Reeleito, Lula supera 'maldição' que abateu Trump, Biden e Jair

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Primeiro discurso do Lula após ser reeleito presidente do BrasilReprodução/Alma Preta Foi-se o tempo em que um presidente no exercício do cargo chegava como favorito nas disputas pela sucessão.Em anos recentes, Donald Trump, em 2020, Jair Bolsonaro, em 2022, e Joe Biden, em 2024, experimentaram na prática o que especialistas classificam como “maldição do incumbente”.

Em comum, o trio tinha a faca, o queijo e a máquina pública na mão e fracassou na busca por um novo mandato.Lula (PT), em 2026, colocou essa maldição em teste no domingo (25) diante de Flávio Bolsonaro (PL), desafiante marinado no antipetismo que tem como principal mérito o fato de não ser governo.

E venceu.Não sem suor e lágrimas.Num passado nem tão distante, a ostentação de índices satisfatórios da macroeconomia, como baixo desemprego, crescimento econômico razoável e inflação controlada eram meio caminho para a vitória.Lula chegou para a sua sétima disputa presidencial com tudo isso na manga.

Apostou alto na pauta econômica para vencer com folga o herdeiro do antecessor. A sensação real de progresso, pensou, seria um escudo contra os ataques do adversário na pauta dos costumes, onde a extrema-direita se sai melhor.Mas, em tempos de comunicação digital, ninguém está satisfeito com nada, nem aqui nem nos Estados Unidos.

Nem com o emprego, nem com o poder de compra, nem com os rumos do país.O índice de desaprovação do governo, quase sempre maior que a aprovação, era um alerta e tanto para os desafios da campanha, turbinada no fim por cartadas como reajuste do Bolsa Família, aprovação da 6 por 1 e o fim das bets.Diferentemente do pai, que tinha como bandeira de campanha em 2018 um espantalho chamado “kit gay”, Flávio fixou a campanha no supermercado e explorou na TV e nas redes o cansaço dos eleitores com os limites do bolso.

Seduziu tanto a dona de casa que não compra mais bolacha até o microempresário convicto de que só não se tornou ainda o Bill Gates por culpa dos impostos federais.Esse sentimento é trabalhado o tempo todo pela lógica das redes, uma fábrica de insatisfação em massa. É lá que todo mundo bota a boca (e os ouvidos) no trombone para dizer que não quer só comida, só diversão e arte.

Quer a casa, o carro, o cabelo, os filhos, a vida sexual, as viagens, a churrasqueira e o quintal mais verde do feed do vizinho. Quer, enfim, tudo o que os algoritmos potencializam como projeção.

Uma projeção de vida intangível para vender serviços, bens de consumo e dopamina barata em modo looping.O impacto disso nos afetos políticos é brutal.Em entrevista recente ao jornal O Globo, o estrategista espanhol Antoni Gutiérrez-Rubí explicou as consequências dessa produção de insatisfação em massa no processo eleitoral.

“Vivemos acelerados. O impacto disso nas políticas públicas é devastador.

Planejar uma grande reforma exige prazos mais longos que os de um mandato. Quando a sociedade vive uma realidade digital em que tudo é imediato, ante uma realidade pública lenta e que às vezes não consegue seus objetivos, produz-se uma frustração, e o governo é castigado”, diz.No meio disso tudo, segundo ele, existe uma sobrerrepresentação favorecida pelos algoritmos dos setores mais radicalizados.

“O algoritmo favorece as mensagens de reação e estimula a indignação. É um ecossistema favorável à rejeição.”Em sociedades cada vez mais exigentes, por razões nobres ou artificialmente induzidas, quatro anos é tempo demais diante do avanço acelerado do desânimo, da desesperança e da frustração.

Oito, então, nem se fala. E, para muitos, a melhor maneira de expressar isso, segundo Gutiérrez-Rubí, é mudando o governo.

“Há sociedades mais ansiosas, agitadas e exigentes, que usam o voto para castigar, não para premiar”, diz.Na reta final, a campanha de Lula mostrou que as redes que frustram também mobilizam. Isso quando os setores mobilizados são confrontados pela possibilidade de lidar com uma frustração maior – no caso, a vitória do inimigo.

O campo de batalha foi o WhatsApp, e o resultado da reação coordenada pelo deputado André Janones (Rede-MG) se viu nas ruas e nas urnas.Para obter o quarto mandato, Lula precisou de uma virada até então inédita. Desde a redemocratização, ninguém que sai atrás no primeiro turno consegue vencer no segundo.

Lula conseguiu. Mais que isso, conseguiu quebrar a maldição que em eleições passadas abateram Trump, Bolsonaro e Biden.Em uma disputa tão acirrada, a base popular de apoio é um ativo fugidio.

Nem Lula espera retomar os tempos em que era aprovado por mais de 80% da população.  

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