Que Jogo É Esse: Do dono aos cartolas, o novo risco da SAF do Botafogo

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Quase cinco anos depois de chegarem aos grandes clubes brasileiros, as SAFs entram na fase menos fotogênica de sua existência. Já vimos dinheiro, contratações e PowerPoint; começamos recentemente a descobrir o que acontece quando os investidores enfraquecem. É nesse capítulo, ausente dos prospectos de venda, que se descobre se o clube construiu uma instituição ou apenas mudou o ocupante da cadeira. Que Jogo É Esse: assine e receba a newsletter de futebol do GLOBO, escrita por Thales Machado, editor de Esportes Bastidores: Botafogo segue no mercado, busca técnico de longo prazo e diretoria reage a críticas sobre amadorismo O Botafogo é o caso mais recente. E talvez o mais flagrante, apesar da concorrência do rival Vasco, tema para outra newsletter. Em 2022, o associativo vendeu 90% do futebol ao americano John Textor, prometendo recursos e a profissionalização de uma estrutura submetida durante décadas a eleições, alianças internas e relações pessoais. O choque de gestão chegou ao auge com os títulos do Campeonato Brasileiro e da Libertadores de 2024, mas também concentrou poder extraordinário no controlador. Quando Textor se enrolou e se enfraqueceu em meio aos problemas financeiros e societários de seu grupo, ficou evidente o quanto a empresa ainda dependia da vontade de um homem só. Agora, enquanto investidores liderados por Gabriel de Alba negociam assumir a SAF, o associativo, dono dos 10% restantes, recupera influência direta sobre o futebol. O principal personagem deste novo momento é João Paulo Magalhães, presidente eleito do associativo e ex-dirigente do Boavista. Seria injusto ignorar sua importância quando a gestão Textor mergulhou o Botafogo no caos: ele ocupou um vazio que alguém precisava ocupar e emprestou presença institucional a uma operação sem rumo. O problema começa quando a autoridade conquistada na emergência se transforma em autorização para redesenhar o futebol. Apagar um incêndio dá crédito ao bombeiro, mas não o transforma automaticamente em arquiteto da reconstrução. Um áudio divulgado nesta semana ajuda a localizar essa passagem. Nele, João Paulo defende a chegada de Thiago Alves, novo gerente de futebol da SAF, contratado sem anúncio público por receio das críticas. Para apresentá-lo, cita uma passagem pela CBF, uma medalha olímpica, o comando das academias da Juventus nos Estados Unidos e a proximidade com jogadores da seleção. No fim, porém, oferece o argumento que parece considerar realmente definitivo: Thiago trabalhou com ele durante 18 anos, é seu “cara de confiança” e os outros podem “chiar o que quiserem”. Thiago tem trajetória no futebol. Passou mais de uma década no Boavista, trabalhou em Remo e Ferroviário e integrou a administração da seleção pré-olímpica. A checagem, porém, não confirma tudo: seu perfil registra a saída da CBF em fevereiro de 2020, mais de um ano antes dos Jogos de Tóquio, e não encontramos indicação de que tenha integrado a delegação campeã ou comandado toda a estrutura de academias da Juventus nos Estados Unidos. Isso não demonstra incompetência, mas expõe uma defesa que engrandece o currículo para depois declará-lo secundário. No fim, o que realmente valia era a relação pessoal. Confiança, no futebol brasileiro, costuma ser uma palavra especialmente valorizada quando faltam processo seletivo, critérios públicos e uma ata que explique quem decidiu o quê. A contratação não é um caso isolado. Depois da goleada por 6 a 1 sofrida para o Cienciano, pela Sul-Americana, João Paulo participou da reformulação que levou o assistente técnico Marcelo Salles e o preparador físico Ronaldo Torres ao futebol da SAF, além de tentar contratar Paulo Bonamigo como coordenador. Bonamigo, sem comandar um clube havia quatro anos, desistiu depois da reação negativa da torcida; Ronaldo Torres vinha do Araruama, vice-lanterna da segunda divisão do Campeonato Carioca. Todos, junto com Thiago, trabalharam com João Paulo no clube de Saquarema. Não há demérito em vir de um clube pequeno, assim como uma passagem pela CBF não deveria funcionar como certificado de excelência. O futebol está cheio de profissionais que