem tinha um projeto concreto para o cinema, mas, naquele momento, eu falei: “Vamos fazer um filme?” E ele imediatamente falou: “Sim.” Sem nem termos um roteiro — conta Régis, de 56 anos. — Eu vinha observando e ouvia meu pai falar sobre a dificuldade de escutarem as pessoas mais velhas. Tanto meu pai quanto minha mãe (a diretora e preparadora de elenco Kátia Achcar) fogem um pouco do padrão das pessoas de suas idades. Não se aposentaram, ainda são muito produtivos. E mesmo assim enfrentam uma certa invisibilidade social, um escanteamento, o que se agrava diante da tecnologia e das redes sociais.

Em sentido horário a partir de Reginaldo Faria, os filhos Carlos André e Marcelo, que atuam em “Perto do Sol é mais claro”, e Régis, que dirige o longa

Marcelo Theobald /Agência O Globo

‘Ganhamos muito’

“Perto do Sol é mais claro”, feito todo em preto e branco, acompanha um engenheiro de 85 anos (idade de Reginaldo à época das filmagens) que vive o luto com a morte da mulher. Em meio a uma rotina de atividades físicas e responsabilidade comandando uma obra, ele tenta escrever seu primeiro livro. Enquanto demonstra sede de viver, lida com uma sociedade que insiste em vê-lo como aposentado.

— Posso dizer que não foi um processo difícil, porque eu já estava dentro desse personagens. Eu trago as cargas que eu carrego, da minha solidão, da minha separação, da minha vontade de viver — diz Reginaldo. — Um filme eminentemente artesanal que conseguiu chegar num lugar lindo.

Além de responsável por direção e roteiro, Régis tem créditos de produção, fotografia, som direto, câmera, direção de arte, continuidade e montagem, enquanto Reginaldo é ator, produtor e compositor da trilha sonora, reforçando o caráter de guerrilha da obra. No elenco, Régis escalou ainda seus alunos na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), a ex-companheira, a atriz Vannessa Gerbelli, os filhos e as sobrinhas, além de amigos da família.

— Na apresentação na pré-estreia, Régis falou que ninguém ganhou nada para fazer o filme. Mas a verdade é que ganhamos muito — emociona-se Marcelo, de 54 anos. — Esse filme foi um presente. Ganhei a oportunidade de contracenar com meu pai e com meu irmão mais novo, sendo dirigido pelo meu outro irmão. O curioso é que nós não somos estes personagens, eu quero ver meu pai trabalhando, namorando, vivendo. Mas, mesmo assim, foi difícil não misturar os sentimentos. Fizemos algumas cenas em que nosso sentimento real de pai e filho invadia os personagens.

As casas de Régis e Reginaldo serviram de cenário para o longa, com o diretor fazendo a opção de não modificar os ambientes. Assim, a tela é preenchida de fotos da família e objetos que representam a trajetória de Reginaldo, como um cartaz de “O assalto ao trem pagador” que aparece numa parede ao fundo.

— É um filme que transborda amor e que é um tributo ao nosso pai, uma homenagem à história e ao talento dele — afirma o diretor.

Tanto Régis quanto Reginaldo reforçam que o filme não é autobiográfico, mas a linha tênue entre ficção e realidade causa divergências na própria família.

— Eu diria que o filme é 30% ficção e 70% verdade. A partir do momento que meu pai é o meu pai, que o meu nome é meu nome, que o Marcelo é meu irmão, que nossas filhas estão no filme, que são nossas fotos na parede, gera um sentimento que é muito verdadeiro. Acho que, se tivéssemos um outro diretor e outros atores, poderíamos tem um lindo filme, mas não como este. Tudo se mistura de uma maneira que só foi possível por causa disso — observa Carlos André.

Régis diverge:

— Eu já penso o contrário. Acho que é 70% ficção e 30% verdade. O sentimento é verdadeiro, mas a história é toda ficção. Eu nem sei por que eu escolhi usar nossos próprios nomes. Em um momento, eu pensei em mudar, mas já tinha filmado muita coisa. Usar os nomes reais dos atores foi uma forma de agradecer a essas pessoas pela generosidade de acreditarem no projeto.

‘Velhos bandidos’

Além de “Perto do Sol é mais claro”, Reginaldo Faria está em cartaz nos cinemas brasileiros com a comédia “Velhos bandidos”, de Cláudio Torres, em que contracena com colegas de sua geração como Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Tony Tornado e Nathália Timberg, em outra obra feita de filho para pai/mãe (Cláudio e Fernanda), e que também tem o etarismo como um de seus temas. Escalado para “Por você”, próxima novela das 19h da TV Globo, em que interpretará Manoel, amigo de Pérola, personagem de Renata Sorrah, Reginaldo celebra o momento profissional ainda bastante ativo:

— Eu não quero me deixar morrer, quero continuar vivendo. Para mim, não existe idade para morrer, então vou viver e descartar todos os olhares de invisibilidade — diz o ator. — Se eu estiver com energia e memória, estou feliz. Eu gosto de fazer o trabalho que faço. Não fico quieto um segundo. Estou sempre querendo criar alguma coisa. É o que me tira da depressão.

Carlos André se emociona com a dedicação e o bom estado do pai.

— Eu estava vendo uma entrevista do meu pai no final de semana e comentei com minha esposa: “Olha como ele está bem, se comunicando bem.” É o fruto de uma dedicação de uma vida inteira. É impressionante a lucidez e a vitalidade que ele tem para alguém que vai fazer 90 anos daqui a pouco — comenta Carlos André.

No que Reginaldo prontamente corrige:

— Eu vou fazer 89 agora em junho. Para 90, ainda falta um pouquinho.

Nova geração

Se Régis, Marcelo e Carlos André possuem uma trajetória consolidada no audiovisual, o novo longa lança para o mundo uma nova geração de Farias: Sofia, de 15 anos, filha de Carlos André; Felipa, também de 15, filha de Marcelo; e Lorena, de 10, e Vicente, de 8, filhos de Régis.

Todos orgulhosos dos desempenhos dos filhos em cena, os pais tentam deixar as crianças livres para seguirem seus caminhos. Dos quatro netos de Reginaldo, apenas uma diz que quer ser atriz.

— Lorena faz teatro. E fala: “Pai, me bota em outro filme.” Aí eu tenho que explicar que não é assim, que ela tem que fazer testes e ser escolhida. Eu acho que criança tem que ter infância, então tento dar uma segurada. Mas ela tenta negociar, fala que quer fazer filme e não novela, por ser mais rápido. Hoje, eu falo que ela tem que brincar, mas, se lá na frente ela quiser ser atriz e se preparar para isso, vou dar todo o apoio — diz Régis.