Reciclagem e economia criativa ganham protagonismo na Expo Favela 2026

 

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No segundo dia da Expo Favela Innovation Rio 2026, realizado neste sábado (28), no Museu do Amanhã, na região portuária do Rio, a sustentabilidade apareceu como um dos eixos centrais do evento. Entre estandes e apresentações, empreendedores das periferias mostraram como a reciclagem e o reaproveitamento de materiais têm se consolidado como estratégias de geração de renda e inovação.

A quarta edição do evento, que segue até domingo (29), reúne iniciativas que conectam empreendedorismo, cultura e tecnologia, ampliando a visibilidade de negócios periféricos e aproximando esses projetos de investidores e oportunidades de mercado.

Entre os destaques está o trabalho de Paulo Ney Gregório, de 51 anos, conhecido como Greg Rio, que transforma lacres de latinhas descartadas em bolsas artesanais.

— Meu trabalho é feito a partir do lacre de latinhas. Muitas pessoas consomem e descartam nas praias, e eu faço esse recolhimento. Transformo em bolsas sustentáveis, ajudando o meio ambiente e garantindo a minha renda — explica.

Morador de Maricá, na Região Metropolitana, ele percorre diariamente praias da Zona Sul, como Copacabana e Ipanema, coletando o material que serve de base para as peças. Cada bolsa pode levar centenas de lacres e é produzida manualmente, com técnica de crochê.

— Esse trabalho mudou a minha vida. Muita gente não dá valor para a latinha descartada, mas ela pode gerar sustento. Hoje tenho duas fontes de renda: a venda das bolsas e do material reciclado — afirma.

A produção mensal varia entre 24 e 30 peças, mas a demanda já ultrapassa sua capacidade individual.

Transformar resíduos em cadeia produtiva

A lógica do reaproveitamento também estrutura o trabalho de João Carlos Coelho Dias, de 71 anos, gestor ambiental e morador da Cidade de Deus. Ele integra o projeto "Revlog Ambiental" que transforma resíduos de coco verde em produtos com valor econômico.

— A gente reaproveita o coco para produzir biocarvão, chips para paisagismo, pellets para bioenergia e fibra para hortas. Um resíduo que iria para o aterro sanitário passa a ter valor ambiental e econômico — explica.

O gestor ambiental João Carlos exibe fibra para plantas na Expo Favela 2026

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A iniciativa atua nas praias entre o Leme e Copacabana, coletando cocos descartados e encaminhando o material para processamento. A produção pode chegar a uma tonelada por período, dependendo da demanda.

— Nosso objetivo é fortalecer essa cadeia sustentável, mostrando que é possível transformar resíduos em oportunidade econômica, com impacto ambiental positivo — diz.

Moda sustentável e empoderamento feminino

Na área da moda, o reaproveitamento de materiais ganha novos significados ao se conectar com identidade, cultura e autonomia econômica.

Fundadora da Retalhos Cariocas, a estilista, de 47 anos, transforma resíduos têxteis em peças autorais desde 2008, na Barreira do Vasco, em São Cristóvão.

A empreendedora Silvia Daniele Barbosa exibe bolsa da sua coleção na Expo Favela 2026. Ela posa ao lado da mãe Maria de Fátima, de 79 anos.

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— A marca nasceu do incômodo com o desperdício na indústria da moda e com a desvalorização da mão de obra. Eu queria criar sem ignorar essas questões — afirma.

Utilizando retalhos de confecções locais, garrafas PET, lonas e outros materiais descartados, o projeto também oferece capacitação gratuita para mulheres da comunidade.

— Muitas mulheres que passam pelo projeto buscam independência financeira. Nosso trabalho é também abrir caminhos por meio da moda e da criatividade — diz.

Hoje, a marca produz bolsas, figurinos e peças sob medida, além de manter uma rede colaborativa de mulheres que atuam conforme a demanda.

A reutilização de tecidos também é a base do trabalho da artesã Patrícia Nunes Soares, de 56 anos, fundadora da Pathy Jeans, em Paciência, na Zona Oeste do Rio.

A artesã Patrícia Nunes Soares mostra peças produzidas com jeans reciclável na Expo Favela

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— O que seria lixo para alguns, para mim vira luxo, e cada peça é única — resume.

Patrícia começou a empreender a partir da customização de uma calça jeans e hoje produz cerca de 120 peças por mês, entre bolsas, mochilas e itens de decoração.

— Consigo reaproveitar até 98% de uma calça jeans. O que sobra, ainda destino para outras pessoas produzirem artesanato. Praticamente nada se perde — explica.