Que tal ficar 30 minutos ‘off-line’ por dia? Popular nas redes, desafio é recomendado por especialistas

 

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Curtir a vista da praia, ler um livro ou conversar à mesa com amigos já não eram experiências completas para Cendy Piccine. Aos 33 anos, a empresária percebeu que até momentos simples haviam perdido o brilho, consumidos pelo uso constante de telas. Foi nesse contexto que decidiu aderir a um desafio que circula nas redes sociais: ficar 30 minutos por dia em silêncio absoluto, sem celular, sem leitura, sem música, longe de qualquer estímulo externo. Apenas ela e os próprios pensamentos. “No começo, senti alívio por simplesmente não fazer nada”, avalia, sobre a sensação experimentada ao adotar a prática. A decisão veio depois de reconhecer que a mente estava sobrecarregada por horas de vídeos curtos e informações fragmentadas. “Essas escolhas fáceis e imediatas acabam nos afastando de nós mesmos. Era confortável me distrair.”

A vivência individual revela um movimento mais amplo. Segundo a pesquisa Consumer Pulse, o brasileiro passa mais de nove horas por dia on-line, tempo superior à média de sono diário. O pesquisador de cultura digital Matheus Sodré interpreta essa realidade como um sintoma: “Desaprendemos a nos escutar e a ter prazer em nos ouvir. O telefone nos condiciona a estar estimulados o tempo todo”. Para ele, o impacto vai além do hábito. “O fluxo algorítmico sequestra a atenção e nos torna menos interessados e, consequentemente, menos interessantes. Pensar é uma musculatura que precisa ser praticada.” Segundo o pesquisador, quando o pensamento é delegado às máquinas perde-se o discernimento entre elaboração própria e automatização: “Já o tédio permite articular pensamentos em outro ritmo. É emancipador”.

Há também explicação biológica. A neurocientista Carol Garrafa aponta para o chamado mismatch evolutivo: o cérebro humano foi moldado em um ambiente de escassez de estímulos e hoje opera em excesso permanente. “Biologicamente, precisamos de pausa. Ambientalmente, vivemos em aceleração.” Durante milhares de anos, silêncio e espera fizeram parte do cotidiano. Pensadores, filósofos e músicos encontraram na calmaria o terreno das ideias mais profundas. Hoje, microestímulos mantêm o sistema de recompensa ativado. “Quando o fluxo cessa, a dopamina cai, e o cérebro reage com estranhamento. O incômodo dos primeiros minutos sem fazer nada não é sinal de incapacidade, mas de recalibração.”

Esse desconforto também atravessou a psicóloga Izabella Petruscka, de 24 anos. Ao perceber sinais de cansaço semelhantes aos relatados por pacientes, decidiu participar do desafio. Durante 21 dias, praticou os 30 minutos de silêncio. “São muitos os movimentos internos que aparecem quando você se permite parar. Vieram pensamentos intrusivos, inquietação. Com o tempo, a agitação cedeu espaço a reflexões e ideias profissionais”, conta. Depois da experiência, passou a indicar a prática no consultório. “É um exercício de desafiar o cérebro a sair do automático.”

Mas se o silêncio traz tantos benefícios, por que ainda soa como ameaça? Segundo a psicóloga Marta Monteiro, a resposta envolve a forma como interpretamos nossas faltas. Ela diferencia o “tédio ansioso”, marcado pela inquietação do vício digital, do “vazio fértil”, estágio em que novas reflexões emergem: “O problema é o desaprendizado de olhar para dentro, o que nos torna superficialmente atentos a muita coisa, mas sem aprofundar o vínculo com os outros nem conosco”.

A falta de profundidade esbarra em um feed que sequestra a nossa biologia emocional. O escritor André Carvalhal, autor de “A alegria em ficar de fora” (2025), explica que a sequência frenética das redes — que mistura tragédia, piada e dancinha — altera a nossa forma de sentir. Para ele, o desafio só é potente se não virar espetáculo. “Quando você grava e posta, deixa de ser um momento para você e passa a ser performance.”