Quem é Mestre Ciça, Personalidade do Ano do Estandarte de Ouro
Moacyr Silva Pinto é um dos nomes mais respeitados da bateria no carnaval carioca. Aos 69 anos, o Mestre Ciça construiu uma carreira que atravessa cinco décadas de avenida, de passista na Unidos de São Carlos, em 1971, a comandante de ritmistas em algumas das principais escolas do Rio. Neste ano, ele viveu um feito raro: ser o enredo da Unidos do Viradouro — vencedora do Estandarte de Ouro como melhor escola — e, ao mesmo tempo, o responsável por conduzir a bateria da própria homenagem na Sapucaí. Ciça também foi eleito Personalidade do Ano pelo Estandarte, que é uma realização dos jornais O GLOBO e Extra e chega à 54ª edição.
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Considerado o mestre de bateria mais longevo em atividade — na função há cerca de 40 anos —, Ciça, que já foi mecânico de automóveis, ingressou no carnaval carioca como passista, em 1971, para depois tornar-se ritmista na São Carlos, onde tocou agogô de duas bocas. Após o primeiro casamento, em 1977, fez uma pausa na folia a pedido da então esposa, que não se conformava em ter de passar as madrugadas longe do marido. Não suportou a distância de sua outra paixão e acabou voltando para o samba em 1986, já na Estácio e ainda como ritmista.
Dois anos depois foi convidado para virar mestre de bateria. Estreou no novo posto no desfile seguinte, cujo enredo era “Um, dois, feijão com arroz”. Em 1992, a escola foi campeã, com “Pauliceia Desvairada”.
A escolha de transformar o mestre em tema não foi apenas afetiva. A Viradouro levou para a avenida uma narrativa que celebra a trajetória de Ciça como símbolo de disciplina, liderança e resistência do samba. O desfile percorre sua história desde o início na Estácio, berço onde cresceu, passando pelas passagens por União da Ilha do Governador, Acadêmicos do Grande Rio e Unidos da Tijuca, até os títulos conquistados — incluindo os campeonatos da própria Viradouro, em 2020 e 2024.
Registro do ensaio técnico, domingo passado (1º): Mestre Ciça e a rainha de bateria, Juliana Paes
Divulgação/Renata Xavier
Na concentração, a cena ajudava a explicar o personagem que virou enredo. Nada de isolamento ou formalidades. Ciça chegou cedo, acompanhou a descarga dos instrumentos dos 282 ritmistas, jogou baralho, improvisou um churrasco e se sentou no meio-fio da Avenida Presidente Vargas para esperar a hora do desfile.
— Estou aqui porque gosto muito. Podia estar no hotel, porque sou enredo. Mas não vou mudar 38 anos de bateria — afirma.
Homenageado e operário da mesma escola, ele manteve o ritual simples: orientou componentes, posou para fotos, aprendeu a enviar localização pelo celular e admitiu um nervosismo discreto.
— Hoje estou um pouquinho mais — disse, antes de completar que faz apenas uma oração antes de entrar na avenida.
A única promessa foi pessoal: se a Viradouro conquistar o título, ele para de fumar. Aos 70 anos em julho, evita falar em aposentadoria.
— Vou deixar na mão de Deus decidir. Ele que vai falar “para” ou “não”.
Enquanto isso, o mestre segue fazendo o que sempre fez: comandar o ritmo. Desta vez, embalando a própria história.
