Recordistas de votos em São Paulo tiveram empurrão de Nikolas e apelam para 'guerra cultural' olavista na internet

Recordistas de votos em São Paulo tiveram empurrão de Nikolas e apelam para 'guerra cultural' olavista na internet - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Lucas Pavanato de Oliveira tinha 18 anos quando deixou Sorocaba, no interior de São Paulo, e se mudou para a capital. Passou a viver em um sótão dentro de um comitê político na Vila Mariana e começou a fazer política pelas ruas, primeiro ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), organização que ganhou projeção durante as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Em 2018, tornou-se estagiário no gabinete do então vereador Fernando Holiday e depois passou por outras funções até chegar à chefia de gabinete. Pavanato e sua acólita, a recém eleita deputada estadual Eduarda Campopiano (PL), fazem parte de uma nova safra de políticos inspirados na "guerra cultural" proposta pelo guru Olavo de Carvalho, com forte presença digital e um empurrão decisivo do deputado federal mineiro Nikolas Ferreira (PL-MG). Foi com o celular em mãos que a dupla seguiu, literalmente, os passos do correligionário na Caminhada pela Liberdade, de Minas Gerais até Brasília, convocada em apelo à anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de estado, e pelos envolvidos na quebradeira do 8 de Janeiro. A passagem de Pavanato pelo MBL, movimento de que deixou debaixo de críticas, seria apenas a primeira etapa da sua trajetória. O influenciador digital com um repertório de vídeos constrangendo estudantes e outras pessoas na rua se aproximou do PL depois de terminar como suplente a deputado estadual, em 2022, pelo Novo, com 36.258 votos. Dois anos depois, o apelo ao bolsonarismo surtiu efeito: multiplicou a votação por mais de quatro e foi eleito vereador de São Paulo com 161.386 apoios nas urnas, o maior número registrado. Na Câmara Municipal, colegas e adversários tinham a certeza de que Pavanato estava de passagem. Ele fazia parte de um grupo avaliado como "barulhento" e focado nas redes sociais, com um claro desejo de ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados dentro de dois anos. Nem todos tiveram o mesmo sucesso: Zoe Martínez (PL), Rubinho Nunes (União), Adrilles Jorge (União) e Janaína Paschoal (PP) ficaram pelo caminho. Pavanato foi eleito deputado federal por São Paulo com 3.038.438 votos este ano. A votação fez dele o segundo deputado federal mais votado da história do país — atrás apenas do próprio Nikolas, que superou os 3,1 milhões em Minas Gerais. Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal que decidiu viajar para os Estados Unidos e articular sanções contra autoridades brasileiras para pressionar o julgamento contra o pai no Supremo, teve 1,8 milhão em 2018, o recorde anterior. Para alcançar a votação expressiva, o parlamentar adotou as redes sociais e o conflito como principal instrumento político. Abordagens de rua e confrontos com adversários ideológicos em universidades ajudaram a construir a persona “anti-woke” de Pavanato, que se coloca contra pautas identitárias associadas à esquerda. Entre os temas que decidiu levar para o Legislativo estavam a proibição do aborto, a restrição de políticas relacionadas à população trans e a revisão da política de cotas raciais. Pavanato falava em impedir que hospitais “esterilizassem” crianças para procedimentos de redesignação de gênero, afirmou que o homem deveria exercer principalmente o papel de provedor, enquanto a mulher teria como função central cuidar da casa e da família, e atribui o aumento de mães solo a um “comportamento sexual libertino” das mulheres. Várias das propostas não cabem a um parlamento estadual, menos ainda ao municipal, um detalhe pouco levado em conta antes pelo eleitor paulista e que só reforça o seu objetivo de curtíssimo prazo. Em janeiro de 2025, quando assumiu o cargo de vereador em São Paulo, Pavanato apresentou, em três dias, três projetos voltados à população trans. Um deles estabelecia o sexo registrado no nascimento como critério para participação em competições esportivas; outro buscava impedir tratamentos hormonais e cirurgias de transição de gênero em menores de 18 anos; e um terceiro determinava que banheiros e vestiários fossem utilizados de acordo com o sexo de nascimento. Enquanto tentava avançar as pautas, Pavanato afirmou durante um discurso que a vereadora Amanda Paschoal (PSOL), uma mulher trans, era “biologicamente homem”. O discurso evidentemente foi parar nas redes sociais, onde o engajamento positivo e negativo servem à mesma função: alcançar cada vez mais gente e até normalizar posicionamentos discriminatórios. Paschoal levou o caso ao Ministério Público de São Paulo, pedindo investigação por injúria transfóbica. Nos seus quase dois anos de atuação, Pavanato teve seis projetos transformados em lei, todos em coautoria. O "Dia da Música Clássica nas Escolas Municipais", o "Dia Municipal de Combate à Violência Infantil", a "Semana de Conscientização sobre a Síndrome Pós-Aborto", o "Cantinho do Acolhimento" para pessoas neurodivergentes e o "Dia da Escola Bíblica" levam a sua assinatura. Ele também apoiou a retirada do nome de Romualdo Hatty do Viaduto Bresser, na Mooca, para homenagear a bispa Keila Ferreira, transferindo a homenagem de Hatty ao Viaduto Dona Matilde. De todos os projetos de autoria própria de Pavanato, pelo menos 18 são de cunho ideológico, como a mudança de cotas raciais por cotas sociais na capital paulista, o projeto que cria o intervalo bíblico na rede municipal de ensino, a inclusão do combate à “cristofobia” no calendário do município e a proibição da linguagem neutra nas escolas. Pelo menos 12 projetos falam sobre aborto. Ele também tentou incluir na R. Estados Unidos, no Jardim Paulistano, o nome de "Charlie Kirk", o ativista de extrema direita morto em um atentado, propôs o título de cidadão paulistano para André Mendonça e o título de persona non grata para Alexandre de Moraes, ministros que rivalizam no Supremo. Agora, no Legislativo federal, entre suas propostas estão proibir terapias hormonais como forma de transição de gênero para menores de 18 anos, impedir mulheres trans de usar banheiros femininos e barrar sua participação em determinadas competições esportivas. Também propôs acabar com cotas raciais, de gênero e exclusivas para travestis, substituindo-as por critérios socioeconômicos. São pautas que já tinha defendido, sem sucesso, em âmbito municipal, numa transferência pouco lógica. — Quero que a maioridade penal seja, no mínimo, reduzida. O Nikolas vai ser um dos meus maiores aliados lá dentro. Nós vamos ter um grupo dentro da Câmara, que eu tenho certeza de que vai ser de parlamentares eleitos e bem votados. São os jovens, que entraram na direita por caminhos parecidos, leitores de Olavo de Carvalho e de outros autores conservadores. E nós juntos vamos trabalhar em Brasília pra que as nossas pautas avancem — disse Pavanato, em entrevista ao GLOBO, um dia antes do pleito. Herdeiros A candidata mais votada para a Assembleia Legislativa do Estado (Alesp), com 1.956.238 apoios nas urnas, faz parte do mesmo grupo de Pavanato. Desde 2021, Eduarda Campopiano, 23 anos, se dedica a uma conta nas redes sociais em que posta fotos em manifestações bolsonaristas e ao lado de suas referências políticas. Entre ataques contra a esquerda em podcasts e reacts, discurso negacionista na pandemia, idas a clubes de tiro e, sobretudo, idolatria à família Bolsonaro, conseguiu acumular seguidores e virou uma aposta regional de Nikolas e Pavanato. Assim, há dois anos, conseguiu mandato como vereadora de Praia Grande, no litoral paulista. Num desses materiais com o objetivo de polemizar, ela participou de um “debate” promovido por um podcast de extrema direita. Nele, acusou outra convidada de importunação sexual e agradeceu a Deus pela colonização do Brasil, descrevendo povos indígenas como canibais e matadores de crianças. — Glória a Deus que colonizaram. Glória a Deus que catequizaram as índias. Glória a Deus que a extrema direita chegou e falou para os índios: "Galera, fazer sacrifício e comer o braço do irmãozinho não é legal, enterrar criança viva" — disse a agora deputada eleita. Campopiano apresentou 20 projetos na Câmara Municipal de Praia Grande antes de tentar ascender na política. A maioria foi arquivada, mas dois viraram leis: um que obriga a prefeitura a ofertar vagas a irmãos na mesma escola e um segundo que anula a nomeação no poder público municipal de pessoa condenada por estupro e outros crimes sexuais. O GLOBO procurou a candidata nesta segunda (5), mas ela não atendeu aos pedidos de entrevista. A outros canais, atribuiu o sucesso nas urnas a “falar o que pensa” e prometeu reforçar o “combate cultural” na Alesp, em temas como aborto. Segundo declarou ao UOL, ela quer que a prática não seja “apenas proibida”, mas “impensável”.

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