'Queria elaborar uma angústia minha, espero que sirva para os leitores', diz autora de livro sobre ossadas da vala de Perus

 

Fonte:


Publicado pela editora Companhia das Letras em 2025, o livro “Caderno de Ossos” foi escrito sete anos antes pela autora, Julia Codo, por sentir que havia “algo não elaborado sobre o passado brasileiro que estava voltando”. Na obra — seu primeiro romance, diga-se —, Codo narra a história de uma mulher que busca pela tia desaparecida. A busca, no entanto, passa pela descoberta de uma vala coletiva no cemitério de Perus, na Zona Norte de São Paulo, nos anos 1990. No local, mais de mil sacos plásticos com restos mortais de desaparecidos durante a ditadura militar.

Prêmio Jabuti terá nova categoria voltada para criadores de conteúdo literário; inscrições estão abertas

Brasileira de Nova Iguaçu é finalista do International Booker Prize, um dos mais importantes prêmios de literatura do mundo

Em entrevista no Estúdio CBN nesta terça-feira (31), data que marca os 62 anos do golpe militar, Julia Codo conta que a escolha da narrativa veio da necessidade que sentiu de falar sobre a ditadura em 2018, quando o discurso político autoritário voltava a se disseminar.

“Queria conversar com o meu leitor a respeito de uma geração que não viveu a ditadura militar. O livro é narrado do ponto de vista de uma pessoa que passou a infância logo depois do fim da ditadura, na redemocratização, quando havia uma relação estranha com o que tinha acabado de acontecer. Era como se não tivesse acontecido, porque pouco se falava ou se falava como uma coisa que já estava resolvida”, diz.

Monumento da Comissão de Familiares de Presos Políticos Desaparecidos, no cemitério Dom Bosco, em Perus

Paulo Pinto/Agencia Brasil

Enquanto a narradora (no caso, a sobrinha) nunca é nomeada, Eva (a tia desaparecida) tem seu nome marcado no livro desde o início da narrativa.

“O fato dela (narradora) não ter nome talvez seja para ressaltar o nome de Eva, que é um corpo que ficou sem nome. Eva é uma pessoa que desapareceu e que não é palpável, porque não há certeza sobre a morte dela, o corpo nunca apareceu, não houve um enterro… É a pessoa que fica voltando como um fantasma”, explica.

Pesquisas

Ainda que o livro seja de ficção, a história foi pensada sobre um pano de fundo político e social do período. Para fazer jus à realidade, a autora visitou o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade de São Paulo (USP).

Lá, então, ela viu as ossadas encontradas na vala comum e entendeu como funcionava o trabalho do centro. A partir desse conhecimento, ela diz que pôde conversar com o responsável pelo CAAF na época e com uma historiadora.

“A partir disso, eu 'ficcionalizei', mas ter contato com esses detalhes foi muito importante para a história acontecer”, divide.

Ossadas da vala de Perus

Reprodução/Comissão da Verdade do Estado de São Paulo

“Aconteceu de tudo com as ossadas. Teve um vai e vem de instituições, muito descaso e negligência de vários governos. Foi ficando em segundo, terceiro, quarto plano… Era uma política de apagamento. Uma parte porque não havia interesse de que essa história fosse revelada, outra por descaso, por acharem que tudo estava no passado”, completa.

Em seu primeiro romance, Julia quis, justamente, trabalhar essa “relação ruim que o brasileiro tem com o passado”.

“A gente não elabora nada. A gente vê pessoas defendendo, querendo a volta (da ditadura). Isso acontece por conta da desinformação, mas também porque não tratamos do assunto com a seriedade que deveríamos. Quis escrever o livro para elaborar uma angústia minha. Espero que sirva para os leitores elaborarem também”, divide.