Rafah reabre parcialmente enquanto 20 mil palestinos esperam retirada médica de Gaza em crise humanitária
A passagem fronteiriça de Rafah, principal ligação entre a Faixa de Gaza e o Egito, reabriu parcialmente nesta segunda-feira, após quase dois anos bloqueada pelo Exército de Israel em meio ao conflito com o Hamas. A liberação da única rota entre o enclave e um território não israelense era aguardada com particular ansiedade pelos cerca de 20 mil palestinos à espera de atendimento médico no exterior — uma espera que ainda deva se prolongar, enquanto as estritas condições para passagem na fronteira não estão totalmente claras e a crise humanitária no território continua a ser denunciada por órgãos internacionais como grave.
Entenda: Israel reabre parcialmente passagem de Rafah e veta presença de Médicos Sem Fronteiras em Gaza
Mesmo com a trégua: Ataques aéreos israelenses deixam ao menos 32 mortos e 30 feridos na Faixa de Gaza
Autoridades israelenses confirmaram a reabertura do posto fronteiriço — um ponto central no plano do presidente americano Donald Trump para pôr fim à guerra em Gaza — após a chegada de uma missão de vigilância europeia à região nesta segunda-feira. Fontes no Egito afirmaram que o número de pessoas autorizados a passar pelo posto nos primeiros dias será limitado a 50 em cada sentido. A TV israelense Kan informou um número ligeiramente superior: 150 pessoas estariam autorizadas a sair do território israelense, incluindo 50 doentes, enquanto 50 pessoas poderiam cruzar do Egito para Gaza.
Initial plugin text
As condições para a passagem também levantam dúvidas nos dois lados da fronteira. Sabe-se que um serviço de transporte por meio de ônibus foi organizado, mas uma fonte ligada ao Comitê Nacional para Administração de Gaza, grupo de tecnocratas que deve ficar responsável pelo governo civil do enclave, questionou se os próprios palestinos teriam que pagar pelo serviço. A preferência para as saídas em direção ao Egito seriam de doentes com seus acompanhantes, mas fontes palestinas e israelenses falaram sobre limitações àqueles que têm uma autorização prévia, emitida pelo governo de Israel.
Fontes palestinas ouvidas pelo jornal israelense Haaretz criticaram a falta de informação no enclave sobre o sistema de saídas em direção ao Egito, enquanto relataram haver uma exigência por parte do Cairo sobre um número similar de saídas e entradas de cidadãos palestinos do país — que atualmente abriga cerca de 80 mil palestinos deslocados pelo conflito.
— Os civis que não se enquadram na definição de casos humanitários também poderão sair? — questionou uma fonte ligada ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza à publicação israelense. — E o que acontecerá com aqueles que retornam do Egito?
Grande parte da população que permaneceu no enclave está deslocada dentro do próprio território, e vive em moradias temporárias, muitas delas tendas improvisadas. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde alertou para o aumento de infecções respiratórias agudas, incluindo casos graves que requerem cuidados intensivos, em meio ao inveno e às condições precárias das instalações de água e saneamento. Pelo menos 11 crianças morreram de hipotermia no território desde o início do inverno, segundo a OMS.
Ambulâncias aguardam em fila no lado egípcio da passagem de fronteira de Rafah com a Faixa de Gaza
AFP
Esperança e ansiedade
Em meio ao frágil cessar-fogo, que tanto Israel quanto o Hamas acusam ter sido violado, doentes e feridos esperam com particular ansiedade por uma chance de deixar o território em busca de ajuda médica especializada — uma vez que a ajuda humanitária no território, já carente a anos pela guerra, ficou ainda mais sob risco, com a ordem israelense para saída da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) de Gaza, após recusa em fornecer a lista de seus funcionários palestinos.
— Quanto mais espero, pior fica o meu estado, e temo que os médicos tenham de amputar minhas duas pernas — contou Zakaria, um homem de 39 anos ferido em 2024 em um bombardeio israelense, questionado pela AFP sobre a reabertura.
Mohamed Nasir, outro homem palestino ferido em ação israelense, afirmou à agência francesa que a saída de Gaza era sua única chance de encontrar a ajuda médica necessária para sua condição de saúde.
Jovens pacientes palestinos esperam retirada: cerca de 20 palestinos precisam de tratamento no exterior
Bashar Taleb/AFP
— A passagem de Rafah é um salva-vidas — disse Nasir. — Preciso de uma operação séria que não está disponível em Gaza.
Embora os enfermos sejam tratados como prioridade, não são os únicos a esperarem pela chance de se afastarem da guerra. Asma al-Arqan, uma estudante palestina, disse vislumbrar um futuro melhor com a abertura de Rafah, porque lhe permitiria prosseguir com os estudos no exterior.
O porta-voz do Hamas em Gaza, Hazem Qasem, advertiu no domingo que "qualquer obstrução ou condição prévia imposta por Israel" constituiria uma violação" da trégua.
Condições no terreno
Enquanto a embaixada palestina no Cairo informou que os cidadãos que desejassem voltar a Gaza só poderiam levar uma quantidade limitada de pertences, sem objetos metálicos ou eletrônicos, e com quantidades limitadas de medicamentos, uma fonte na fronteira declarou à AFP que apenas algumas dezenas de pessoas chegaram pelo lado egípcio nesta segunda-feira na esperança de conseguir entrar em Gaza.
Interlocutores palestinos dizem que os cidadãos do enclave prefeririam retornar a seu território ancestral, mas que isso está condicionado a uma reconstrução da região, dizimada pela guerra e atualmente inserida em uma realidade de miséria e entrada de ajuda controlada por Israel — o único posto de controle por onde entram carregamentos com insumos é o de Kerem Shalom, dentro do território do Estado judeu.
A ingerência sobre a ajuda internacional foi alvo de críticas da relatora especial da ONU para os territórios ocupados, Francesca Albanese. Em uma publicação no X, a autoridade se manifestou sobre a proibição de entrada da Médicos Sem Fronteiras em Gaza, afirmando que Israel não tem "autoridade" para tomar tal decisão.
"Israel NÃO tem autoridade para impedir a entrada de ninguém no território palestino que ocupa ilegalmente. Parem de normalizar a ocupação ilegal cedendo aos seus ditames. Respeitem a deliberação do Tribunal Penal Internacional: obriguem Israel a pôr fim à ocupação. A hora da justiça é AGORA", escreveu a relatora. (Com AFP)
