Quem estaria por trás das falsas ameaças contra sistema aéreo e empresas de comunicação da Europa? Entenda

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Uma série de ameaças de bomba tem provocado transtornos no tráfego aéreo europeu desde terça-feira, com desvios de aeronaves, mobilização de caças militares e reforço da segurança em aeroportos de diferentes países. Embora nenhum explosivo tenha sido encontrado até agora, a sucessão de episódios levanta dúvidas sobre a origem dos alertas e a possibilidade de uma ação coordenada.

Parte das mensagens foi enviada em nome de um movimento extremista russo, mas as autoridades não identificaram os responsáveis pelas ameaças, também feitas a empresas de comunicação. Leia também: Sobe para 50 número de mortos em ataque russo no sul da Ucrânia contra edifício que recebia ajuda humanitária

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Nesta sexta-feira, mais de dez voos foram alvo de novos avisos, segundo a AFP. O aeroporto de Praga, na República Tcheca, recebeu comunicações envolvendo nove aeronaves, das quais três tinham a capital como destino e seis partiriam da cidade.

As autoridades locais informaram que outras advertências também chegaram ao terminal, que continuou funcionando normalmente. Na Bulgária, o Ministério dos Transportes confirmou à AFP que dois aviões com destino à capital, Sófia, foram alvo de ameaças, mas pousaram sem incidentes.

Em Portugal, a polícia inspecionou uma aeronave que faria o trajeto entre Lisboa, em Portugal, e Roma, na Itália, sem localizar qualquer artefato explosivo. A Dinamarca também registrou novas mensagens direcionadas ao tráfego aéreo do aeroporto de Copenhague.

De acordo com a CNN, a polícia dinamarquesa descartou riscos aos passageiros, enquanto as autoridades tchecas afirmaram ter adotado medidas preventivas com impacto mínimo nas operações em Praga. Notificações: Ucrânia e Rússia sofrem ataques cibernéticos contra sistemas de emergência e recebem falsos alertas de ameaça nuclear

A nova sequência de incidentes ocorre após uma quinta-feira marcada por perturbações em diferentes partes do continente. Segundo a britânica BBC, pelo menos 21 voos e vários aeroportos foram afetados.

Na Itália, caças da Força Aérea foram mobilizados para escoltar aeronaves, incluindo um avião da Finnair procedente de Helsinque, na Finlândia, que pousou em segurança no aeroporto de Fiumicino, em Roma. Outros trajetos precisaram ser alterados.

Um voo da companhia irlandesa Aer Lingus com destino à capital italiana foi desviado para a França, enquanto duas aeronaves procedentes da Espanha e da Dinamarca foram redirecionadas para Sófia. Na terça-feira, pelo menos sete voos já haviam mudado de rota em razão de advertências semelhantes, conforme a CNN.

Nesta sexta, a crise se expandiu para empresas de comunicação, especialmente da Irlanda, e chegou a interromper transmissões ao vivo no país. Quem estaria por trás das ameaças?

Até o momento, nenhum país europeu identificou oficialmente os autores das mensagens. A União Europeia (UE) afirmou que ainda é cedo para determinar se os incidentes estão relacionados, embora especialistas em segurança levantem a hipótese de uma campanha destinada a desestabilizar serviços essenciais no continente.

Uma das principais pistas está em e-mails enviados a aeroportos de Roma e Sófia, supostamente assinados pelos chamados "combatentes do Estado Masculino". Segundo a AFP, a denominação parece fazer referência a um movimento nacionalista russo, mas não foi possível confirmar a ligação.

Veja mais: Presidente do Paraguai pede ao Congresso mais 72 horas para preparar defesa no processo de impeachment Na Itália, uma das comunicações chegou a uma empresa que presta serviços ao aeroporto de Fiumicino.

O texto afirmava que dispositivos explosivos haviam sido colocados em dois aviões procedentes de Helsinque e Dublin. A mensagem foi divulgada inicialmente pela emissora italiana Sky TG24, e um representante do terminal confirmou à CNN a autenticidade da reprodução do e-mail.

Segundo o Centro Internacional de Contraterrorismo (ICCT), instituto de pesquisa sediado nos Países Baixos, o movimento "Estado Masculino" surgiu na Rússia em 2016, com discurso misógino, e passou a apoiar a invasão da Ucrânia em 2022. O grupo foi classificado como extremista e proibido pela Justiça russa em 2021.

Em seu canal no Telegram, o fundador do movimento, Vladislav Pozdnyakov, negou ligação com as ameaças e disse que o "Estado Masculino" deixou de existir há cinco anos. "Quem quer que esteja atualmente promovendo provocações na UE em nome dessa 'marca' está agindo em benefício próprio, simplesmente usando a bandeira de outra pessoa.

