Queijo ajuda pequenos pecuaristas do RS a se manterem na atividade

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Fonte da notícia: Globo Rural Globo Rural

A produção artesanal de queijo, com resgate de tradições que remontam a história do Rio Grande do Sul, tem sido um dos caminhos encontrados por produtores de leite gaúchos para manterem-se na atividade em tempos de margens apertadas e oscilações de mercado que já levaram mais de 55 mil pecuaristas a abandonarem a atividade entre 2015 e 2025, uma queda de 65%, segundo dados da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).

Vencedor do 4º Mundial do Queijo do Brasil, o produtor o queijeiro Igor Valsoler, de Jóia, no Noroeste do Rio Grande do Sul, é uma testemunha deste processo. Nos últimos três anos, ele viu o seu Estado natal passar de 30 medalhas no principal concurso nacional de queijos do Brasil para mais de 100 condecorações, sendo 30 delas de ouro. “Hoje podemos dizer que estamos em ascensão”, afirma.

Quando começou a produzir leite, em 2007, ele e seus pais já estavam decididos a não depender da venda de matéria-prima para grandes laticínios para se manter na atividade.

“A gente tinha essa visão de que uma hora ou outra seria custoso trabalhar com a indústria porque ela visa lucro próprio, não visa lucro para o fornecedor. Toda e qualquer indústria funciona assim”, recorda.

Hoje, ele avalia que a decisão foi decisiva para que a família conseguisse se estabelecer na atividade mesmo em tempos difíceis. “Se não fosse essa decisão, acho que estaríamos vivendo a mesma dificuldade que a maioria dos produtores de leite, enfrentando instabilidade de preço e preso às questões econômicas e outros transtornos”, afirma.

Eloiza Debona, de Soledade (RS), iniciou a produção de queijo após uma greve de caminhoneiros e mudou os rumos da fazenda da família Arquivo Pessoal Em Soledade, no norte do Estado, a produção de queijo também garantiu maior estabilidade financeira à pecuarista Eloiza Debona. Ela iniciou a atividade em 2016, após uma greve de caminhoneiros, inicialmente para não perder cerca de 500 litros de leite que ficaram represados na propriedade. O resgate de uma receita de família caiu no gosto do consumidor e abriu um novo horizonte para ela e o marido. “Isso fez com que enfrentássemos toda a seca que atingiu o Estado nos últimos anos, a alta e a baixa do preço de leite, e conseguíssemos nos manter dentro da atividade sem precisar desistir porque o custo estava muito alto”, reconhece a produtora.

Hoje ela industrializa 95% do leite que produz na propriedade e alcançou medalha de ouro no Mundial do Queijo do Brasil realizado este ano.

De acordo com a especialista em leite e derivados do Sebrae-RS, Aline Balbinoto, o mercado de queijarias artesanais tem crescido no Estado nos últimos cinco anos, acompanhando a mesma tendência de consumo que alavancou as vendas de cafés, cervejas e azeites artesanais. “Nesse momento, aqui no Rio Grande do Sul, a busca do consumidor tem sido de conhecer e entender esse universo de queijos”, reforça. O Sebrae já atende cerca de 45 pequenas agroindústrias queijeiras no Estado. Além de concursos nacional e internacionais, esses produtores têm apresentado o queijo gaúcho em feiras setoriais de diferentes regiões do país com resultados positivos.

“No Paraná, em Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, esses produtos são muito valorizados e muito procurados. O pessoal fala que, realmente, são diferenciados”, relata o presidente da Associação das Queijarias do Queijo Colonial da Serra Gaúcha, Daniel Cichelero.

A entidade teve sua ata de fundação assinada este ano durante a Expointer e foi criada com o objetivo de obter a indicação geográfica do queijo colonial da Serra Gaúcha – trabalho iniciado há dois anos e que também tem apoio do Sebrae e da Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul (Ocergs). Segundo Cichelero, em novembro a associação receberá a análise microbiológica do leite produzido na região e usado para a produção do queijo colonial da Serra.

“Por estarmos na Serra Gaúcha, não temos condições de ter grandes produções de leite em função do nosso relevo, mas temos um leite que se diferencia de outras regiões pela sua qualidade e por suas características organolépticas. Mas é necessário mostrar ao consumidor isso”, ressalta o presidente da Associação de Queijarias.

Debona industrializa 95% do leite que produz na propriedade Arquivo Pessoal A estratégia repete o roteiro adotado pelos produtores de queijo serrano, outra receita tradicional do Rio Grande do Sul e que obteve selo de Indicação Geográfica do INPI em 2020 – a primeira do país concedida a um queijo artesanal.

“Nós estamos trabalhando justamente esse posicionamento de mercado. Além da qualidade do produto, queremos mostrar a história, para mostrar que o Rio Grande do Sul também tem uma grande potência nessa área de queijos artesanais”, detalha Balbinoto. A avaliação do coordenador da Comissão do Leite e Derivados da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Allan Tormen, é de que a ênfase na produção de queijos artesanais viabiliza a permanência de pequenos produtores na pecuária leiteira através da agregação de valor à produção sem necessariamente aumentar a escala. Ele lembra que o Estado é o terceiro maior produtor de leite do país, com 12,8% de toda a captação nacional.

“Nós observamos que há uma expansão moderada desses queijos artesanais. Ela é a grande oportunidade da agregação de valor para manter esse pequeno produtor no campo”, destaca Tormen. Segundo ele, é preciso que o Estado atualize as normas locais para a produção de queijo artesanal para que a atividade ganhe maior tração nos próximos anos.

“Como você vai fazer um pequeno produtor de queijo atender a mesma exigência de infraestrutura de agroindústria que uma indústria com selo SIF, por exemplo? Ainda temos essas disparidades”, critica Tormen. Segundo Aline Balbinoto, do Sebrae-RS, o custo de implementação de uma agroindústria queijeira é de pelo menos R$ 35 mil, podendo chegar na ordem de milhões de reais a depender do tamanho da estrutura. O valor mínimo, afirma, foi calculado com base numa estrutura montada em um contêiner exposto na Expointer deste ano. “O produtor não precisa construir algo gigantesco num primeiro momento, porque se os planos são crescer, ele pode começar com algo enxuto, que atende a demanda atual e depois dar um próximo passo para ampliar”, recomenda Balbinoto.

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