Quem eram os 'órfãos do Titanic'? Conheça a história dos irmãos resgatados sem nome
Quem eram aquelas duas crianças que chegaram sozinhas a Nova York após a maior tragédia marítima do século XX? Quando o navio Carpathia recolheu os primeiros botes salva-vidas do Titanic, em abril de 1912, dois meninos pequenos, de cabelos escuros e olhos atentos, chamaram a atenção da tripulação. Enrolados em cobertores e incapazes de se comunicar em inglês, eles não sabiam dizer quem eram nem onde estavam seus pais.
Registrados provisoriamente como “Louis” e “Lolo”, os irmãos passaram a ser conhecidos pela imprensa internacional como os “órfãos do Titanic”, apesar de ninguém confirmar, à época, se eram de fato órfãos. Fotografias das crianças circularam em jornais como The New York Times, Le Figaro e La Vanguardia, alimentando a comoção pública e o mistério em torno de sua origem.
Uma fuga interrompida pelo naufrágio
Os meninos eram Michel Marcel Navratil, de três anos, e Edmond Navratil, de dois. Filhos de um alfaiate de origem eslovaca, Michel Navratil, e da italiana Marcelle Caretto, viviam no sul da França, onde os pais enfrentavam uma separação conturbada. Após perder a guarda, o pai decidiu fugir com as crianças. Na Páscoa de 1912, sob o pretexto de um passeio, vendeu bens, obteve documentos com nomes falsos e comprou passagens de segunda classe para o Titanic, embarcando em Southampton como “Louis M. Hoffman”, supostamente viúvo.
Na noite de 14 de abril, após a colisão com o iceberg, Michel Navratil colocou os filhos em um bote salva-vidas, obedecendo à ordem de “mulheres e crianças primeiro”. Ele não sobreviveu. Seu corpo foi identificado dias depois por documentos encontrados no casaco, segundo registros oficiais do resgate.
Resgatados pelo Carpathia, os irmãos permaneceram sob custódia das autoridades americanas. A identificação só ocorreu quando a mãe, na França, reconheceu os filhos em uma fotografia publicada nos jornais e acionou a Cruz Vermelha. Após um processo burocrático, comprovado por cartas e certidões, Marcelle viajou a Nova York para o reencontro, ocorrido de forma discreta no píer da cidade.
De volta à França, os meninos cresceram longe dos holofotes. Michel Marcel tornou-se professor e doutor em filosofia, refletindo ao longo da vida sobre trauma e memória; Edmond seguiu carreira no setor financeiro e morreu jovem, em 1953. Décadas depois, Michel Marcel revisitou a história do pai em entrevistas e cerimônias memoriais do Titanic, afirmando que sobreviveu graças ao último gesto de proteção paterna.
