Não passo um só dia sem conferir as previsões das tarólogas e videntes sobre as próximas eleições. Não importa o lado, o candidato ou o projeto político de predileção, seguimos todos atravessados por um mal-estar pré-eleitoral.
A cada dia, com o passar das horas, os eleitores de ambos os lados se afligem com o cenário que se avizinha. Sem a chance de prever o que nos espera com o fechar das urnas, se seremos tomados por um surto de alegria ou mergulharemos em um mar de apatia, se sairemos enfurecidos ou aterrorizados, sofremos por antecipação, atormentados pela pergunta fundamental: o que será de nós?
Eleições são momentos importantes porque redefinem as noções de presente, passado e futuro de um povo. Se o tempo corre de maneira linear, em um fluxo contínuo, um dia após o outro, os ciclos eleitorais nos permitem ressignificar as memórias, tensionar o hoje e reimaginar o amanhã.
Afinal, é justamente nesses tempos que os políticos esquecem a filiação partidária e mudam de partido, deixam de lado antigas querelas e selam acordos com ex-inimigos e recriam a própria trajetória de maneira que caiba no gosto do eleitor médio. É também durante a campanha que somos inundados por tantos fatos novos a ponto de sermos tomados pela sensação de que cada 24 horas dura mais do que 365 dias.
Sem falar no ponto fundamental: o pleito é o momento no qual cada candidato deve oferecer um plano de governo diferente, um projeto distinto, capaz de fazer a nação imaginar um futuro comum. É, sobretudo, pensando nas possibilidades de um amanhã que definimos nosso voto.
Aqui mora o problema. Franco Berardi, filósofo italiano e pensador do contemporâneo, nos lembra que há tempos o futuro saiu de moda.
Logo na introdução de “Depois do futuro”, ele conta que o porvir, o vindouro e o destino já não fazem a cabeça de ninguém e vaticina: “Simplesmente, não somos mais capazes de imaginar o amanhã.” Segundo o autor, até os anos 1970, os artistas e os intelectuais nos ajudavam a tornar o futuro algo imaginável, desejável e politicamente mobilizador.
O horizonte era um território de ação e nos dava a sensação de que o mundo caminhava para a frente e de que a tecnologia, a ciência e a História necessariamente produziriam um bem-estar coletivo. Não foi o que aconteceu.
Com o tempo, percebemos que, em vez de nos empoderar, o progresso nos deu a sensação de precariedade e de perda de controle e reduziu a capacidade humana de decidir sobre processos econômicos e sociais. A velocidade prometida como libertação, hoje, é vivida como pressão e impotência.
Às vésperas das eleições, sem poder acreditar no futuro vendido pelos políticos, pelos analistas ou pelas instituições, os brasileiros têm apostado nas tarólogas, videntes e sensitivas das redes sociais. Numa passeada rápida pelas plataformas digitais, percebe-se o engajamento que o sussurrar das cartas, o sopro dos espíritos e os enigmáticos mapas astrológicos têm despertado em torno da eleição do próximo domingo.
Se as pesquisas eleitorais indicam empate entre Lula e Flávio Bolsonaro, as cartas não titubeiam. Elas apontam um caminho claro, aliviam a angústia de ambos os lados e prometem um futuro melhor.
O que será de nós? Eu não sei. Talvez seja melhor procurar um tarólogo.
O Globo