'Quero humanidade radical', diz Zélia Duncan

Fonte: Bandeira da fonte

Pior que morrer.
Essa foi a sensação de Zélia Duncan diante do risco de perder o principal instrumento de sua arte: a voz.
Do diagnóstico do câncer de tireoide à cirurgia, ela passou três meses tendo crises de choro antes de subir ao palco, onde cantava como estivesse se despedindo.
Felizmente, era cedo demais para dizer adeus, para dizer jamais, como provou a bem-sucedida operação que eliminou o nódulo maligno.
Mas a certeza disso só veio quando o médico ouviu a primeira frase que saiu da boca dela no quarto do hospital: “Um, dois, três, testando”.

Quase uma década depois, a artista de 61 anos segue reiterando que vocação é um troço muito sério com o recém-lançado “Agudo grave”, 21º disco de uma carreira de 45 anos.
O álbum — que vira show de 4 a 7 de setembro, no Teatro Paulo Autran, em SP; e no dia 25, no Vivo Rio — é uma ode à voz.
Com ele, Zélia mata no peito a própria história e ressignifica o passado da adolescente que tinha vergonha do timbre grave que se tornaria sua assinatura.
A cantora é a convidada do videocast “Conversa vai, conversa vem”, que vai ao ar hoje, 18h, no Youtube do GLOBO e no Spotify.
Leia trecho da entrevista:
Zélia Duncan e Maria Fortuna no estúdio da redação de OGLOBO
Ana Branco
"Agudo grave" traz dez músicas inéditas com parceiros variados, regravação de Itamar Assumpção, artista recorrente na sua obra, e produção musical da Maria Beraldo, que assina arranjos sofisticados.
Como a contemporaneidade dela encontra seu estilo consolidado?
Maria é uma artista extremamente interessante, respeitada, instrumentista virtuosa.
Tem um pensamento singular sobre a música com algo que todo artista precisa: ser único.
Parecia tão diferente de mim...
Mas temos pontos de contato profundos.
Ela traz frescor e uma ideia do que é a música que me interessa muito.
Fez o que quis pensando em mim e no meu caminho, foi uma de suas elegâncias.
É interessante as camadas de som, o tipo de rigor musical que ela tem.
Tudo que parecia diferente, deu certo de um jeito inesperado.
Maria tem classe e deu um tom MPB.
Ela tem rebeldia musical consistente, mas também é uma chorona, porque ela é clarinetista.
O choro está dentro dela.

Maria Rita.
'Não ouço minha mãe porque dói', diz cantora sobre Elis Regina
Silvia Buarque.
'Sou mulher, mãe, atriz e mastectomizada', diz
O título é como se você acolhesse a própria história, que nem sempre foi confortável...
Isso, todo esse paradoxo da minha voz que me fazia ter vergonha e que vira a minha vida, a minha assinatura no mundo.
De ir ficando mais velha e entendendo o que é essa voz...
que não é só para cantar, mas é ter voz mesmo.
Encarar o público que canta o que você escreve e se identifica.
Fui amadurecendo com esse público e 'Agudo grave', composta com Lucina e que diz 'sinto agudo e canto grave', entra nesse contraste aí.
Temos dor aguda, alegria intensa.
As coisas agudas são muito urgentes.
As coisas, no sentido da música; o chão, é o grave.
Precisei muito ter chão pra caminhar sobre ele.

Do alto de 45 anos de carreira, às vezes, tem a sensação de que algumas músicas foram compostas por outra pessoa?
Estar com pessoas que nunca tocaram comigo é interessante porque eles me apresentam de novo as músicas.
Vê-los tocando pela primeira vez "Enquanto durmo", "Me Revelar", "Sentidos", "Não vá ainda", "Catedral", do jeito diferente que a Maria faz quando coloca a mão numa música, se divertindo, é estimulante.
É um pouco a renovação, o que busquei minha vida inteira, frescor.
Tesão é o mistério da vida.
Manter o tesão é um negócio tão misterioso.
Como se provocar? Meu jeito de manter o tesão é me botando em situações que não conheço.
Mas não sou boba: se eu cair, caio gostoso porque é com meus amigos, pessoas que admiro.

