Quer prolongar a vida do seu cachorro? Veja seis 'segredos' da longevidade canina apontados por cientistas

 

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E se passear com seu cachorro todos os dias pudesse prolongar a vida dele? E se brincar, escovar os dentes ou levá-lo ao parque pudesse render alguns anos a mais ao animal? Essas são algumas das perguntas que cientistas do Dog Aging Project, iniciativa científica dedicada a investigar o envelhecimento saudável em cães, tentam responder.

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Embora os pesquisadores esperem, no futuro, conseguir ampliar a longevidade dos cães com medicamentos avançados voltados ao envelhecimento, o projeto já reúne evidências sobre medidas simples e práticas que podem ajudar os animais a se manterem ativos e saudáveis por mais tempo.

Audrey Ruple, epidemiologista veterinária da Virginia Tech envolvida no projeto, afirma não se surpreender com o interesse crescente dos tutores em aumentar a expectativa de vida dos cães. Segundo ela, a relação entre humanos e animais mudou rapidamente: cães que antes ficavam presos no quintal hoje dormem na cama dos donos, são levados em carrinhos e recebem refeições caseiras.

— À medida que os humanos se tornaram individualmente ligados a seus cães, estamos pensando sobre a expectativa de vida deles da mesma forma que pensamos sobre a nossa — diz Ruple.

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Apesar de fatores como genética e exposição ambiental estarem fora do controle dos tutores, os pesquisadores apontam seis cuidados que podem fazer diferença.

Exercícios devem ser frequentes, não apenas aos fins de semana

De modo geral, uma das medidas mais eficazes para ajudar o cão a viver mais e melhor é manter uma rotina regular de exercícios. Kate Creevy, professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Texas A&M e pesquisadora do Dog Aging Project, afirma que as evidências mostram uma forte associação entre atividade física, melhor saúde cognitiva e menor número de diagnósticos médicos relatados pelos tutores.

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A explicação passa pela obesidade, que aumenta o risco de doenças como diabetes, osteoartrite, incontinência urinária e problemas respiratórios, todas capazes de reduzir a expectativa de vida dos cães.

A Associação para Prevenção da Obesidade em Animais de Estimação recomenda pelo menos 30 minutos de atividade aeróbica por dia. A necessidade, porém, varia de acordo com a raça e o perfil do animal. Cães de pastoreio e de esporte, como heelers e spaniels, precisam de mais movimento do que raças como bulldog francês ou maltês.

O ponto central, segundo os pesquisadores, é a consistência. Cães “atletas de fim de semana”, que passam a maior parte da semana sedentários e fazem esforços intensos em poucos dias, como trilhas longas ou corridas, podem ter uma série de problemas de saúde.

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— Assim como nas pessoas, esse tipo de atividade extrema intermitente tem mais probabilidade de causar lesões — afirma Creevy.

Além de caminhadas, os tutores podem correr, fazer trilhas, nadar, matricular os cães em aulas de agility ou brincar de buscar objetos, frisbee e cabo de guerra. Para quem tem pouco tempo, esconder petiscos pela casa ou dar uma volta rápida de dez minutos no quarteirão também pode ajudar.

— O melhor exercício é aquele que você e seu cão vão fazer — diz Creevy.

Ter amigos também faz bem aos cães

Os pesquisadores do Dog Aging Project também identificaram que a conexão social pode ter impacto profundo no bem-estar dos cães. Um estudo de 2023 apontou que animais com mais amigos humanos e outros animais — incluindo gatos, pássaros e roedores — tinham menos diagnósticos médicos relatados por tutores, como osteoartrite, alergias e doenças gastrointestinais.

Essas interações estimulam os cães e ajudam a mantê-los cognitivamente ativos.

— Os cães são uma espécie social, assim como as pessoas — afirma Creevy.

Os achados reforçam pesquisas anteriores segundo as quais cães que vivem em ambientes enriquecidos, com brinquedos estimulantes e bastante tempo de brincadeira, tendem a manter maior agilidade mental na velhice. A hipótese é que o enriquecimento ajude a criar novas conexões neurais, preservando a saúde e a adaptabilidade do cérebro canino.

A recomendação é brincar, levar o cachorro para passeios diferentes e permitir o convívio com outros animais, quando houver boa adaptação.

— Se você fizer esse tipo de coisa ao longo da vida dele, talvez consiga adiar o declínio cognitivo do seu cão mais tarde — diz Creevy.

