A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 51,79% dos votos contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno das eleições no domingo (25) representou uma virada inédita e garantirá a Lula seu quarto mandato presidencial a partir de 2027. Na avaliação do historiador Lincoln Secco, o resultado do pleito deve-se a três razões, em especial à radicalização do programa partidário na segunda etapa da campanha.
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“A vitória dele se deu primeiro porque teve uma verdadeira insurgência nas ruas contra a volta da família Bolsonaro ao poder, em segundo, a uma centralização de comando nas redes sociais e, em terceiro, a radicalização do programa partidário, porque se ele não tivesse radicalizado ele não conquistaria esse engajamento na rua e nas redes”, afirma, Secco, professor de História Contemporânea na USP e autor do livro “História do PT”.
Para o professor, será difícil Lula sair bem do seu quarto mandato perante à opinião pública se não cumprir essa agenda mais radicalizada que o próprio petista prometeu nos dois discursos feitos depois da vitória. A agenda inclui uma possível Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para instituir a tarifa zero no transporte público em todo país, a ampliação do Pé-de-Meia para universitários, perdão das dívidas de Microempreendedores Individuais (MEI) e outras benesses eleitorais que, segundo estimativas, chega na casa dos R$ 290 bilhões.
“Eu acho que vai ser um governo de impasse, porque se o Lula se dobrar ao Congresso ele perde a popularidade que ele ganhou neste segundo turno”, diz Secco. Questionado se o governo pode continuar incentivando manifestações caso os novos parlamentares, que tomam posse em 2027, imponham muitas dificuldades ao quarto mandato, o professor considera difícil que isso aconteça.
“O histórico do PT ocupando a Presidência não é o de mobilização da população. O que pode acontecer é que essa base social se engaje espontaneamente para defender as pautas que serão caras, mas da parte do próprio governo acho difícil, a natureza do próprio Lula é conciliadora”, avalia.
Diante desse cenário, Secco diz que o PT representa um impasse para a própria base que o elegeu. “É uma base que sempre deseja mais [radicalização e políticas sociais], mas ela só pode ser representada por um partido que chega ao poder e vai ao centro, que é o PT”.
O professor chamou atenção também para as sinalizações para o futuro que Lula fez ao discursar na avenida Paulista depois do resultado. O petista deu a fala ao deputado André Janones (Rede-MG), que ajudou a dar uma guinada na campanha nas redes sociais através do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, com quase 11 milhões de pessoas e também destacou a presença do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e do senador Camilo Santana (PT-CE), coordenadores da campanha.
“Há muitos anos o PT é vitorioso no Nordeste do país, mas o PT do Nordeste não tem a devida representação dentro da estrutura partidária. Esses acenos indicam no que o Lula pensa para os próximos anos”, analisa.
O professor destaca uma ausência sentida no palanque da vitória, do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad. Lincoln acredita que o papel e o forte apoio que Haddad recebe de Lula deve diminuir daqui pra frente.
O espaço que Janones deve ocupar no novo governo ainda é incerto. Secco acredita que pelo deputado ser de “fora do ninho petista”, aliados do presidente tenham resistência a empoderar o parlamentar.
Mas acredita que ele pode desempenhar uma função semelhante à de Guilherme Boulos (Psol-SP), ministro da Secretária-geral da Presidência, como um articulador do campo progressista. O professor também considera que o aprendizado mais importante do pleito é a necessidade de rever o bolsonarismo como representação política.
“Uma das coisas que eu espero que o campo democrático aprenda é que extremismo da direita não é opinião, é uma atitude criminosa. O que falta para o campo democrático é criar um cordão sanitário em torno do bolsonarismo e que a direita busque outras expressões políticas”, diz.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala a apoiadores na Avenida Paulista após ser reeleito para um quarto mandato Amanda Perobelli/Reuters
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