Zélia Duncan em participação no 'Conversa vai, conversa vem'
Ana Branco
Como equilibrar o desejo de experimentar com a cobrança do público por hits? É preciso agradar a plateia...

É meu maior desafio.
Mas, para mim, agradar o público é procurar melhorar, trazer coisas novas.
É delicioso entrar num show e todo mundo cantar, mas tem hora que é preciso bancar: "Calma, vou cantar uma música nova, respirem, não vai doer nada" (risos).
Nós, que temos carreira já longeva, temos que trazer alguma coisa surpreendente.
Antes de mais nada, para nós mesmos.
É um pouco egoísta o negócio...
Para vender meu peixe, tenho que acreditar nele.

'Brigo como 'chatinho', que é como chamo o chat de GPT.
É a coisa que trato pior na minha vida, não peço' por favor', nem agradeço.
Falei que ele era um vampiro, porque chupou tudo das pessoas.
Sabe o que ele escreve de volta? "E você me dá o pescoço".

Você sempre fala de temas atemporais como amor em suas canções.
Mas também de assuntos dos tempos atuais, como na música "E aí, IA?" (parceria com Alberto Continentino), em que propõe uma humanidade radical...

Esse é o mote pra mim, eu quero humanidade radical, como diz essa letra: "Eu quero humanidade radical/ Boca e dente/ Frio e quente ardendo no varal/ Achando o sentimento uma coisa sensacional ".
Se estou dizendo que gosto de ser imperfeita, ilimitada , e aí, IA? Tô preocupada, Maria.
Isso está na nossa vida de um jeito irremediável.
Daqui 20 anos, a criança não vai saber que alguém sentou num piano pra fazer uma música, pegou uma tela e pintou um quadro.
Brigo como 'chatinho', que é como chamo o chat de GPT.
É a coisa que trato pior na minha vida, não peço' por favor', nem agradeço.
Falei que ele era um vampiro, porque chupou tudo das pessoas.
Sabe o que ele escreve de volta? "E você me dá o pescoço".

'Quando apareci, teve um crítico de jornal que disse que eu devia ter algum problema de hormônio'.
Espertinho...
A expressão "um amor Caymmi", da canção "Calmo" (parceria com Zeca Baleiro), é inspirada na relação com sua companheira, Flavia Pedras, que assina a capa do disco?
Acho que é.
Nunca fiquei 10 anos com ninguém.
E Flavia inaugura uma coisa diferente.
A gente se conheceu com 50 anos e conseguimos ultrapassar a barreira do tempo.
A relação mais longeva dela era o Jô (Soares, com quem Flavia foi casada).
Brinco que é 'um amor Caymmi', mas tem o resto da letra...
"Mão onde a mão se ampara/ Pele da minha língua/ Onde seu nome vibra/ E o beijo se prepara".
Ou seja...
a gente não tá 'morta', né? (risos).
Antonio Fagundes.
'Não sou meu tipo de homem'
Claudia Raia.
Atriz fala sobre seguro das pernas, amores e maternidade 50+
Calmo, sim, mas morta nunca.
A libido continua on...
A gente tenta, né, Maria? (risos)
Você e Flavia resolveram ficar juntas na pandemia, assinaram união estável...
O que descobriu de mais importante sobre o amor com ela?
A permanência.
Não conhecia.
Claro que o negócio de a gente estar mais madura...
a importância do companheirismo.
É verdade essa história de ser amiga do seu amor.
E a gente tem uma situação espacial privilegiada, eu tenho o meu espaço, e ela o dela em casa.
Cada uma tem um quarto.
Pra mim, isso era impensável.
Sapata raiz, né? (risos).
Aprendi a ficar colada, era tudo junto.
Flavia é bem mais independente que eu.

Flavia e Jô Soares, mesmo separados, mantinham uma rotina íntima da qual você tinha um ciuminho por não ser incluída né? Compreensível para alguém que sempre lutou pela visibilidade...
Eu não era incluída.
Reajo mal, me esconder é difícil, tenho 1 metro e 71...
Esse negócio de 'tamo junta' muito bem, na paixão, depois vai pra lá e é silêncio total...
Não reagia bem.
E olha que já tinham se separado há muito tempo quando eu apareci, mas era desconhecido para mim, ia ter um ciuminho...

