Quem é Fernanda Pedroso, a brasileira premiada em festivais de fotografia na Austrália
Em 2019, perto de completar 40 anos e sem filhos, a publicitária baiana Fernanda Pedroso encerrou um relacionamento longo. Ouvia muito a canção “Triste, louca ou má”, da banda Francisco, El Hombre, cujos versos dizem “A receita cultural / Do marido, da família / Cuida, cuida da rotina / Só mesmo rejeita / Bem conhecida receita / Quem, não sem dores / Aceita que tudo deve mudar”. E, decidida a romper com os rótulos impostos às mulheres, aceitou os ventos da mudança e pediu demissão da agência de publicidade em que trabalhava havia mais de duas décadas, em Salvador.
Em paralelo à saída da agência, conheceu um australiano, apresentado por amigos em comum. Durante a pandemia, apaixonada e na iminência do fechamento dos espaços aéreos, embarcou com ele para Camberra, na Austrália, onde nunca tinha estado. Chegando lá, a suspensão do tempo e a necessidade de confinamento a levaram a começar a estudar fotografia de forma remota.
Efeitos visuais e recortes de luz formam imagens em estúdio
Fernanda Pedroso
Em cinco anos, formou-se e passou a trabalhar exclusivamente com fotografia. Hoje, coleciona prêmios na Austrália e fora do país, como o Lens Culture, Festival Head On e Australasia’s Top Emerging Photographers Award 2024. Entre suas séries, destaque para “unBECOMING” (desTornar-se), inspirada no conceito do filósofo Byung-Chul Han, autor do livro “Sociedade do cansaço”. Ao produzir retratos em estúdio, sem explicitar onde foram clicados, Fernanda questiona a mediação da realidade por meio de dispositivos tecnológicos. Também reflete como a noção de fronteira afeta as identidades e provoca análises sobre a importância do multiculturalismo.
Corpos nus se movimentam em espaços não identificados
Fernanda Pedroso
A artista cria imagens misturando referências diversas a inspirações que remetem a mestres baianos da fotografia, como Pierre Fatumbi Verger e Mario Cravo Neto. Isso tudo com uma sofisticação de recortes de luz, efeitos visuais e truques de maquiagem aprendidos nos tempos de produtora de fotos publicitárias.
Corpos nus se movimentam em espaços não identificados
Fernanda Pedroso
A polonesa Kasia Chiluta, professora de fotografia e mentora no início da carreira da baiana, é fã: “Desde os primeiros passos, ela já se destacava por sua curiosidade e pelo desejo de dominar aquilo que parecia mais desafiador. Suas fotos não nascem ao acaso; são construídas com intenção, embasadas por um olhar atento, repletas de propósito e atravessadas por referências culturais”.
Cenas do cotidiano são reinventadas com imagens simbólicas
Fernanda Pedroso
Com um pé em Salvador e outro em Camberra, a fotógrafa segue em jogos de luzes e sombras. Reflete o comportamento humano num mundo em que as fronteiras se diluem nos espaços virtuais, mas se intensificam nos físicos, permeados por migrações e diásporas. Num tempo em que computadores fazem arte, ela investe em fotografias cujo objetivo é retratar os processos de colonização. E, sobretudo, cria imagens que ligam sujeitos e objetos a transformações tão ou mais grandiosas que as suas.
