Que Jogo É Esse: É o dinheiro. É óbvio. Mas é saudável a Libertadores virar uma Copa do Brasil?

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Repórter da ge tv, Pedro Rocha apontou o microfone para um adulto torcedor do Estudiantes e perguntou por que os brasileiros estavam ganhando tanto na Libertadores. O entrevistado começou com “A verdade é que…”, expressão que quase sempre anuncia que a verdade ainda vai demorar um pouco, quando uma criança resolveu economizar o nosso tempo: “É porque os brasileiros têm muito dinheiro. É óbvio”. Depois citou Flamengo, Palmeiras e Fluminense e lembrou que, entre os argentinos, ainda restavam Platense e Estudiantes. Criança tem essa vantagem editorial: ainda não aprendeu a transformar o óbvio em palestra. Que Jogo É Esse: assine e receba a newsletter de futebol do GLOBO, escrita por Thales Machado, editor de Esportes Blog do Diogo Dantas: Investigação aponta como Fla e Flu colocam à venda mais ingressos que o permitido no Maracanã A resposta tem a profundidade possível para uma frase dita num corte curto de vídeo, mas os primeiros jogos das quartas de final tratou de lhe dar razão. Fluminense e Flamengo venceram Platense e Independiente del Valle por 2 a 0, o Palmeiras bateu a LDU por 1 a 0 e o Corinthians empatou com o Estudiantes fora de casa. Os quatro brasileiros ficaram em condições razoáveis de avançar, alguns mais confortáveis do que outros, e abriram a possibilidade de uma semifinal inteiramente nacional. O número mais impressionante, porém, começa uma fase antes. Desde as oitavas, brasileiros e estrangeiros se enfrentaram 12 vezes em 2026. Foram cinco vitórias brasileiras, sete empates e nenhuma derrota, com 11 gols marcados e quatro sofridos. Nenhum time de fora conseguiu vencer um brasileiro nos 90 minutos. Se a invencibilidade sobreviver aos jogos de volta, chegará a 16 partidas e terminará por um motivo curioso: não haverá mais estrangeiros para enfrentar - o Estudiantes, time do garoto, é o único que tem possibilidade de avançar sem vencer um brasileiro, mas precisará dos pênaltis para isso na Arena. Palmeiras venceu a LDU na ida das quartas de final da Libertadores NELSON ALMEIDA / AFP Até o único brasileiro eliminado por um clube de outro país saiu sem perder. O Mirassol empatou duas vezes com a LDU e caiu nos pênaltis, numa eliminatória disputada com jogadores preservados porque a preocupação mais urgente era não cair no Campeonato Brasileiro. O representante nacional que estava mais interessado em continuar na Série A do que em conquistar a América também não foi derrotado. Em Flamengo e Palmeiras, a campanha continental já parece parte de uma rotina construída com dinheiro, planejamento e elencos capazes de sobreviver a lesões, convocações e noites ruins. São clubes que frequentam as fases decisivas da Libertadores enquanto disputam também a parte de cima do Brasileiro. Fluminense e Corinthians dão um aspecto ainda mais revelador ao domínio. O Fluminense até se recuperou e ocupa uma boa posição no campeonato, mas viveu mudanças e oscilações recentes; o Corinthians chegou a quatro derrotas seguidas no Brasileiro, convive com problemas financeiros e tenta descobrir soluções dentro de um elenco limitado. Ainda assim, na Libertadores, nenhum dos dois perdeu no mata-mata. Esse talvez seja o melhor argumento a favor da explicação do menino. O dinheiro não determina cada jogo, porque futebol continua sendo um esporte bastante criativo na hora de humilhar previsões, mas determina a repetição. Compra mais tentativas, diminui o tamanho dos erros e permite que um clube atravesse uma fase ruim sem deixar de competir. Quando a superioridade aparece em 12 confrontos consecutivos, envolvendo equipes de perfis e momentos tão diferentes, fica difícil atribuir tudo ao acaso, à camisa ou àquela conhecida entidade chamada “peso da Libertadores”. O desenho da chave ainda permite semifinais entre Flamengo e Corinthians, de um lado, e Palmeiras e Fluminense, do outro. Com isso, a final poderia oferecer até um Fla-Flu ou um Corinthians e Palmeiras num torneio continental, clássicos que durante muito tempo precisaram dos estaduais para se encontrar numa decisão. Hulk fez um dos gols do Fluminense na vitória sobre a Platense MAURO PIMENTEL / AFP A própria Conmebol já tentou evitar esse tipo de situação: depois das finais brasileiras de 2005 e 2006, criou uma regra que obrigava clubes do mesmo país a se enfrentar nas semifinais. A norma durou de 2007 a 2016. Desta vez, seria inútil, porque não haveria ninguém de fora para proteger. Nada disso deveria provocar culpa no torcedor brasileiro. O flamenguista não precisa torcer por uma reação do Independiente del Valle em nome da diversidade cultural, assim como o palmeirense não tem obrigação de ceder um gol à LDU para salvar o equilíbrio do continente. Torcedor quer ganhar, e está certíssimo. Mas quem olha para a Libertadores como competição pode se perguntar o que acontece quando ela começa a parecer uma Copa do Brasil formada pelos clubes que foram bem no ano anterior, acrescida de algumas viagens internacionais. Corinthians empatou com o Estudiantes na ida das quartas de final da Libertadores JUAN MABROMATA / AFP A Libertadores sempre entregou algo além de qualidade técnica. Entregava estranhamento, armadilhas, times improváveis, estádios hostis e jogadores desconhecidos cujos nomes aprendíamos justamente porque acabavam com a nossa noite. Era uma competição menos organizada, menos previsível e muitas vezes pior jogada, mas suas histórias pareciam maiores porque havia alguma surpresa em produzi-las. A criança do vídeo já explicou por que os brasileiros ganham. É porque têm muito dinheiro. É óbvio. A pergunta que sobra para os adultos é se a Libertadores continua ganhando junto com eles.

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