Até a coisa se reverter
Ele mesmo foi muito inclusivo comigo.
Faltava ela dizer mais...
ela estava acostumada a não dizer.
Fui ficando, ficando e teve que dizer.
Tenho saudade dele, do que aconteceu com a gente.
Minha geração cresceu com o Jô, estar naquela convivência com um ídolo, aquela cabeça.
E, na intimidade, era a mesma coisa: o cara que conta histórias de todo o meio musical, culto, engraçado.
Passamos por muita coisa, que bom que tive esse tempo para desfrutar do amigo Jô.

Como é que o contato dele era salvo no seu telefone?
Capitão Gay (nome de um personagem icônico do humorista).
Até hoje não consigo tirar.
Se pegar meu celular, tá lá.

'Tudo dura pouco, até o ódio'
Sua voz é uma assinatura, sabemos que é você quando solta a primeira nota.
É um timbre que pode dividir opiniões.
Mas sente que sofreu certa crítica implicante?
Já tive crítica de todo jeito.
Quando apareci, teve um crítico de jornal que disse que eu devia ter algum problema de hormônio.
Ter coragem de falar isso de uma jovem cantora...
Tantas cantoras incríveis de voz grave...
Ouvi muita coisa e há recados e desabafos em minhas músicas.
"Imorais" foi feita para um sujeito que parou na minha porta...
Meu sonho era morar na Urca, consegui juntar meu dinheirinho...
comecei com uma poupança de 200 reais que a Beth Araújo, que era minha empresária, pegou de um cachê, e foi melhorando.
Por isso tenho uma casa.
Esse vizinho já tinha bebido, parou na porta da minha casa e começou a me ofender de um jeito: "Não quero saber de mulher aqui, eu tenho uma arma".
O fato de ser uma mulher, de não ter um homem comigo, de morar sozinha, ter comprado a minha casa e estar ficando conhecida...
incomodava.

'Hoje entendo esse negócio da representatividade.
Caramba, eu ia para os lugares só pra ver alguém que diziam que era gay'
Já falou sobre o impacto que sentiu ao ver Simone surgir na cena da música.
O que exatamente isso significou para você?
Foi uma loucura, Simone foi meu crush de adolescência.
Uma vez, estava ela e Gal num camarim de um show em Brasília, uma loucura...
Hoje entendo esse negócio da representatividade.
Caramba, eu ia para os lugares só pra ver alguém que diziam que era gay.
Porque como é ruim se sentir mal por ser diferente.
Hoje fico feliz de representar alguma coisa pra alguém.

Maria Beraldo disse que você foi fundamental quando ela estava "saindo do armário", nas palavras dela, com a primeira namorada...

Nunca imaginei que uma coisa que fazia me sentir tão mal pudesse ajudar.
Porque o mundo só te diz que não tem lugar pra você.
Você tem aquela voz, cresce muito rápido, não cabe direito nas coisas, não é feminina como deveria, aí descobre que gosta de menina...
Eu queria me esconder! Mas queria cantar, então, tem mais esse paradoxo na minha vida.
Me contou que se sentia doente, que não se sentia digna de conviver com as pessoas...

Exatamente.
Naquela época, diziam que era ruim ir para guetos.
Hoje, digo que o gueto me salvou.
Quando eu ia para uma boate e sentia que podia me misturar...
que não me destacava porque por não estar no padrão....
Falo sempre que assumi por causa do meu camarim.
As pessoas que entravam no meu camarim me ensinaram a ser gente se identificando comigo.
Me fizeram reafirmar quem eu sou.
Me fizeram fazer jus ao que eu já estava sendo, cantando, dizendo.
Quando comecei a cantar "Sentidos", meninos começaram a beijar meninos, meninas com meninas.
Eu não entendia bem, ficava tonta.
Era uma música que podia ser para qualquer pessoa, mas vinda de mim era diferente.
Tem um espelho muito forte.
Quando as pessoas começaram a chegar, eu pensava: "Não posso falhar com elas".

Sua mãe foi fundamental nesse processo, porque te encorajou a se sentir livre...

