'Quem vem a lazer não entende nada': Dores e delícias do carnaval

 

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Foi lindo o Cordão do Boitatá em sua estreia na Rua Primeiro de Março. Celebrando 30 anos, a banda levou mais de 200 músicos para a arena dos megablocos no Centro do Rio. Uma romaria de foliões em suas melhores fantasias cercou a corda da maior orquestra de rua da cidade que nem a criançada na Igreja de São Cosme e Damião no feriado dos gêmeos médicos. Tinha um aguaceiro previsto pra aquela manhã de domingo, mas São Jorge deve ter convencido São Pedro a fechar a torneira, e não caiu uma gota sequer sobre a serpente de fogo que virou símbolo do cordão.

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Pode ter sido estranho passar por revista policial a caminho do bloco. Teve gente chateada com o confisco de algumas gramas de ervas proscritas, mas há razão na presença dos agentes no entorno da Primeiro de Março. Duas semanas antes, foram 49 "objetos perfuro-cortantes" apreendidos no bloco Chá da Alice, na mesma via. Protegido também pelos orixás que atendem aos apelos da Iyá Wanda d'Omolú, cuidadora espiritual do cordão, o Boitatá passou sem sustos, só alegria, pela antiga Rua Direita. Até um pomba branca pousou na cabeça do boneco de Pixinguinha no desfile.

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Chama a atenção a diferença que faz quando não há aqueles enormes triciclos de ferro de ambulantes vendendo bebidas no meio do bloco. Na Primeiro de Março, diferentemente de outras áreas do Rio, a prefeitura só libera a entrada de camelôs com suas caixas de isopor. Da mesma forma, o poder público não permite o estacionamento de automóveis na arena dos megablocos. Sem esses obstáculos que tanto atrapalham o cortejo, fica mais fácil ser feliz. Resta, então, o governo municipal explicar por que não atua de forma parecida nos trajetos de outros blocos divulgados na própria agenda oficial.

Banda do Céu na Terra entre ambulantes em Santa Teresa

Domingos Peixoto

Na véspera do Boitatá, o cortejo do Céu na Terra, outra banda de altíssimo nível nascida e criada na folia de rua, foi prejudicado pela quantidade de vendedores com triciclos de ferro. Plantadas a dois palmos da orquestra, as estruturas represavam uma enxurrada de foliões já espremida entre a banda e as casas nas ruas estreitas de Santa Teresa. Este ano, o Céu na Terra homenageou Jorge Ben tocando vários de seus clássicos. Entregou tudo e mais um tanto. Mas, em vários trechos, muita gente foi imprensada contra os triciclos e levou pra casa as marcas do perrengue tatuadas no corpo.

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Nos momentos de mais aperto, só mesmo o amor pelo carnaval segurava a gente até o fim do cortejo, no Largo das Neves. "Quem vem a lazer não entende nada", disse uma foliona no meio do sufoco.

Os ambulantes encaram o carnaval como um 13º salário. É um corre duríssimo empurrar aquele trambolho, subindo e descendo ladeira em vias esburacadas, debaixo da lua de fevereiro. Muitas mães solteiras não têm alternativa a não ser levar suas crianças pra essa lida, em vários casos procurando juntar uma grana para o material escolar. Enfim, as pessoas estão lá porque precisam e, claro, porque o povo quer beber. Ambulantes são uma parte fundamental da folia e merecem respeito! Mas a gente precisa falar sobre esses veículos de ferro enfiados na multidão como se fossem de espuma.

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O Movimento Único dos Camelôs (Muca) lançou, no ano passado, uma campanha para promover o diálogo entre blocos e ambulantes. Batizado de "Bagunça com Harmonia", a iniciativa pede aos blocos que destaquem integrantes para orientar o máximo de vendedores sobre os locais adequados onde se manter. ao mesmo tempo, a campanha orienta ambulantes a "não sufocar" os desfiles. A comerciante Maria do Carmo, coordenadora do Muca, diz que os vendedores devem procurar se informar sobre o trajeto dos blocos para não represar o andamento das bandas e dos foliões ao redor.

- Eu mesma trabalho com o triciclo, muitas vezes em Santa Teresa, mas fico um pouco afastada do bloco, para dar espaço. Quem quer beber vem até mim - explica a ambulante conhecida como Maria dos Camelôs. - Estar no meio da multidão não aumenta as vendas. No geral, quando o bloco evolui melhor, as pessoas se divertem mais e bebem mais. Então, se tiver essa harmonia entre músicos, foliões e ambulantes, todo mundo ganha. Acontece que muitos vendedores não estão acostumados a trabalhar no carnaval e não conhecem o trajeto. É preciso fazer circular essa informação.

Um cortejo 'Do Nada' depois do Boitatá

Logo depois do cortejo do Boitatá, na altura da Praça do Aviador, no Centro do Rio, músicos e foliões ainda celebravam a delícia que foi o desfile, quando um caminhão da Comlurb chegou jogando água com sabão no asfalto, abrindo a rua e inviabilizando a possibilidade de xêpa no local. Mas a turma já estava mesmo preparada, e não faltaram alternativas. Um samba aqui, um cortejo acolá. O Bloco das Trepadeiras, por exemplo, realizou um desfile pra marcar os 18 anos trepando em estátuas, marquises e afins durante o carnaval. Ganharam até edital do governo para bancar a farra. Justo.

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A tarde estava no começo quando o músico Marcelo Cebukin, que havia tocado no desfile do Boitatá, foi visto soprando seu sax na Rua Sete de Setembro. Era de lá que sairia o cortejo do bloco Do Nada, segundo a mensagem que circulava em grupos no WhatsApp. Só que, quando uma foliona abordou Cebukin para saber do bloco, ele fez que não sabia de nada: "Quero almoçar", respondeu. Desalentada, a foliona viu a também instrumentista Tatyanne Meyer, mulher do saxofonista, caminhando com seu ganzá logo atrás e foi dar queixa. Resultado: Cebukin comeu uma empada e foi tocar.

O bloco Do Nada reuniu uma pequena multidão e saiu zanzando pelo Centro até chegar na casa noturna Motocerva, na Lapa. Formou-se, então, um inferninho de causar inveja no demo. Paredes suaram até a noite cair. Se bobear ainda tem gente presa naquele pântano. Viva o Carnaval.