'Quem segue uma profissão pela paixão acaba chegando naturalmente ao topo dos ganhos', diz especialista em aconselhamento universitário

 

Fonte: Bandeira



Diretor de aconselhamento universitário da Escola Americana, Augusto Neto recebeu, em 2025, o prêmio Global Counsellor of the Year, concedido pelo Times Higher Education, uma rede que reúne cerca de cinco mil profissionais desta área ao redor do mundo. Nesta entrevista, ele fala sobre as transformações no comportamento dos jovens diante da escolha profissional, o impacto da geração Z no mercado de trabalho e os desafios de decidir o futuro.

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Existe idade certa para decidir a carreira?

Em educação, nada é definitivo e tudo pode se transformar. As pessoas da geração Z e da Alpha provavelmente viverão 100 anos. Uma mudança de foco ou de carreira que exija mais um ou dois anos de estudo não vai fazer diferença na vida deles. Estudos mostram que esses jovens terão não só vários empregos ao longo da vida, mas também várias carreiras. Então, não existe um momento exato. Existem momentos de vida que podem levar a pessoa para uma direção ou outra.

O que deve pesar mais: vocação, mercado ou estabilidade financeira?

Alguns alunos pensam muito na marca da universidade, outros querem entender possibilidades de trabalho e ganhos futuros. Mas nós temos visto em pesquisas mundiais que a geração Z busca muito um senso de propósito. Eles querem trabalhar em empresas ou áreas com as quais compartilhem valores. Também querem reconhecimento enquanto pessoas, não apenas financeiro. Os RHs do mundo inteiro estão tentando entender como atrair e manter esses jovens

Unidade da Gávea da Escola Americana do Rio de Janeiro

Antonio Scorza/Agencia O Globo

Em uma geração mais focada em qualidade de vida, ainda dá para escolher a profissão pensando só em dinheiro ou felicidade?

Percebemos que os alunos que seguem uma profissão pela paixão e pelo desejo genuíno de criar impacto através do trabalho acabam naturalmente chegando ao topo dos ganhos. As escolas podem ajudar muito nesse processo de descoberta. O trabalho é ajudar os alunos a entenderem carreiras, desenvolverem habilidades e se conhecerem melhor. Pensar no que gostam, em que ambientes se imaginam trabalhando, no tipo de impacto que querem causar.

Acho que existe um equilíbrio nisso tudo. Entender que tudo tem o seu tempo. Muitas vezes, quando preparação e oportunidade se encontram, as pessoas chamam isso de sorte. Então, o trabalho é ajudar o aluno a estar preparado quando as oportunidades surgirem.

O que fazer quando a pessoa gosta de muitas áreas ao mesmo tempo?

Tentar experimentar essas várias vertentes. Conversar com profissionais de áreas diferentes, entender como foi a trajetória deles, como funciona o mercado de trabalho e quais são as oportunidades. Enquanto o aluno ainda está no ensino médio, é muito importante buscar essas conexões e entender o que o mercado espera.

E se ela não se identifica com nenhuma área?

Aí pode ser uma jornada maior de autoconhecimento. Esse aluno pode buscar ajuda na própria escola, conversar com coordenadores pedagógicos, tentar entender mais sobre si mesmo. Nem sempre esse processo acontece rapidamente.

Como perceber se um interesse é vocação ou apenas uma fase?

Isso é um trabalho que pode ser feito pelas escolas. Nós temos um programa em que os alunos observam profissionais no mercado de trabalho durante determinados períodos. Um aluno que pensa em estudar economia pode passar um tempo observando profissionais em um escritório de investimentos, por exemplo. Isso ajuda porque o aluno pode voltar dizendo “gostei muito dessa área” ou então perceber que aquilo não faz sentido para ele. E isso também é válido, porque ajuda a direcionar as escolhas.

O medo de escolher errado pode ser pior que a própria escolha?

Muitas vezes existe uma pressão muito grande, mas nada precisa ser definitivo. Uma mudança de direção não precisa ser vista de forma negativa.

O que você diria para alguém que entrou na faculdade e percebeu que escolheu o curso errado?

Trabalhe junto com a sua instituição para entender as possibilidades. Muitas vezes é possível fazer transferências internas e aproveitar disciplinas já cursadas.

Trocar de curso ainda é visto como fracasso?

Pode haver ainda um estigma, mas isso também pode demonstrar a força de perceber que aquilo não fazia sentido para você e decidir mudar. Hoje o mercado valoriza muito flexibilidade e capacidade de adaptação.

Os jovens de hoje se conhecem mais?

Sim e também têm cada vez mais informação on-line. Veem informações pelas redes sociais, fazem pesquisas; muitos começam a usar IA também para ajudar nesse processo. Nosso trabalho é ajudar o jovem a filtrar essas informações. Porque nas redes sociais tudo é lindo e maravilhoso. Existem universidades com taxas de aceitação muito baixas. Além de mostrar as possibilidades, precisamos mostrar as realidades e ajudá-lo a criar estratégias mais conscientes.

Ainda faz sentido pensar em uma carreira para a vida inteira?

Pode existir, mas hoje falamos muito mais em carreiras não lineares. Antes existia a ideia da “escada de carreira”’, totalmente vertical. Hoje pensamos mais em um “rio de carreira’”, cheio de curvas e mudanças de direção. O mercado está menos interessado apenas no diploma e mais em habilidades como adaptação, pensamento crítico, comunicação e flexibilidade.

O que os jovens mais precisam ouvir hoje sobre carreira e futuro?

Que tudo vai ficar bem. Há dias e momentos que não são os nossos melhores, mas o sol vai nascer amanhã. Tudo tem o seu tempo. De repente a pessoa ainda não sabe qual é a carreira dela, mesmo perto do vestibular ou do Enem, e tudo bem. Isso não significa que ela está atrasada.

*Esta reportagem foi publicada no especial Educação do GLOBO-Barra em 24/5/2026

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