Que ti-ti-ti é esse fora da Sapucaí?

 

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Com histórias de outros carnavais contadas e cantadas o ano inteiro, o Baródromo é o termômetro do que vai acontecer na Sapucaí antes mesmo de os ensaios técnicos começarem. Uma espécie de museu informal do maior show da Terra, o barracão em forma de botequim já está em seu terceiro endereço, e parece ter encontrado seu lugar na Rua Dona Zulmira.

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Bar de esquina, janelas generosas, rua pacata que vira quadra animada com rodas de samba exclusivamente de samba-enredo e um pé-direito alto acomoda as alegorias, fantasias, fotos e instrumentos de todas as escolas ao longo dos anos, desde a construção da Passarela do Samba até hoje.

O esquenta por lá começa já no ano anterior, com o lançamento do cardápio de comes e bebes inspirados nos enredos do Grupo Especial. Um desfile de criatividade nas receitas e apresentações de seis drinques e seis petiscos que servem de desculpa para resenhas acaloradas sobre carnaval enquanto o resto do ano acontece.

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Sorte de principiante ou não, o coquetel inspirado no enredo da Acadêmicos de Niterói, “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, tem sido um dos primeiros a pipocar nas comandas. Feito com cachaça do MST, xarope de maracujá, limão, água tônica e espuma de gengibre, o que tem feito sucesso é a finalização, com o rosto do presidente emoldurado por uma bandeira do Brasil.

O drink que estampa a cara do presidente Lula, o homenageado da Acadêmicos de Niterói

Divulgação

O mesmo recurso do papel de arroz é usado no Camaleônico, que representa o enredo da Imperatriz em tributo a Ney Matogrosso. A referência da maquiagem da época do Secos e Molhados está ali, fato. Mas é uma representação quase caricata e menos apoteótica que o muso inspirador. Nesse quesito, segue um pouco o samba da Imperatriz, que pegou um pouco daqui, um pouco de lá e costurou com umas frases de hits do homenageado.

Sem muito zum-zum-zum até agora, a Mangueira parece que vai ter que ralar para fazer acontecer o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju — O Guardião da Amazônia Negra”, no bar ele vai pegar facinho. A versão etílica do samba da verde-rosa é feita com tiquira, uma aguardente de mandioca potente, com urucum com hibisco e gengibre, limão e água tônica.

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No clima do meme “ela é toda do bem, ela é tão galera”, “Rita Lee — a padroeira da liberdade” virou mini-hambúrgueres veganos, com maionese picante e creme de milho e os óculos característicos da roqueira marcados no pão nas cores da Mocidade. E a “Nação do mangue”, croquetes de caranguejo atolados em um mangue de ketchup e goiabada, como canta a Grande Rio. Deu liga, e o samba da escola tricolor de Caxias em homenagem a um dos movimentos musicais mais importantes do país é um dos mais ouvidos do ano.

Mais ouvido não quer dizer que esteja nas cabeças da safra de 2026. Quem entende do riscado anda apostando as fichas na homenagem da Vila Isabel a Heitor dos Prazeres. Coisa boa, só que para iniciados, como a polenta cremosa com língua e moela e coroa de jiló frito. Com atenção aos mínimos detalhes, a história de Rosa Magalhães contada pelo Salgueiro chega à mesa como pedaços de cozido empanados, carne desfiada, creme e leques de milho. Detalhes como aqueles que a Professora gostava de conferir com atenção, um a um, antes de entrar na Avenida.

Com o poder de transformar a Sapucaí em Maracanã sem atravessar o samba, Ciça, o Mestre Caveira, é o próprio enredo da Viradouro. Irreverente, divertido e corajoso, o diretor de bateria inspirou os bocados de polenta frita em forma de surdo, recheados de carne moída e queijo derretido. De fazer qualquer musa ajoelhar sem perder o ritmo. Dez, nota dez!