Recuperação Judicial faz dívida recente da SAF com fundo saltar de US$ 25 milhões para US$ 55 milhões no Botafogo
O pedido de recuperação judicial da SAF do Botafogo teve um efeito imediato fora do processo: ativou uma cláusula contratual que eleva automaticamente para US$ 55 milhões (cerca de R$ 275 milhões) a dívida com o fundo GDA Luma, ligada a um empréstimo original de US$ 25 milhões.
Pelo contrato feito por Textor, obtido pela reportagem, a simples entrada em um processo de reestruturação — como a recuperação judicial — é considerada um “evento de default”. A previsão está na cláusula 9.1.12, que inclui explicitamente pedidos de recuperação judicial como gatilho para antecipação e endurecimento das condições da dívida.
A consequência aparece na estrutura de retorno mínimo do acordo. O documento estabelece que, nesses casos, o credor passa a ter direito a um retorno mínimo equivalente a 2,0 vezes o valor investido, acrescido de correção mensal. Na prática, isso fixa imediatamente o valor mínimo devido em US$ 55 milhões, independentemente do prazo ou da origem dos recursos usados para pagamento.
O mecanismo já vinha sendo apontado internamente como um dos pontos mais sensíveis do contrato, por prever uma remuneração elevada mesmo em cenários adversos. Agora, com o pedido de recuperação judicial já protocolado pela SAF, o dispositivo deixa de ser uma hipótese e passa a ter efeito concreto sobre o passivo do clube-empresa.
Outro ponto considerado crítico é que o contrato prevê o pagamento desse retorno mínimo “independentemente da fonte, do momento ou da natureza jurídica” dos recursos, o que, na prática, limita a capacidade de negociação da dívida dentro do próprio processo de recuperação. O entendimento de interlocutores envolvidos é que o crédito sequer poderia ser incluído na lista de credores nos moldes tradicionais.
A operação é alvo de forte contestação interna. Integrantes do Botafogo associativo articulam questionar judicialmente toda a estrutura do acordo, sob o argumento de que as condições são abusivas e de que parte dos recursos não teria sido destinada diretamente ao caixa da SAF no Brasil.
O episódio adiciona mais uma camada de pressão ao já delicado cenário financeiro do clube. Como mostrou O GLOBO, o pedido de recuperação judicial foi apresentado com base em um passivo superior a R$ 2,5 bilhões e na necessidade de reorganizar dívidas de curto prazo, estimadas em cerca de R$ 1,4 bilhão até o fim do ano.
