Quatro vinhos da premiada Lavaque revelam os sabores e aromas da região argentina de Salta; conheça
A Bodega Lavaque produz vinhos em Salta, no Norte, uma região menos falada da Argentina. Dois de seus vinhos brancos obtiveram 95 pontos no Guia Descorchados 2026 e começam a ser conhecidos pelos consumidores no Brasil. Os vinhedos de Cafayate estão em condições extremas: entre 1.700 e mais de 2.000 metros de altitude, com grande amplitude térmica, radiação intensa e solos pobres. Ali, as uvas amadurecem lentamente, preservando acidez e com perfis aromáticos marcantes.
— Estamos no Norte da Argentina e, obviamente, à medida que nos aproximamos do Equador, vamos para quentes. E na viticultura continental na Argentina, conseguimos o frescor e os climas mais frios através da altitude. A altura também faz com que a radiação UV seja mais intensa e impacte a planta em geral e em particular na pele das uvas. A planta busca proteger as sementes e modifica a casca frente a um clima tão intenso — explica o enólogo e produtor Francisco Lavaque, em visita ao Rio.
O enólogo e produtor Francisco Lavaque
Cláudia Meneses / Agência O Globo
O produtor lembra que a geologia também impacta fortemente aquele terroir:
— Quando subimos, temos rochas cada vez mais presentes. Então, temos todo esse impacto do solo, do clima. E a viticultura de montanha também é definida pela origem da água. Você pode encontrar água muito pura no subterrâneo, mas em nossos vinhedos temos a bênção e a sorte de ter águas de degelo que são super puras.
Lavaque lembra que a vinícola foi criada no início do século XX e, na região, muitos vinhedos foram plantados pelos imigrantes em pérgulas.
— Houve uma formação mais lenta da planta até atingir altura. Não se pode mecanizar tanto, mas há um microclima muito lindo abaixo da vinha. São plantas tão velhas que não brotam com vigor, fazer um filtro que passa a luz muito difusa para o centro. Já a plantação em espaldeia ocorreu mais nas décadas de 1980 e principalmente nos 1990.
Lavaque explica que os vinhedos são regados no inverno, e é feito um acompanhamento do solo:
— Cavamos buracos no solo para verificar a umidade e, na primavera, paramos de regar. Em janeiro, começam as chuvas e a rega se regula sozinha. Em alguns anos chove muito pouco, talvez 200 milímetros, e a chuva se concentra em dois meses, janeiro e fevereiro. Mas há anos em que uma tempestade atravessa o vale e despeja 90 milímetros de uma só vez. Então, existem esses fatores que nos definem: a montanha, a altitude, as rochas, a água.
Ele lembra ainda as pessoas que cuidam dos vinhedos há anos.
— É como se houvesse uma cultura vinícola da qual se aprende muito. Fui estudar na Califórnia, mas no fim das contas aprendi mais conversando com os produtores de vinho da região. A marca do nosso vinho Vallisto se refere a essa cultura, chamam-se as pessoas dos vales como Vallisto, os vales Calchaquíes.
Os vinhedos do Valle de Cafayate estão entre os mais altos do mundo, situados a 1.800 metros acima do nível do mar, em declives das montanhas da Cordilheira dos Andes. As vinhas têm idade média de 55 anos, com baixo rendimento. As uvas são colhidas manualmente.
Brancos premiados
O Lavaque Torrontés
Divulgação / @bodegalavaque
O Lavaque Torrontés 2024 passa cinco meses em contato com as peles em tanques de cimento e 7 meses em foudres de carvalho francês de 3.000 litros.
— É uma variedade muito emblemática para Cafayate. Costumava ser a uva mais produzida no vale, um sucesso em nível nacional na Argentina nas décadas de 1970 e 1980. Nos anos 1990, muitos vinhedos de uvas tintas foram incorporados ao vale e a Torrontés não perdeu exatamente espaço, mas parecia que lutava para encontrar seu lugar.
O enólogo explicou que, com as exportações desse vinho, a criação de rótulos de alta gama e novas interpretações, a Torrontés conquistou um lugar diferente. No entanto, seu volume de produção não cresceu tanto quanto o da Malbec.
— Ela acabou com uma área de cultivo mais limitada e uma vinificação com abordagens mais criativas. Uma das mudanças iniciais foi começar a colheita mais cedo. No caso do Torrontés do vale, temos um vinho muito mais limpo e fresco do que o Torrontés tradicional, com aquele sabor quase adocicado no paladar, mesmo sendo um vinho seco. Essa é uma perspectiva diferente que tenho sobre o Torrontés, baseada em vinhas incríveis.
O vinho tem aromas de flores brancas, como jasmins e flor de laranjeira; frutas cítricas, como lima; frutas de caroço, como pêssegos; além de notas de baunilha e toques herbáceos. Combina com ceviche, peixes, legumes grelhados com ervas, risoto de fruto do mar e queijos de massa mole, como o de cabra.
