Quem vê futebol em bar ou não gosta de futebol, ou não gosta de bar
A frase título desta coluna parece provocação gratuita, especialmente numa semana em que a convocação da seleção colocou oficialmente o país naquele estado pré-Copa que mistura ansiedade, patriotismo e debates violentos sobre terceiro goleiro. Mas algumas verdades importantes da vida só conseguem existir em formato de exagero. E essa, para mim, é uma delas.
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E digo isso com a tristeza sincera de quem ama desesperadamente as duas instituições.
Peço desculpas antecipadas aos meus amigos donos de bar, que legitimamente fazem na Copa o equivalente ao faturamento de uma pequena safra agrícola. Defendo. Apoio. Mas o meu dinheiro, não terão. Até porque têm toda semana, e não a cada quatro anos. É que eu gosto de bar demais para frequentá-lo em dia de jogo importante.
Pra ser bom, bar depende de permanência. Futebol depende de tensão. O bar foi inventado para o intervalo entre os assuntos, para a conversa que muda de rumo sem ninguém perceber, para a cerveja que esquenta enquanto a mesa resolve um problema que não existe. Futebol foi inventado justamente para sequestrar qualquer outro assunto possível durante noventa minutos. São duas experiências maravilhosas. Só não nasceram para coexistir.
Veja bem, a cerveja até combina com a a bola: depois da pelada, ou durante o jogo, mas na arquibancada. No bar, no máximo reprise, melhores momentos ou gols do Fantástico enquanto a mesa pede a saideira do domingo.
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Eu gosto de bar pelo direito de não fazer nada. De olhar para a rua. De reparar na mesa ao lado. De ouvir uma conversa pela metade. Jogo importante transforma tudo isso numa espécie de aeroporto em dia de tempestade. Ninguém relaxa. Todo mundo preocupado, de olho numa tela sem perceber nada além. De ambiente relaxante à central coletiva de sofrimento.
E a Copa piora tudo porque cria uma figurinha repetida e específica: o frequentador eventual de botequim. O cliente de Copa costuma tratar o garçom como bandeirinha e ainda pergunta se “esse empate classifica?” aos 14 do 1º tempo. Sempre aparece também o sujeito que não assiste a um jogo desde o último Mundial, mas entra imediatamente num debate feroz sobre intensidade sem bola da seleção. Geralmente na mesa ao lado, grudada na sua.
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A experiência costuma ser inviável. A TV mais próxima sem volume. A do outro lado do salão mais adiantada. Uma mesa vê no streaming. O pé-sujo em frente finca pé no sinal da operadora. Tem sempre um infeliz acompanhando estatística — ou pior, apostando — em tempo real no celular. Um cidadão que grita “gol” num chute na rede pelo lado de fora. Ou outro que vê um escanteio e comenta “é agora”, zicando qualquer possibilidade do empate salvador.
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O futebol em bar é um festival permanente de pequenas agressões emocionais. E nenhuma figura é mais nociva para a experiência humana do que o fiscal do futuro.
Você conhece o fiscal do futuro. O homem-rádio. O profeta do gol.
Ele vem sempre com um fone escondido sob a camisa, ouvindo a transmissão no radinho enquanto olha para a TV do bar. E aí comemora o gol três segundos antes. O fiscal do futuro, esse oráculo do delay, não quer informação. Quer superioridade cronológica. Não basta viver o lance. Ele precisa morar sempre um instante à frente. O sujeito que destruiu mais o suspense esportivo do que o VAR que anula gol no último minuto.
Crime contra a humanidade.
Porque o futebol ainda é uma das últimas experiências genuínas de apreensão coletiva. E o fiscal do futuro decidiu vir ao mundo, justo no meu bar, em forma de spoiler humano.
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Reconheço também que parte do problema sou eu. Tenho um nível constrangedor de toc futebolístico. Acho sinceramente difícil conviver com alguém que grita gol antes da bola entrar. Sou incapaz de conversar durante jogo decisivo. Meu problema não é com o bar nem com o futebol. É com o casamento entre eles.
A quem insiste, dou uma de Ancelotti, abro mão das minhas convicções, convoco meu Neymar e relevo. Desejo boa sorte, paciência e distância segura de vocês sabem quem. Que venha o hexa. Mas em silêncio nos lances decisivos, por favor.
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