'Ranking' de alunas e mensagens misóginas levam a debate em escola de elite em SP

 

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Um grupo de alunas do Colégio São Domingos, em Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo, começou uma mobilização que contou com a adesão dos alunos contra a circulação de mensagens misóginas envolvendo especialmente adolescentes do nono ano, que tem entre 14 e 15 anos de idade.

O colégio está com cartazes pendurados que trazem mensagens contra misoginia e tem promovido debates e palestras. Na semana passada, alunos do colégio foram vestidos de roxo – cor que simboliza a luta feminina por justiça e igualdade de direitos.

Pais de alunos do colégio de elite que foram suspensos dizem que o caso teve como origem uma lista, feita por alguns adolescentes, que fazia um “ranking” das alunas do nono ano.

Um deles disse à CBN que fez um levantamento de todas as mensagens do filho, mas não encontrou o material. O adolescente contou a ele sobre a lista que objetificava os corpos das colegas, mas que não havia apologia ao estupro. Segundo ele, o histórico apontou para um grupo onde foram compartilhadas mensagens e figurinhas misóginas com referência ao criminoso sexual Jeffrey Epstein.

O pai disse que o filho se retratou ao retornar à escola. O adolescente escreveu uma carta se desculpando com todas as colegas. Além disso, o pai ressaltou que sabe que as atitudes foram erradas e que ainda fez o filho estudar sobre o caso Epstein.

A mãe de uma das alunas do nono ano relata que todos os estudantes e os pais foram chamados pela coordenação. A escola suspendeu os envolvidos e as aulas da turma, e organizou um comitê com os responsáveis pelos adolescentes para discutir a questão de gênero.

Ela elogia a mobilização das alunas que organizaram uma manifestação: “As meninas fizeram um movimento muito importante de reação já desde o grupo grande de WhatsApp e se articularam com outras meninas também do ensino médio. Para produzir cartazes, materiais e também discussão a respeito da questão da misoginia, da repercussão do discurso de ódio, do discurso de ódio sobre mulheres. Foi uma discussão muito potente entre elas, e eles estavam exatamente investindo nisso nos horários de aula.”

Claudia Costin, especialista em políticas educacionais e ex-diretora de Educação do Banco Mundial, conta que existem iniciativas para trabalhar questões de gênero nas escolas: “Na Base Nacional Comum Curricular, está previsto um trabalho de combate a preconceitos, comunicação não agressiva e de justiça restaurativa. Nós temos que incentivar que as escolas cada vez mais trabalhem com esses conteúdos, especialmente ao trabalhar no Fundamental 2 e no Ensino Médio, onde essas questões aparecem com mais ênfase.”

O que diz o Colégio São Domingos?

Em nota, Colégio São Domingos detalhou todas as ações tomadas após o episodio e destacou que está mobilizada para enfrentar com a sensibilidade, a responsabilidade e o sigilo que competem a uma instituição de educação. Leia na íntegra:

Desde que tomamos conhecimento deste fato, que se originou na virtualidade das relações que os adolescentes estabelecem por meio do acesso ao celular, às mídias sociais e a conteúdos digitais a eles vinculados, estamos mobilizados em enfrentar essa situação com a sensibilidade, a responsabilidade e o sigilo que competem a uma instituição de educação.

Como ação imediata, as seguintes medidas educacionais foram adotadas: escuta e acolhimento das estudantes; conversa com os estudantes autores das postagens; conversas reservadas com os familiares dos estudantes envolvidos nas publicações; suspensão temporária dos envolvidos de todas as atividades curriculares e extracurriculares; conversas com as turmas, com amplo comprometimento dos educadores na discussão do tema em sala de aula.

Concomitante a essas ações, membros da equipe pedagógica compõem o Grupo de Trabalho formalmente instituído, no dia 11 de março, em ato promulgado pelo diretor presidente da Associação Cultural São Paulo (mantenedora do colégio), para apurar e acompanhar os desdobramentos dessa ocorrência, assim como indicar medidas restaurativas cabíveis.

Todos os posicionamentos da escola estão sendo tomados em amplo diálogo com os educadores, os familiares e os estudantes das séries envolvidas.