Refúgio escondido entre a Urca e o Leme: conheça a Ilha de Cotunduba

 

Fonte:


Quando parece que o Rio já revelou todas as suas paisagens, um tesouro natural insiste em contrariar essa certeza e brinca de esconde-esconde com o olhar apressado de moradores e turistas. Oculta pela Pedra do Leme, mas visível a partir da Praia Vermelha, a Ilha de Cotunduba repousa na entrada da Baía de Guanabara como um segredo geográfico. Para a maioria, ela se funde à paisagem e desaparece no horizonte; para os mais atentos, revela-se como uma recompensa discreta em meio à grandiosidade carioca.

Celeiro de grifes: marcas da Zona Sul criam estratégias para o Rio Fashion Week, que volta à cidade após dez anos

'Bunker' de luxo para poucos: empresa anuncia refúgio para homens que precisam tomar decisões milionárias com discrição

Com cerca de 60 metros de altura e cercada por águas transparentes, a ilha ocupa uma posição privilegiada entre a Praia Vermelha, na Urca, e a Praia do Leme. De seu entorno, descortina-se um panorama que reúne alguns dos principais cartões-postais da cidade: as praias de Copacabana e do Leme, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, o Morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea.

— Saí para fazer um passeio de barco até as Ilhas Cagarras, mas as condições do mar não estavam favoráveis, e o marinheiro acabou nos levando para a Ilha de Cotunduba. Ele disse que o nome do lugar era Pedra da Tartaruga. Ficamos lá por algumas horas, nadamos até a piscina natural e depois subimos para explorar as pedras. Foi uma surpresa descobrir esse paraíso — recorda a advogada Camila Barreto.

Coberta de vegetação, a Ilha da Cotunduba fica na entrada da Baía de Guanabara, entre a Pedra do Leme e a Praia Vermelha

Custodio Coimbra

A geografia da ilhota é marcada por contrastes que revelam sua singularidade. Trechos de vegetação exuberante se alternam com paredões rochosos, um deles salpicado por quartzo branco e turmalinas negras, além de uma estreita fenda que pode ser atravessada. No alto da parte rochosa, forma-se uma piscina natural de água salgada que abriga peixes, caranguejos e ouriços. Já ao nível do mar, outra piscina, de fundo arenoso, surge como um refúgio sereno, ideal para o descanso.

Ricardo Gomes, biólogo marinho e presidente do Instituto Mar Urbano (IMU), diz que muitos animais foram avistados por ali, inclusive espécies comuns à Baía de Guanabara.

— A Ilha de Cotunduba tem uma enseada que é ideal para mergulho. Em alguns pontos, a profundidade passa dos 20 metros. É um lugar que atende tanto iniciantes quanto mergulhadores mais experientes. Sempre gostei de mergulhar ali. Além da beleza, há uma diversidade impressionante de fauna e a chance de observar tanto os peixes de passagem, que vêm da baía, quanto espécies oceânicas. É um ambiente de verdadeira profusão de vida — diz.

Apesar do apelo quase paradisíaco, a ilha não é um destino de turismo convencional, e isso é parte essencial de sua preservação. Desde 1995, integra a Área de Proteção Ambiental do Morro do Leme, Urubu e Ilha de Cotunduba, sendo classificada como Zona de Vida Silvestre de uso restrito. Mais recentemente, em 2022, passou a compor o Santuário Marinho da Paisagem Carioca, estabelecido pelo Decreto Municipal Nº 51.311, o que reforçou seu papel como área estratégica para a conservação ambiental. Caio Salles, mestre em Ecoturismo e Conservação e diretor do Projeto Verde Mar, afirma que a ideia da criação do Santuário nasceu do seu projeto de mestrado:

— Vi que existia pouco conhecimento de que ali é uma área ambiental protegida e fiz essa proposta. Em 2022, a prefeitura decretou a criação do santuário. Essa foi uma estratégia para a conservação do espaço e para ele se tornar mais conhecido e valorizado pela população.

O acesso para a Ilha de Cotunduba pode ser feito por barco ou a remo, em caiaque, canoa havaiana ou stand up paddle

Custodio Coimbra

Triplex por R$ 50 milhões: prédio na Praia de Ipanema é demolido para dar lugar a empreendimento de alto padrão

Assim como ocorre com suas vizinhas famosas, as Ilhas Cagarras, a Cotunduba é uma reserva biológica essencial. Ela funciona como laboratório natural de estudos e pesquisas científicas, todas com o objetivo de garantir a preservação de sua vegetação exuberante e das espécies nativas que ali encontram um refúgio seguro longe da expansão urbana.