Ela não nasceu pronta, cresceu comigo.
Hoje tem 90 anos.
Quando percebeu, se desesperou também.
E também teve um momento de me perseguir um pouco.
Só que é uma mulher sensacional, que faz análise até hoje e sabe que a vida é o desejo que a gente tem de viver.
Um dia ela, foi me visitar.
Estava com uma namorada escondida numa quitinete que eu tinha em Brasília.
Ela (a namorada) fingiu que ia viajar; eu não precisava porque tinha a minha mãe...
Ficamos quatro dias lá, felizes porque estávamos nos sentindo livres.
Minha mãe chegou e disse: "Não tá certo isso, porque estão presas aqui? Não estão fazendo nada de errado, não estão desrespeitando ninguém".

O próximo passo dela foi me pedir desculpa.
Ela virou um abrigo para os meus amigos, os mais antigos a chamam de tia.
A gente brinca que a água em Brasília estava com alguma coisa porque vários viraram gays.
Éramos, sem saber, um grupo de cinco ou seis gays.
A gente foi se descobrindo.
E mesmo antes de ela me catapultar do armário, acolhia.
Era um lugar para eles irem, ficarem.
Mesmo com com dois irmãos homens em casa, e minha irmã, Helena, que sempre foi incrível, a casa da gente com a minha mãe tinha lugar para meus amigos.

'Poucas coisas me fazem tão feliz quanto essa palavra ser minha.
Mesmo, Maria! Uma palavra que era usada para me ofender...'
Você me disse que em entrevista em 2021, quando fez o filme "Uma paciência selvagem me trouxe até aqui", sobre visibilidade lésbica, com a Bruna Linzmeyer e uma equipe de 24 mulheres jovens, que a nova geração te devolveu o orgulho de ser sapatão...

Exatamente.
Foi revolucionário fazer esse filme.
A gente teve uma preparação longa de 17 dias e no último dia, escrevi uma carta para elas.
Eu agradecia e dizia: "Agradeço também por eu ouvir a palavra sapatão de cinco em cinco minutos e não me agredir.
Obrigada por me devolverem essa palavra, por me fazerem entender que ela é um elogio".
Poucas coisas me fazem tão feliz quanto essa palavra ser minha.
Mesmo, Maria! Uma palavra que era usada para me ofender...
Tanto que chegou uma hora na internet que eu disse: "Toda vez que vocês me chamam de sapatão, me fortalecem.
Vamos dar um jeito nisso aí porque estou amando meus haters, estão me elogiando demais".
Jamais queria ser outra pessoa, uma vida mais fácil por causa disso.

Já disse: "Goste de você rápido, não perde muito tempo sofrendo".

Quanto antes a gente der a mão para quem a gente é, menos sofrimento.
É preciso deixar isso num lugar remoto da nossa constituição, que é ter vergonha da gente.
Eu tinha culpa.
Pela minha mãe, pela minha família.
"Caramba, sou diferente".
E ainda fui cantar.
Eu era artista e era sapatão, muita coisa para ser resolvida.
O que vai ser dessa garota? Vai ser o que tiver que ser e cole nos seu amigos.

'Um colega com quem trabalhei, chegou no meu quarto do quarto, me empurrou na cama e disse: 'Vou te mostrar o que é um homem".
Eu: 'Você acha que eu não sei o que é um homem?'.
Já comentou sobre o incômodo que era ser questionada publicamente sobre sua orientação sexual no início de carreira.
O que mudou internamente para que a exposição se transformasse em potência e orgulho? Porque , hoje, a visibilidade se tornou pilar fundamental para você.
Como é que você enxerga a evolução desse debate nas artes?
Pessoalmente, foi esse caminho de ter que me defender o tempo todo.
Fui cantar na noite muito nova, os homens chegavam junto, mandavam drinques, umas cantadas estranhas.
E eu só queria cantar.
Enfrentei assédio de esperarem eu sair, de eu ter que estar com um amigo do lado.
Um colega com quem trabalhei, chegou no meu quarto do quarto, me empurrou na cama e disse: 'Vou te mostrar o que é um homem".
Eu: 'Você acha que eu não sei o que é um homem?'.
'Tudo dura muito pouco, até o ódio'
Como se a sua orientação sexual fosse falta de homem...
Como sempre, aquele papo de "mal comida".
Coisa frágil, tola.
Minha geração foi reprimida, me obriguei a ficar perto dos homens.
É uma coisa louca: você é uma menina hétero e ninguém nunca disse de bobeira "deveria experimentar ficar com uma mulher", não é? A gente ouve isso o tempo todo.
"Ah, devia pelo menos tentar ficar com um homem".

