Rede Sustentabilidade diz receber com 'indignação e perplexidade' anúncio da permanência de Marina Silva na sigla
A direção nacional da Rede Sustentabilidade disse ter recebido com “indignação e perplexidade” a nota da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, na qual a ambientalista anunciou no sábado passado sua permanência na legenda. O grupo acusa Marina de recusar-se a dialogar com o diretório da sigla e alega que em nenhum momento sugeriu seu desligamento.
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Em nota publicada nas redes sociais, o diretório nacional rebate o argumento da ala aliada de Marina, que acusa a administração de desrespeitar o princípio horizontal estruturante da legenda. O grupo comandado por Paulo Lamac argumenta que não procede “a tentativa de apresentar saídas recentes de mandatários como fruto de perseguição” e acusa a ala da ambientalista de praticar “lawfare: o uso abusivo da Justiça como instrumento de disputa interna e perseguição política".
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“Não atender pretensões pessoais de uma liderança não é autoritarismo. É compromisso com a vida democrática interna. Democracia exige respeito às decisões coletivas, e não o direito de uma minoria de paralisar o partido, judicializar impasses políticos ou tentar bloquear suas contas”, afirma a nota da sigla, que reforça apoio à campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição e a de Fernando Haddad (PT) ao governo de São Paulo.
Marina anunciou na semana passada que optou por permanecer na Rede Sustentabilidade para “continuar trabalhando pela restauração dos princípios e valores” do partido. O anúncio da decisão da ambientalista ocorreu após a recusa de convites do PT e PSB diante de atritos na sigla que ela ajudou a fundar provocar a debandada de aliados.
“A permanência na Rede é uma decisão política que reafirma o compromisso pela reeleição do presidente Lula e pela vitória importante para São Paulo de Fernando Haddad, e projeta uma atuação cada vez mais ativa no fortalecimento do imprescindível bioma democrático brasileiro”, disse Marina em nota.
Segundo a ex-ministra, a escolha é coerente com a visão que vem defendendo publicamente: de que no “bioma da democracia brasileira, para aumentar sua capacidade de proteger-se dos constantes ataques autoritários, precisa se compor de ecossistemas partidários plurais e fortalecidos”.
“A Rede foi criada com base em princípios e valores democráticos, com o propósito de ser um espaço de pluralidade, diversidade, participação cidadã, inovação política e democracia interna. É com esse espírito que seguirei atuando, trabalhando para resgatar esses princípios e valores que lastreiam sua fundação, mas que vêm, de forma antidemocrática, sendo ilegitimamente subtraído”, afirma Marina.
Ao longo dos últimos meses, Marina afirmou nos bastidores que iria lutar para permanecer na Rede “até o fim”, mas o calendário eleitoral poderia ser um obstáculo. A ministra deseja ser candidata ao Senado por São Paulo, e lideranças da federação do PSOL com a Rede trabalham para que ela seja o segundo nome da chapa de Haddad à Casa no estado.
“Continuaremos fazendo o bom combate da democracia e guardando a esperança de que a Rede retome a condição plural e democrática, como um espaço de coexistência legítima entre diferentes correntes de pensamento, que aliás foi a base de nossas relações nos primeiros anos de funcionamento partidário”, disse.
A ambientalista entende que uma eventual candidatura neste ano só existiria caso respeitasse três requisitos: 1) apoio à reeleição do presidente Lula; 2) construção coletiva e fortalecimento de uma frente ampla, sobretudo em São Paulo; e 3) o fomento à agenda verde. Até o momento, a chapa petista no estado já conta com Haddad como nome ao governo, e Simone Tebet (PSB) ao Senado.
“No cenário político-eleitoral de São Paulo, também pretendo intensificar ainda mais minha atuação no debate público, contribuindo para a construção de alternativas que assegurem o coeficiente civilizatório do país – um desafio no qual o estado de São Paulo tem papel decisivo. Coloco, assim, meu nome à disposição do debate dentro do nosso campo político para representar a Federação liderada pelo PSOL, na segunda vaga para o Senado, ao lado de Simone Tebet, do PSB”, afirma.
Conflitos na Rede
O tensionamento da relação de Marina com a sigla se aprofundou em abril do ano passado após a eleição para a presidência do diretório nacional do partido. O candidato apoiado pela ambientalista foi derrotado por Paulo Lamac, nome referendado por Heloísa Helena — que está rompida com a ministra desde 2022.
Aliados de Marina publicaram, em dezembro, um manifesto contra a direção nacional da sigla. Eles criticam mudanças no estatuto partidário e afirmam haver uma perseguição interna contra a ministra.
Enquanto Marina se define como “sustentabilista” e optou por integrar a gestão Lula como ministra do Meio Ambiente, Heloísa se posiciona como oposição ao Planalto e defende o “ecossocialismo”, corrente que associa a preservação ambiental à mudança do sistema econômico.
Em janeiro, a Justiça do Rio de Janeiro anulou o congresso nacional da Rede Sustentabilidade que culminou na vitória do aliado de Heloísa Helena. À época, a ala próxima à ministra entendeu que a atual situação na sigla criou insegurança política e jurídica nas decisões futuras da atual cúpula da Rede.
A legenda disse, por sua vez, ter recebido "com surpresa a decisão" e reafirmou "seu compromisso com a lisura, a transparência e a democracia — princípios estes que sempre orientaram a sua atuação partidária".
No mês passado, o grupo de Marina teve uma nova vitória jurídica: a Justiça do Distrito Federal concedeu uma liminar para dirigentes próximos à ministra na qual suspende os efeitos da resolução partidária que remete todos os pedidos de desfiliação por justa causa à anuência do diretório nacional da legenda.
A ação afirma que a resolução se trata de um “instrumento de coerção política editado às vésperas da janela partidária, o qual produz reflexos diretos e imediatos no processo eleitoral, na medida em que a resolução pretende, na prática, forçar os atuais mandatários a permanecerem na agremiação contra sua vontade, bloqueando qualquer negociação política que implique eventual desfiliação”.