— As ilhas costeiras são verdadeiros oásis de biodiversidade. Mostrar essa fauna marinha é fundamental para que as pessoas compreendam a riqueza desse universo subaquático e se sintam parte da sua preservação. A nossa missão é justamente essa, levar conhecimento, despertar consciência e estimular a proteção desses ecossistemas tão valiosos — analisa Gomes.

Mesmo com a conservação do ecossistema, os amantes da natureza e dos esportes náuticos não estão totalmente proibidos de se maravilhar com a ilha de perto. Há formas responsáveis de vivenciar esse território. Para os aventureiros que desejam cruzar os cerca de dois quilômetros que a separam da Praia Vermelha, o trajeto é um convite ao esporte. A travessia pode ser feita de barco ou a remo, com caiaque, stand up paddle e canoa havaiana.

— Descobri a Ilha de Cotunduba por acaso. Estava no Forte Duque de Caxias e, olhando lá de cima, vi aquela ilhazinha pequena e fiquei curiosa. Descobri que dava para chegar de caiaque, saindo da Praia Vermelha. Você faz a travessia vendo o Cristo e vários pontos do Rio, então só isso já vale a pena. E quando chega lá, parece um paraíso escondido. A água é transparente, cheia de peixinhos, tem uma piscininha natural, mas é tudo muito pequeno, então se tiver umas dez pessoas já fica cheio. Todas as vezes que eu fui não tinha ninguém, o que deixa ainda mais especial, porque você fica ali no meio do mar, vendo tudo ao redor. Mas tem que tomar cuidado, porque passa navio grande, que faz onda, e também tem a maré — detalha a administradora Luciana Guimarães.

Vida marinha é trunfo

Vista aérea. As formações rochosas, a vegetação e a piscina natural da Cotunduba

Custodio Coimbra

Um dos principais projetos desenvolvidos pelo Instituto Mar Urbano (IMU) é a Expedição Águas Urbanas, iniciativa que reúne monitoramento, pesquisa e registro audiovisual da biodiversidade marinha na Baía de Guanabara e na costa do Rio. Presidente do instituto, o biólogo marinho Ricardo Gomes destaca que a baía é um dos estuários mais relevantes do estado e até do país. Nesse contexto, a Ilha de Cotunduba também se tornou ponto estratégico das pesquisas.

— Além da biodiversidade marinha muito grande, as ilhas são berçário de muitas espécies. Os costões rochosos são cheios de vida, têm esponjas, corais, algas, toda uma cadeia alimentar que mantém a saúde do ecossistema do entorno das ilhas. Elas são bolsões de vida que ajudam a manter o equilíbrio de toda a biodiversidade marinha costeira — ressalta Gomes.

Ipanema é a praia mais procurada do Rio por passageiros de moto: levantamento da Uber revela preferências de cariocas e turistas

Por meio de registros fotográficos e audiovisuais, o IMU documenta a fauna das chamadas águas urbanas. Segundo o biólogo, a Expedição Águas Urbanas, que conta com apoio da Águas do Rio e da OceanPact, chega ao quarto ano ainda produzindo descobertas inesperadas.

— O mar é muito grande, e ainda conhecemos pouco do fundo marinho. Esse processo de recuperação ambiental da Baía de Guanabara teve um impacto profundamente positivo, sentido em regiões como Botafogo e Flamengo e, naturalmente, na Cotunduba. Nunca imaginei que fosse mergulhar em Botafogo, e isso hoje já é possível. As obras que direcionaram o Rio Carioca para o emissário submarino de Ipanema aliviaram o lançamento de afluentes na baía, e o local sentiu essa melhora — diz Gomes.

Instituto Mar Urbano. Ricardo Gomes fotografa espécies

Divulgação/Instituto Mar Urbano

Com mais de três décadas dedicadas a filmar e fotografar o fundo do mar, Gomes trabalha agora na construção de um amplo acervo de imagens subaquáticas da cidade.

— Esse é um documento para observarmos como nossas ações impactam o oceano. È o caso da foto do ouriço com plástico, feita na Cotunduba — diz.

Em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, o IMU analisou a presença de microplásticos em ouriços e mexilhões, em um recorte que vai da Baía de Guanabara até as Ilhas Tijucas, na Barra. O estudo, batizado de Plastitox, reforça um alerta já conhecido e ainda pouco enfrentado no país.