começaram longe dos holofotes e se mostraram capazes de trabalhar em estruturas maiores. A questão é outra: quando várias escolhas saem da mesma agenda de contatos, ela corre o risco de virar o próprio departamento de recrutamento. Cada nome pode ser defendido separadamente; o conjunto revela que o Botafogo passou a buscar soluções dentro do círculo profissional e pessoal do presidente do associativo. A SAF já tinha CEO, diretor de futebol, chefe de scout e profissionais responsáveis pela negociação de atletas. Gabriel de Alba também participa das decisões, Eduardo Iglesias preserva o poder formal e João Paulo sugere nomes. Há muita gente à mesa e pouca clareza sobre quem responderá se as escolhas fracassarem. Após três classificações seguidas à Libertadores, o Botafogo é hoje o 12º colocado do Brasileiro, cinco pontos acima do Z-4. É neste cenário que surge a AssociaSAF: dinheiro privado, método associativo e responsabilidade espalhada. Se funcionar, todos ajudaram; se der errado, ninguém decidiu sozinho. E é nesse ponto que ganha importância a ótima entrevista de João Moreira Salles ao canal Arena Alvinegra. João não é apenas um botafoguense rico oferecendo opiniões sobre o clube. Documentarista de filmes como “Santiago” e “Entreatos”, criador da revista “piauí” e integrante da família que fundou o Unibanco, ele é irmão de Walter Salles, diretor de “Central do Brasil” e “Ainda Estou Aqui”. No Botafogo, os dois ajudaram a viabilizar o centro de treinamento do Lonier e participaram, antes mesmo da criação da lei das SAFs, da elaboração de um projeto de clube-empresa que tentava tirar o futebol da situação financeira terminal em que se encontrava. João Moreira Salles reúne, portanto, dinheiro, prestígio, ligação afetiva, serviços prestados e conhecimento da história recente do clube, uma ficha que no futebol brasileiro costuma render ao portador pelo menos uma vice-presidência antes do fim da leitura. Ainda assim, ao admitir que poderia considerar um investimento minoritário na nova SAF, recusou a possibilidade de administrar o futebol: “O Botafogo não precisa de amadores, e nós seríamos amadores no futebol”, disse, referindo-se também ao irmão. A força da resposta está menos na modéstia do que na compreensão do próprio limite. Textor chegou com dinheiro, bem mais alavancado do que a euforia inicial permitia perceber, e passou a agir como se isso também lhe desse todo o conhecimento necessário para comandar um clube. O associativo tem história, paixão e legitimidade eleitoral, mas corre o risco de concluir que essas credenciais bastam para escolher executivos, treinadores e jogadores. João e Walter Salles poderiam reivindicar quase todos esses atributos e, justamente por isso, a decisão de não convertê-los em poder administrativo oferece uma pequena aula sobre a diferença entre contribuir com uma instituição e se considerar habilitado a governá-la. O clube social tem uma função indispensável, sobretudo depois da experiência com Textor: fiscalizar o investidor, proteger o patrimônio e a identidade do Botafogo, acompanhar contratos e impedir que o clube volte a ser tratado como peça de um portfólio internacional. Quando esse fiscalizador passa a administrar informalmente o futebol, porém, perde parte da independência necessária para cobrar quem administra. O Botafogo não precisa escolher entre o poder sem freios de John Textor e a restauração dos métodos que a SAF prometeu superar. Os títulos de 2024 provaram o que capital, competência e uma estrutura profissional podem produzir; a crise posterior mostrou o perigo de uma empresa desenhada em torno de um homem. O associativo tem agora a oportunidade de impor limites ao próximo controlador. Se, em vez disso, tentar substituir o anterior no comando informal do futebol, deixará de ser contrapeso para se tornar apenas o próximo personalismo. João Paulo disse que os outros podem chiar. Podem mesmo. Num clube ou em uma empresa que não explica como escolhe, quem decide e quem responde, o chiado talvez seja o ruído mais profissional da história. Trocar o dono da SAF sem trocar a lógica do dono é apenas mudar o homem autorizado a mandar os outros chiarem o quanto quiserem.

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