Queda de Textor na Eagle, disputa no Lyon e efeitos no Botafogo: 12 perguntas e respostas sobre a crise
A crise envolvendo John Textor, a Eagle Football, o Lyon e o Botafogo ganhou contornos mais claros, e, ao mesmo tempo, mais complexos, nos últimos dias. Movimentos de credores, disputas societárias internacionais e embates públicos entre dirigentes passaram a se sobrepor, criando um ambiente de ruÃdo e insegurança para o torcedor alvinegro.
Veja abaixo os principais pontos do caso em 12 perguntas e respostas, que esclarecem a estrutura da disputa, os limites legais de cada ator e os impactos reais — e potenciais — para o Botafogo.
1 - O que exatamente aconteceu entre a Ares e a Eagle Football?
A Ares Management, principal credora da Eagle Football Holdings, acionou uma cláusula de proteção ao crédito prevista em contrato. Esse tipo de cláusula permite ao credor assumir o controle operacional da empresa devedora quando há deterioração financeira, quebra de governança ou risco ao pagamento da dÃvida.
Na prática, a Ares comunicou que passaria a comandar a Eagle, afastando John Textor da gestão do grupo. A decisão marcou uma escalada no conflito entre o empresário e seus financiadores.
2 - Isso significa que John Textor já perdeu oficialmente o controle da Eagle?
Depende do ponto de vista. A Ares afirma que sim: para o fundo, Textor foi afastado do comando operacional da holding com base em direitos contratuais.
Textor contesta essa versão. Ele diz que não houve ação judicial formal, que recebeu apenas uma carta e que, pelas leis do Reino Unido, seria necessária notificação adequada. Seus advogados classificam o movimento como juridicamente inválido. Portanto, há uma disputa aberta sobre a legitimidade do afastamento.
3 - Por que a Ares decidiu agir agora?
O estopim foi uma reorganização interna promovida por Textor, que afastou diretores independentes da estrutura de governança da Eagle. Para a Ares, esse movimento fragilizou mecanismos de controle justamente em um momento de instabilidade financeira.
Somam-se a isso o histórico de endividamento da holding, sucessivos descumprimentos contratuais e a ausência de uma solução definitiva para a dÃvida acumulada.
4 - Onde entra o Lyon nessa história? Textor já não havia sido afastado?
O Lyon é um dos principais clubes da rede controlada pela Eagle e, ainda que afete o Botafogo, se tornou o epicentro da disputa europeia. Na França, uma assembleia geral foi convocada para redefinir o poder dentro do clube.
Textor tentou usar essa assembleia como caminho para retomar influência no Lyon e na Eagle, e, por escalada, aumentar seus poderes no Botafogo, mas enfrentou resistência da atual presidente, Michèle Kang, e da própria Ares, que apoiou a manutenção da nova gestão.
5 - O que aconteceu na assembleia do Lyon?
Textor tentou invalidar os votos de diretores independentes e reassumir um cargo no clube. A reação foi imediata: os advogados de Michèle Kang e da Ares sustentaram que os votos haviam ocorrido antes de qualquer tentativa de destituição — e, portanto, eram legais.
A Ares enviou uma carta afirmando explicitamente que a destituição de John Charles Textor do cargo de diretor era válida e de efeito imediato. Na prática, Textor ficou sem poder no Lyon.
6 - Qual é o papel de Michèle Kang nesse conflito?
Michèle Kang assumiu o comando do Lyon após uma crise financeira, em junho do ano passado, e passou a contar com o apoio direto da Ares. Desde então, tornou-se a principal antagonista de Textor no cenário europeu.
Textor a acusa de romper o modelo multiclubes da Eagle e de deixar dÃvidas do clube francês com o Botafogo. Kang, por outro lado, lidera um processo de estabilização do Lyon sob supervisão do credor.
7 - A Eagle continua sendo dona do Botafogo?
Sim. Apesar da turbulência, a Eagle Football segue como controladora da SAF do Botafogo. Não houve, até agora, nenhuma alteração formal na estrutura societária do clube brasileiro.
O ponto central da crise é quem controla a Eagle, e não a propriedade direta do Botafogo.
8 - A Ares pode tirar John Textor do comando do Botafogo agora?
Não automaticamente. A gestão da SAF do Botafogo é regida por regras próprias. Mudanças no comando dependem do Conselho da SAF, com participação do clube social, ou do encerramento de decisões judiciais que hoje protegem a governança atual. Há, no entanto, bastidores que apontam para o rompimento de relações entre Textor e o clube social, o que pode trazer novas más notÃcias para o americano.
Além disso, há uma liminar do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que preserva a composição do conselho. Portanto, mesmo com a Ares assumindo o controle da Eagle, Textor permanece no comando do Botafogo neste momento.
9 - Como essa crise já afeta o Botafogo?
O principal reflexo é a instabilidade financeira. O clube enfrenta um transfer ban imposto pela Fifa e depende de um aporte prometido por Textor para quitar dÃvidas ligadas à contratação de Almada.
Internamente, a SAF adotou uma estratégia de contenção: priorizou o pagamento de salários, tentou isolar o futebol profissional das disputas externas e buscou evitar atrasos às vésperas do Campeonato Brasileiro.
10 - Existe risco de intervenção da Justiça brasileira no Botafogo?
No curto prazo, esse risco é baixo. A Justiça brasileira já se manifestou ao conceder uma liminar que preserva a atual estrutura de governança da SAF.
Além disso, há uma separação clara entre disputas societárias internacionais e a administração de uma empresa brasileira. Para haver uma intervenção direta, seria necessário um novo fato jurÃdico relevante no Brasil, o que não ocorreu até agora.
11 - A Ares pode, em algum cenário, assumir o Botafogo?
Essa é uma questão comum para a torcida do Botafogo, mas a resposta é: não de forma direta. A Ares é uma gestora de crédito, não uma empresa de futebol. Seu interesse é proteger o investimento, não administrar clubes.
Qualquer mudança nesse sentido exigiria uma reestruturação societária profunda, venda de ativos ou decisões judiciais especÃficas. Hoje, esse cenário é considerado remoto.
12 - O que o torcedor do Botafogo precisa observar daqui para frente?
Três pontos serão decisivos:
se o aporte prometido por Textor será efetivamente realizado;
como a relação entre Eagle e Ares se estabiliza (ou não) nos bastidores;
se a crise externa continuará isolada da operação esportiva do clube.
Enquanto esses fatores não se definirem, o Botafogo segue em um estado de atenção, mas não de ruptura.