— Não é uma solução fazer a limpeza das praias. Não vamos mais conseguir retirar o plástico que já está no oceano. O que precisa ser feito é o controle da produção. Estamos com 80 instituições reunidas para alcançar cem mil assinaturas em apoio ao projeto de lei 2.524, de 2022, que tramita no Senado, para controlar a produção de plástico. Quando vemos a imagem do ouriço, temos a dimensão do impacto. Ele deixa de usar conchas para se camuflar e passa a utilizar o plástico. O site pareotsunamideplastico.org é um movimento muito importante, porque, das dez milhões de toneladas de resíduos que vão para o oceano todos os anos, o Brasil é responsável por 1,3 milhão. É uma questão global, já que o oceano não tem fronteiras. São 90 toneladas de resíduos e plástico que chegam à Baía de Guanabara todos os dias — lamenta o biólogo.

Certificação Internacional: Praias do Arpoador e do Diabo vão concorrer ao selo Bandeira Azul

Ouriço com plástico fotografado na ilha

Divulgação/Ricardo Gomes/Instituto Mar Urbano

Os dados levantados pela expedição também revelaram um aspecto pouco conhecido da baía: ela está entre as regiões com maior diversidade de elasmobrânquios do mundo, grupo que inclui raias e tubarões. Mais de dez espécies de raias já foram registradas na área, e a Cotunduba integra essa rota.

— Um estuário é o encontro entre rios e mar, uma área rica em nutrientes e com condições ideais para várias espécies. A região da Praia Vermelha é um verdadeiro paraíso para as raias. Estamos desenvolvendo um trabalho de monitoramento desses animais junto aos pescadores da Colônia Z13, em Copacabana. Também atuamos na conscientização e na soltura de raias que acabam sendo capturadas acidentalmente. Os pescadores aderiram ao projeto — conta Gomes.

Para o biólogo, ampliar a percepção da população sobre o oceano é um passo essencial para a conservação, e a Cotunduba cumpre um papel simbólico nesse processo.

— Não queremos que a ilha seja impactada pela poluição da Baía de Guanabara. Por isso é tão importante mostrar a riqueza de vida que existe ali. À primeira vista, vemos apenas a rocha, mas é como um iceberg, enxergamos só a ponta. Debaixo d’água, essa rocha é viva, funciona como substrato para uma enorme diversidade de organismos e sustenta um ecossistema riquíssimo. Na superfície há plantas e aves; abaixo, são centenas de espécies animais e vegetais — explica.

Cangulo vermelho: uma das espécies de peixe que vivem na Cotunduba

Divulgação/Ricardo Gomes/Instituto Mar Urbano

Parque natural e santuário

Apesar de a Ilha de Cotunduba integrar, desde 1995, a Área de Proteção Ambiental do Morro do Leme, Urubu e Ilha de Cotunduba, foi apenas em 2022 que passou a fazer parte do Santuário Marinho da Paisagem Carioca, criado por decreto municipal. A iniciativa tem origem em um olhar atento sobre o fundo do mar. Ao se deparar com a grande quantidade de lixo subaquático na área marinha do Parque Natural Municipal Paisagem Carioca, instituído em 2013 entre os bairros do Leme, de Copacabana, de Botafogo e da Urca, Caio Salles desenvolveu, em seu mestrado, o estudo que daria origem ao santuário.

— Estou tentando fazer mais mergulhos na região para produzir novas imagens subaquáticas. Costumamos entrar pela Praia Vermelha, mas estou em busca de um barco para visitar com mais frequência a Cotunduba. Tudo começou quando passei a mergulhar na Urca para fazer fotografias e me deparei com muito lixo no mar. Comecei a coletar e a produzir relatórios, e assim nasceu o Projeto Verde Mar — diz Salles, diretor do projeto.

Tartaruga marinha na Praia Vermelha, na Urca

Divulgação/Projeto Verde Mar

Durante a pesquisa, Salles identificou que o principal tipo de resíduo encontrado era material de pesca, mesmo com a atividade sendo proibida na região por ser uma área de preservação ambiental.

— Acredito que a maioria das pessoas desconhece que ali é uma área protegida. Foi por isso que propus à prefeitura a criação do santuário, como uma estratégia de comunicação para a conservação e também para fomentar a pesquisa científica na região, para que possamos entender melhor a vida marinha existente ali —explica o diretor.