Não é que eu sinta pena da Europa, de sua segurança ou de sua economia (na verdade, não me importo nem um pouco)", acrescentou. A utilização do nome, no entanto, não comprova que seus integrantes estejam envolvidos.

Em análise publicada pela BBC, o correspondente de segurança Frank Gardner destacou que os responsáveis podem estar se passando pelo grupo para ocultar a própria identidade. Por que há suspeitas sobre a Rússia?

A possibilidade de envolvimento de agentes ligados a Moscou ganhou espaço entre analistas diante da simultaneidade dos alertas e de outros episódios recentes de sabotagem e ataques cibernéticos na Europa. A hipótese é de que as ocorrências integrem uma estratégia de guerra híbrida, caracterizada por ações que prejudicam a infraestrutura e os serviços de um país sem necessariamente envolver um confronto militar direto.

À agência Reuters, Eric Schouten, diretor da empresa de segurança aérea Dyami, avaliou que o padrão das ameaças é compatível com operações atribuídas ao Kremlin. Ele apontou que vários dos países afetados estão entre os que apoiam a Ucrânia na guerra contra a Rússia.

O Ministério das Relações Exteriores da Alemanha também mencionou a invasão da Ucrânia ao comentar o ambiente de insegurança no continente. A pasta afirmou que a segurança europeia está sendo testada muito além da linha de frente ucraniana, citando os recentes alertas em aeroportos, ataques cibernéticos contra sistemas de refrigeração de supermercados e incursões de drones no espaço aéreo de países europeus, noticiou a CNN.

Apesar das suspeitas, não surgiram evidências públicas que vinculem as falsas advertências ao governo russo, ao Irã ou a organizações que atuem em nome desses países. A investigação também não estabeleceu se os episódios foram organizados por um mesmo grupo ou por diferentes autores.

Como os alertas foram enviados? As informações disponíveis indicam que ao menos parte das comunicações foi encaminhada por e-mail.

Um representante do aeroporto Václav Havel, em Praga, disse à CNN que as advertências envolvendo quatro voos chegaram por meio de uma mensagem anônima. A polícia tcheca confirmou que o conteúdo foi endereçado ao terminal e acrescentou que outros aeroportos europeus receberam avisos semelhantes.

Na Itália, o texto atribuído ao grupo extremista foi encaminhado a uma empresa de logística que atua em Fiumicino. Embora todas as verificações realizadas até agora tenham descartado a presença de explosivos, especialistas ressaltam que as autoridades não podem simplesmente ignorar esse tipo de comunicação.

Keith Jeffries, ex-diretor de segurança federal do aeroporto de Los Angeles, explicou em entrevista à CNN que os terminais aéreos contam com planos específicos para lidar com possíveis ataques e realizam treinamentos para executar os procedimentos necessários em situações de emergência.

No Reino Unido, a ministra dos Transportes, Heidi Alexander, classificou as ocorrências como ações falsas e maliciosas. Segundo ela, as companhias e autoridades acionaram os protocolos já estabelecidos para responder a esse tipo de ameaça.

Outros setores receberam ameaças? Nesta sexta-feira, várias empresas de comunicação da Irlanda receberam ameaças de bomba, expandindo a crise para além dos aeroportos.

Um e-mail enviado à emissora pública RTÈ afirmava que um explosivo seria detonado pela manhã, e as instalações da empresa foram esvaziadas, Em comunicado, a Virgin Media Ireland também confirmou ter recebido a ameaça, destacando que "as transmissões permaneceram no ar durante todo o período e não houve necessidade de evacuação."

Ainda não está claro se esses casos têm relação com as ocorrências no setor aéreo. À rádio Cork 96FM, o político irlandês Simon Harris afirmou que as autoridades ainda não sabem se as ameaças contra os meios de comunicação partiram de um único indivíduo ou se foram coordenadas.

Em entrevista à RTÉ. Micheál Martin, premier irlandês, afirmou que investigações já estão em curso.

— Isso ilustra como pode ser relativamente simples causar transtornos e comprometer o funcionamento normal da sociedade por meio de atividades não convencionais desse tipo, ações concebidas justamente para gerar perturbações, medo e ansiedade — completou. Qual é o objetivo das ações?

Além de causar atrasos, desvios e custos adicionais às companhias aéreas, a sequência de incidentes pode servir para testar a reação dos órgãos de segurança. Analistas ouvidos pela Reuters consideram a possibilidade de que os autores estejam observando a maneira como aeroportos e governos respondem às advertências.

— Diferentes serviços essenciais estão enfrentando interrupções que acarretam custos econômicos e podem minar a confiança pública — afirmou à Reuters Eliran Almog, diretor-executivo da empresa de cibersegurança aérea Cyviation.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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