— O perfil de aromas varia de frutas tropicais e flores brancas a outros tipos de flores. Algo que o descreve perfeitamente é a casca de laranja. Para mim, este vinho tem pétalas de rosa muito pronunciadas — e depois notas cítricas.
Vinhedo da Lavaque: viticultura de montanha
Divulgação / @bodegalavaque
'Sente-se a rocha'
O Lavaque Chardonnay 2024 passa 12 meses em foudres de 3.000 litros. Tem aromas de frutas cítricas, como limão siciliano; frutas brancas, como maçãs e peras; frutas de caroço, como pêssegos brancos, além de abacaxi; e toques florais e de baunilha. Combina com carnes brancas grelhadas e assadas; peixes; gastronomia asiática, como sushi e sashimi; moqueca de pescados e queijos de capa branca, como brie.
— Neste Chardonnay, você consegue sentir o gosto da rocha. Estes são solos graníticos, muito antigos, que outrora foram leitos marinhos. É incrível. A Chardonnay fica numa parte mais alta, onde há bastante rocha. O solo é muito pobre, mas hoje está vivo, graças ao trabalho que fazemos com irrigação e compostagem. Este Chardonnay é um vinho tipicamente de montanha e, de certa forma, é a minha interpretação de uma colheita muito precoce. Colho as uvas no dia 10 de janeiro para obter essa acidez natural. No início, eu era o único a colher em janeiro, mas agora está se tornando mais comum — conta Francisco Lavaque.
Mistura de culturas
O Vallisto Extremo Criolla
Divulgação / @bodegalavaque
O Vallisto Extremo Criolla é resultado de uma mescla de culturas. Os vallistos (pessoas que moravam nos vales) receberam de dos jesuítas as vinhas da uva Criolla, para produzirem vinhos usados nas celebrações religiosas. Esses vinhedos foram plantados em1898, a 2.600 metros de altitude.
— Na América, não existiam variedades nativas de Vitis vinifera (uvas); havia outros tipos que foram posteriormente utilizados para enxertia, para nos proteger da filoxera. Mas a Vitis vinifera começou a ser introduzida durante a conquista das Américas.
O produtor explica que a primeira variedade a chegar foi a Listán Prieto.
— Pelo que pesquisei, ela entrou primeiro pelo México, depois se espalhou para a Califórnia e, em seguida, para o sul da América do Sul, passando pelo Peru, entrando pelo Chile e atravessando a Argentina por Santiago del Estero. De lá, seguiu para o Norte, e a viticultura é praticada nos Vales Calchaquíes há 400 anos.
A Listán Prieto é uma variedade nativa, de menor porte, e ainda hoje existem vinhedos antigos dela.
— Numa região tão pequena, onde cultivamos apenas 3.700 hectares, o fato de essas plantas fazerem parte da nossa herança vitivinícola, e de podermos produzir vinhos de qualidade e preservar isso, me parece fantástico. É como proteger esse patrimônio histórico da viticultura. Produzimos vinhos espetaculares, com variedades que estavam meio esquecidas.
Lavaque explica queo Vallisto Criolla é um vinho bem frescos e frutado:
— Gosto que seja um vinho com pouca matéria corante, mas com bons taninos. A casca não tem muita matéria corante, o sol a torna translúcida. É um vinho com toque de especiarias, além de aromas de romã e morango. Ele harmoniza bem com comida. Eu sirvo como aperitivo ou quando estou fazendo um churrasco com choripán.
Malbec de Salta, no Norte da Argentina
Divulgação / @bodegalavaque
O Lavaque Malbec é produzico com uvas de um vinhedo a mais de 1.500 metros de altitude. Tem perfil frutado, com aromas de ameixas maduras, notas florais e leve toque de especiarias. O enólogo conta que fez várias experiências para chegar ao rótulo:
— Na busca pelo Malbec perfeito, também houve uma abordagem de tentativa e erro em relação ao momento da colheita. Fiz microvinificações, trabalhei com diferentes teorias sobre o amadurecimento excessivo, ajuste da acidez ou busca pela acidez natural. A chave que descobri e de que gosto em Cafayate é garantir que o pH não suba muito. É importante deixar as uvas amadurecerem o suficiente para lhes conferir um caráter frutado sem que fiquem moles demais. Com essa precisão, conseguimos um Malbec fresco com corpo médio. Não o comercializamos como um Malbec varietal, porque ele tem entre 5 e 10% de Tannat. Depois, ele amadurece por um ano em cubas de 5.000 litros.
Os vinhos são trazidos para o Brasil pela World Wine. Os preços são: Vallisto Extremo Criolla (R$ 196); Lavaque Malbec (R$ 349); Lavaque Chardonnay (R$ 349); e Lavaque Torrontés (R$ 349).
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