Copacabana, a rainha das patinetes: veja o ranking dos bairros com mais usuários do transporte

Com o apoio de biólogos, o projeto começa agora a estruturar um levantamento científico aliado ao programa de ciência cidadã, que pretende envolver mergulhadores na coleta de dados.

— Somado ao trabalho dos cientistas, vamos conseguir construir um panorama mais amplo da fauna marinha do santuário — afirma ele.

Macaquinho-das-águas: espécie de peixe encontrada na Praia Vermelha

Divulgação/Projeto Verde Mar

Outro eixo do Projeto Verde Mar é o trabalho de educação e engajamento socioambiental em escolas públicas. Uma das instituições parceiras é a Escola Municipal Gabriela Mistral, na Praia Vermelha, que já recebeu nomes de destaque internacional, como o ativista Paul Watson, fundador da Sea Shepherd; e a oceanógrafa Sylvia Earle.

—Toda semana realizamos atividades com os alunos para apresentar a cultura oceânica. O ponto alto foi quando a escola recebeu o selo de Escola Azul, um reconhecimento internacional por práticas de educação voltadas ao oceano — orgulha-se Salles.

Também jornalista, ele atua na divulgação de conteúdos sobre conservação ambiental, sustentabilidade, ecoturismo e pesquisas científicas, além de iniciativas práticas de preservação. Uma das estratégias foi a adesão ao programa municipal Adote Rio.

— Adotamos a área do Santuário para envolver mais a sociedade e torná-la conhecida como uma área de preservação. Com isso, assumimos uma série de responsabilidades com esse espaço — conta.

No dia em que a equipe de reportagem visitou a Contunduba, um grupo de pescadores estava no local, onde passaria a noite antes de retornar ao continente. A presença evidencia um dos desafios da gestão ambiental na região. Segundo Salles, a proibição da pesca no santuário é mais complexa do que parece.

— O decreto do Parque Natural Municipal Paisagem Carioca foi criado sem uma escuta prévia dos usos tradicionais. O parque engloba o Caminho dos Pescadores, no Leme, onde, em tese, também não seria permitido pescar, apesar de ser uma prática histórica. O mesmo acontece na Praia Vermelha e na Ilha de Cotunduba. Não acredito que a pesca artesanal seja tão prejudicial, não se trata de grandes redes industriais. Mas, pela legislação, eles estão em situação irregular, muitas vezes sem sequer saber disso — avalia.

Atividade ilegal: pesca de polvos na Praia Vermelha, na Urca

Divulgação/Projeto Verde Mar

Projeto científico chega ao Rio

Entre os impactos ambientais mais preocupantes, Caio Salles aponta o intenso tráfego de embarcações e o uso desordenado de jet skis na área protegida.

— A pesca de cerco e o turismo desenfreado precisam ser ordenados. É necessário estabelecer regras mínimas para garantir que essas atividades sejam sustentáveis — diz.

Outro trabalho em desenvolvimento na área do Santuário é o Programa Ciência Cidadã, voltado ao levantamento e monitoramento quali-quantitativo da ictiofauna, dos organismos bentônicos e também das tartarugas marinhas.

— Queremos entender e monitorar a biodiversidade. Firmamos uma parceria com o Projeto Costão Rochoso, que tem base em Arraial do Cabo e agora atuará também no Santuário. Durante quatro anos, serão realizados mergulhos periódicos para mapear os peixes e os organismos que vivem no fundo do mar e nos costões rochosos. Essa parceria vai viabilizar um braço importante de pesquisa e gerar dados científicos robustos sobre a biodiversidade local — adianta o diretor do Projeto Verde Mar, que é mantido com apoio do Parque Bondinho e da WeCarbon.,

Projeto Verde Mar: Caio Salles (à esquerda) costuma mergulhar saindo da Praia Vermelha, na Urca

Divulgação/Projeto Verde Mar

Sobre a Ilha de Cotunduba, Salles destaca a importância estratégica de sua localização na Baía de Guanabara.

— Essas pesquisas podem revelar aspectos muito interessantes das espécies marinhas que utilizam os manguezais e áreas da Baía de Guanabara para se reproduzir. Um exemplo é o peixe nero, que cresce nos manguezais do fundo da baía e depois segue para o mar aberto, em direção às Cagarras. A Cotunduba funciona como uma ponte para muitos desses animais antes de retornarem ao oceano. Além disso, ali passa um canal de navegação importante, que delimita a entrada dos navios no porto do Rio. É uma área bem marcada e de fácil acesso à população, o que torna sua preservação ainda mais urgente — frisa Salles.

Initial plugin text