Olhando para certa falência e toda violência masculina, dá alívio ser sapatão ou é horrível eu colocar as coisas nesses termos?
A gente brinca com isso.
Claro que dá.
Vejo amiga presas em relacionamentos.
A importância de ter um homem do lado estraga muito a relação hétero, a liberdade da mulher.
Há mulheres incríveis que tem suas profissões, são líderes e se submetem a estar com homens com quem não podem mostrar a potência delas porque é ruim para o casamento.
Aí, claro que a gente tem brincar.
Não passaremos por isso.
Não preciso provar quem eu sou para homem nenhum nesse aspecto.

Presenciou comportamentos muito tóxicos de homens músicos em turnês, por hotéis mundo afora...
Muito! Fiz backing vocal para (os cantores) Bebeto, Zé Augusto, eu tinha 18 anos vi coisas bem radicais bem radicais...
Músicos da banda pegando mulheres aqui e ali.
Um deles me olhava com uma cara altamente libidinosa.
Um dia, ele me disse: "E se eu trouxer uma amiga minha aqui e ela quiser te beijar?"...
Como assim? Aquele ambiente era perigoso para mim, uma ameaça.
Todos eles tentaram, de alguma maneira, me pegar.
Aí o baterista, Edmilson, ficou meu amigo e começou a me proteger.
Esperava o ônibus comigo no ponto.

Um aliado, enfim...
Sabe, eu era louca para gravar um disco, e conheci um produtor que me mandou ir no estúdio num domingo para fazer um teste.
Morava em Niterói, peguei meu fusquinha, cheguei lá e era só eu e ele.
Imagina se ele fosse mais violento, aquela porta de estúdio, pesada...
Consegui me livrar.
O cara sabe que você tem um sonho né? E se aproveita...
No meio artístico, a gente ouve falar disso o tempo todo.
Eu tinha 19 anos, e outro produtor famoso me levou na casa dele, estavam a mulher e filha, jantamos.
Aí, você baixa a guarda total...
Quando ele foi me levar em casa, pulou em cima de mim no carro...

'Se soubesse que isso ia me custar a Rita, talvez, não tivesse ido', sobre turnê com Mutantes
Queria falar de Rita Lee.
Eram amigas e compuseram "Pagu" em parceria.
Mas quando você foi fazer turnê com os Mutantes, ela parou de falar com você.
Tiveram tempo de voltar às boas antes de ela morrer?
Infelizmente, não.
É uma tristeza vou levar pra sempre.
Só tive amor por Rita e aquele momento foi duro.
Liguei para ela perguntando e ela me disse: "Vai se divertir com os mano".
E depois, sumiu.
Tentei, claro, mas ela preferiu ficar na dela.
Foi ela quem falou, numa entrevista, quem deveria cantar com os Mutantes.
Os empresários me ligaram e eu disse que tinha que ser ela.

Mas Rita está dentro de mim, na minha vontade de cantar, de viver, de gostar de de ser mulher.
Só deu coisa boa pra gente.
Do alto dos meus quase 62 anos, tento olhar as cadeiras cheias.
Tive Rita para chamar de amiga um tempão, fiz uma música importante com ela, cantei com ela, gravei em DVD dela, não posso achar ruim.
Tenho uma tristezinha com esse assunto porque não acho justo com a nossa história, que é tão bonitinha.
Vê o jeito que ela me chama no DVD da MTV...
Ela diz que sou uma espécie de INPS, uma pessoa para chamar quando se está mal.
A gente tinha esse approach, então, é duro perder.