Castração está associada a maior longevidade

Estudos indicam de forma consistente que cães castrados vivem mais do que aqueles que não passam pelo procedimento. Nas fêmeas, a castração reduz de forma significativa o risco de câncer de mama e elimina o risco de câncer de útero e ovário. Nos machos, previne o câncer testicular e diminui o risco de problemas de próstata.

Cães castrados também tendem a ser menos agressivos e menos propensos a fugir em busca de parceiros, o que reduz o risco de atropelamentos e brigas com outros animais.

Animais adotados em abrigos muitas vezes já são castrados. Para os demais casos, veterinários costumam recomendar que o procedimento seja feito quando o cão atinge a maturidade esquelética, segundo Creevy. Como o momento ideal varia conforme a raça, a orientação é conversar com um veterinário.

Alimentação deve seguir a ciência, não modismos

A alimentação dos cães envolve uma ampla variedade de opções, de ração a comida caseira, passando por dietas cruas e alimentos liofilizados. Muitas, no entanto, podem trazer riscos.

Alimentos crus podem conter microrganismos causadores de infecções, como salmonella. Refeições caseiras frequentemente não atendem às necessidades de proteína, gordura e micronutrientes dos cães e já foram associadas a taxas mais altas de doenças gastrointestinais e renais. Já restos de comida em excesso, especialmente os gordurosos, podem levar a quadros graves, como gastroenterite hemorrágica e pancreatite, afirma Erik Olstad, professor assistente de atenção primária na Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Califórnia em Davis.

O maior problema observado por veterinários, porém, é o excesso de comida. Segundo Olstad, as pessoas muitas vezes subestimam a quantidade que oferecem aos animais. A obesidade acelera artrite e doenças articulares, dificulta a recuperação de lesões e contribui para problemas nos rins e no fígado. Cães obesos podem perder a capacidade de se exercitar, deixando de obter os benefícios associados à atividade física.

— Isso se torna um ciclo vicioso — diz Creevy.

A obesidade já foi associada a uma expectativa de vida cerca de 2,5 anos menor, segundo algumas estimativas. Já a manutenção de massa corporal magra está ligada a uma vida mais longa.

— Isso é algo que vemos em todas as raças, pesos e fases da vida — afirma Ruple.

As necessidades nutricionais variam de acordo com idade, raça, nível de atividade e personalidade do cão. O conselho de Olstad é simplificar. Ele e Creevy recomendam escolher alimentos que cumpram os padrões nutricionais estabelecidos pela AAFCO, organização que define critérios para rações e alimentos de animais. A orientação é procurar, na embalagem, a declaração de adequação nutricional da entidade, que garante que o alimento é completo e balanceado.

Veterinário deve ser visitado ao menos uma vez por ano

Consultas de rotina ajudam a identificar doenças mais cedo, iniciar tratamentos com antecedência e melhorar os resultados de saúde e longevidade dos cães.

Um estudo de 2023 mostrou que cães avaliados regularmente por veterinários tinham 30% menos probabilidade de desenvolver doenças crônicas. O levantamento também apontou que cães vacinados apresentavam 40% menos casos de doenças transmissíveis, enquanto o acesso a medicamentos contra pulgas, vermes e carrapatos reduzia o risco de infecções parasitárias em cerca de 35%.

Depois das consultas da fase de filhote, o ideal é que cães adultos visitem o veterinário uma vez por ano. Na velhice, a recomendação passa a ser duas consultas anuais.

Escovar os dentes também pode influenciar a expectativa de vida

O cuidado dental também foi associado à redução da mortalidade em cães. Doenças dentárias podem provocar inflamação no organismo, causar infecções graves e agravar condições preexistentes, como doenças cardíacas, segundo Olstad.

— É como jogar gasolina em um incêndio que já existe — afirma.

A escovação diária é o ideal, mas mesmo algumas passadas rápidas nos dentes algumas vezes por semana já trazem benefício.

— Não é um grande esforço em comparação com a forma como temos que escovar nossos próprios dentes — diz Creevy.

O objetivo, segundo os pesquisadores, não é fazer os cães viverem para sempre, mas ampliar o chamado “período de saúde”: a parte da vida em que o animal permanece ativo e livre de doenças.

— Um animal pode viver até os 20 anos, mas, se os últimos três anos forem um inferno para esse cão? Não é isso que estamos buscando — afirma Olstad. — O mais importante é que eles vivam o maior tempo possível e da forma mais saudável possível.