Que Jogo É Esse: Neymar já não cabe como coadjuvante. E justo por isso eu não convocaria

 

Fonte:


O debate se impôs. Talvez nenhum outro nome da seleção brasileira provoque hoje uma divisão tão perfeita quanto Neymar. A enquete aberta pelo ge, apurada durante o Redação Sportv de quarta-feira estava praticamente empatada: 50,01% contra a convocação, 49,99% a favor. Entre os jornalistas da bancada — eu incluído — a divisão também apareceu: 56% não levariam Neymar à Copa, 44% levariam.

Que Jogo É Esse: assine e receba a newsletter de futebol do GLOBO, escrita por Thales Machado, editor de Esportes

Bastidores: Neymar ganha sobrevida com Ancelotti um mês depois de ter chance mínima de Copa; o que pesa contra e a favor

'Os Times da Seleção': Qual clube mais contribui para a história do Brasil nas Copas? Entre o tri e o tetra, a beleza e a decepção, a vez do Flamengo

Já que todo mundo está dando seu pitaco, talvez eu também precise dar o meu neste espaço. E eu não convocaria Neymar.

Há uma injustiça inevitável nisso tudo: Neymar precisa se provar mais do que os outros. Muito mais. Mais do que João Pedro, Igor Thiago, Rayan ou quase qualquer atacante que dispute uma vaga nessa reta final de ciclo. Porque nenhum deles muda o ambiente da seleção como Neymar muda. Nenhum deles altera hierarquia, foco, cobertura, rotina, expectativa e pressão da mesma forma.

Quando você convoca um desses jogadores, convoca apenas um atacante. Quando convoca Neymar, convoca um acontecimento. Chama um debate diário, uma tensão permanente, um protagonismo inevitável. E acho que é justamente por isso que a régua dele precisa ser diferente. Para compensar tudo o que vem junto.

Não porque ache que ele desaprendeu a jogar futebol. Nem porque imagine que sua presença, sozinha, defina o destino do Brasil na Copa, nem para o bem, nem para o mal. O problema, para mim, é outro: Neymar não consegue mais existir como coadjuvante. E talvez ninguém ao redor dele consiga aceitar isso também.

Hoje, Neymar só faz sentido numa seleção em que seja protagonista absoluto. Pela dimensão do personagem, pelo peso da história, pelo entorno que sempre o acompanhou e também por escolhas que ele próprio fez ao longo da carreira. Mas o Brasil vem construindo um outro ambiente, com outros novos líderes, outra dinâmica e uma tentativa — ainda irregular — de reorganização coletiva sem depender dele. É hora da Neymarindependência depois de tantos anos da dependência.

Fisicamente, Neymar até poderia ser útil como jogador de grupo. Mas não parece razoável convocar alguém desse tamanho para entrar 15 minutos, virar opção de banco ou disputar espaço como qualquer outro atleta. Tecnicamente, ele ainda melhora o Santos, ainda produz lampejos, mas está longe do Neymar capaz de ser craque de uma Copa. E, para mim, o principal ponto é mental: a pior parte de sua volta ao Brasil talvez tenha sido justamente o comportamento em campo. Discussões constantes, cartões, brigas com arbitragem, com adversários, com a própria torcida e até episódios de desgaste interno no Santos.

Ainda assim, acho importante dizer: a discussão sobre Neymar é maior do que o impacto real que ele teria em campo. O Brasil não ganhará — nem deixará de ganhar — a Copa apenas porque ele estará ou não na lista. Até poucos dias atrás, eu tinha certeza de que Ancelotti não o convocaria. Pelo ambiente, pelas informações de bastidores, pelo próprio contexto do ciclo. Hoje, já não tenho mais tanta certeza assim. Tanto que mudei meu voto inicial no painel de convocados do Globo, que vai ao ar neste domingo.

Tudo isso, toda essa expectativa, diz muito sobre Neymar, e seu real papel não só na seleção, mas no futebol brasileiro nos dias de hoje: mesmo distante de seu auge, ele continua capaz de transformar qualquer decisão numa discussão nacional.