A experiência nos Mutantes foi incrível e...
caótica...
Sim.
Tenho orgulho, vivi coisas que nunca imaginei.
Mas tem certa maldição, entendi o rock and roll.
Tive o privilégio de estar com os dois (Arnaldo Baptista e Sérgio Dias), sair numa foto no New York Times.
Uma onda.
Quando fui ensaiar a primeira vez, saí pulando, pude ver a Rita adolescente criando aquela genialidade com aqueles caras.
Foi sensacional para mim como artista.
Mas pessoalmente...
Se soubesse que isso ia me custar a Rita, talvez, não tivesse ido.
Mas ela não me disse, não me deu um sinal.
Perguntei: "Como é pra você? Tudo bem? Você que é minha amiga".
Não conseguiu dizer.
Se tivesse me dito, teria mudado toda uma história.
Dou muito valor aos meus amigos.

Você escreveu o livro "Benditas coisas que eu não sei", indicado Jabuti, se tornou roteirista do Prêmio da Música e do Prêmio Shell.
Tem mais de 700 mil seguidores no Instagram, onde se posiciona constantemente.
Falar se tornou tão importante quanto cantar ?
Outro turning point na minha vida foi quando comecei a falar na internet, e isso ganhou uma dimensão.
Percebi que jovens me viram falando e depois disseram "você ainda canta".

'Como artista, temos que aprender uma coisa dura: Nem todo mundo vai gostar de você.
Está ali fazendo o seu melhor, mas tem gente que não gosta da sua voz, do seu jeito, da sua roupa.
E pronto'
Se posiciona contra preconceitos e comprou brigas brabas, enfrentou processos.
O preço é alto ou seria mais caro para você o silêncio?
Com certeza! Fui aprendendo a aguentar, vi que não sou super mulher, percebi até onde vão certas coisas...
Em geral, a pessoa que te ofende na internet, fala uma coisa e vai embora ofender outra pessoa.
Aí, você olha a foto e vê que é robô..
Como artista, temos que aprender uma coisa dura: Nem todo mundo vai gostar de você, a vida é assim.
Você está ali fazendo o seu melhor, mas tem gente que não gosta da sua voz, do seu jeito, da sua roupa.
E pronto.
Quando isso vai para a internet, dá a impressão que é o mundo inteiro.
Mas não é.
E tudo dura muito pouco, até o ódio.

A primeira coisa que hater faz é chamar de velha...
mulher, então...

Me chamavam de velha bem ante de eu fazer 60.
O que essa gente vai dizer? Eu tirei deles a palavra sapatão (risos).
Outro dia, fui para a esteira e fiz um vídeo dizendo: "Fico me perguntando se você que me chamou de velha vai chegar à minha idade sendo alguém tão violento assim.
Talvez, alguma coisa te aconteça antes...".
Mas foi pelo desejo de brincar.
Por que essas pessoas não recebem nada de volta, já estão secas por dentro.
Não vou romantizar a velhice, a gente vai perdendo autonomia.
Eu já procuro o corrimão e não tenho vergonha de dizer isso.
Não que tenha caído.
Mas eu fico me dizendo: "Calma, você é uma corredora, mas uma corredora de 61 anos".

Se me fizessem a pergunta maldita sobre se gostaria de voltar aos 20 anos...
Nunca! Eu com 15, aquela garota que fala grosso, peituda, que não cabe em lugar nenhum? Não, obrigada'.

Não é fácil envelhecer sob os holofotes da indústria fonográfica...

Nada fácil, até porque tiram fotos de você o tempo todo.
E foto minha um ano atrás já faz muita diferença para mim.
Eu digo: "Não quero mais ver foto minha tão jovem".
Ao mesmo tempo, fico nesse exercício...
Tem dia que acordo com 200 anos.
É ruim de levantar, tem algo doendo, não tem o mesmo viço...
Fico no trabalho forte pra gostar do tempo.
Não vou gostar, mas não vou amaldiçoar o fato de ficar velha.
Tem vantagens e, se me fizessem a pergunta maldita sobre se gostaria de voltar aos 20 anos...
Nunca! Eu com 15, aquela garota que fala grosso, peituda, que não cabe em lugar nenhum? Não, obrigada.
Com 61, conheço muito mais o meu lugar e faço o meu lugar se ele não existir.
Tenho que preferir agora e não ficar babando minha foto novinha.
Se não fosse aquela, não seria essa.
Uma vida se mede pelo quanto foi proveitosa.
Tenho aproveitado a minha e pretendo aproveitar um tempo.