Quatro perguntas para Maria Gal, que viverá Carolina Maria de Jesus no cinema e no desfile da Tijuca
O samba da Unidos da Tijuca para 2026, em homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus, fala das "tantas Marias" que a autora representa com sua jornada de dor, talento, superação e, infelizmente, apagamento ao longo da história. Uma destas Marias, sem dúvidas, é Maria Gal, que não somente tem no nome a sintonia com o enredo da Tijuca, mas também no currículo. A atriz baiana de 50 anos é a protagonista do filme "Quarto de despejo", homônimo ao maior sucesso literário de Carolina Maria de Jesus sob a direção de Jeferson De.
Diante de tantos laços unindo Maria Gal, Carolina Maria de Jesus e Unidos da Tijuca, se tornou mais do que pertinente a participação da atriz no desfile da escola, que fecha a segunda-feira (16) do Grupo Especial na Sapucaí.
Inspiração, legado e ancestralidade: Maria Gal descreve sua relação com a obra de Carolina Maria de Jesus
João Wesley
Em meio à correria pré-folia, o Repinique fez quatro perguntinhas a Maria Gal, que falou sobre seu "encontro" com o legado de Carolina Maria de Jesus e sua relação com a comunidade tijucana.
Você já conhecia a história de Carolina Maria de Jesus antes do projeto do filme?
Sim. Conheci por volta de 2005, através do livro "Quarto de despejo". Lembro que aquela leitura não foi apenas um encontro literário, foi um acontecimento na minha vida. Cada página parecia pulsar. Era como se a voz dela saísse do papel e ocupasse o espaço da sala onde eu estava. A partir desse impacto, criei com um grupo de atores um espetáculo sobre Carolina que ficou em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro. Depois atravessamos o oceano e apresentamos em Berlim, no teatro Volksbühne. Levar Carolina para a Europa no início dos anos 2000 foi simbólico demais. Uma mulher como Carolina ecoando sua voz em um dos palcos mais importantes do mundo. Muito antes de pensar no filme, Carolina já fazia parte da minha trajetória artística. O cinema é uma continuidade de um vínculo que começou há quase duas décadas. Não é um projeto isolado. É uma história que caminha comigo. Poder realizar esse filme com direção do nosso grande diretor Jeferson De, em parceria entre a Move Maria, Raccord, Globo Filmes, Buda Filmes e Elo Studios como distribuidora tem sido algo muito especial. Entre 2026 e 2027 vocês poderão assistir nos cinemas!
Qual foi o impacto em você depois de conhecer a jornada dela?
Ela mudou a minha vida, assim como mudou a vida de tantas pessoas. Carolina me ensinou que a arte pode nascer da escassez e ainda assim ser abundante. Que a palavra pode ser casa, pode ser arma, pode ser alimento. Quando eu li seus diários, eu compreendi que a escrita dela não era apenas registro, era denúncia, era sonho, era estratégia de sobrevivência. A minha história com Carolina tem a ver com chamado, propósito e legado. Eu acredito muito que algumas histórias e personagens nos escolhem. E eu me senti escolhida por essa responsabilidade de ampliar a voz dela para outras gerações, para outras linguagens, para o audiovisual. Ela me ensinou também sobre dignidade e audácia. Sobre não permitir que o mundo defina o seu valor a partir da sua condição social. Carolina escreveu sobre fome, mas nunca escreveu com submissão. Ela tinha consciência da própria grandeza. Isso me impactou profundamente como mulher negra, artista e empresária de audiovisual . Existe uma Maria antes e outra depois de Carolina na minha vida. Ela reorganizou meu olhar sobre o Brasil e sobre o meu próprio caminho.
Há cerca de dois anos foi lançado o documentário “Pequena África”, que você apresentou e produziu, com a proposta de combater o apagamento de legados da negritude em nossa história. Falar de Carolina também é combater este apagamento?
Sem dúvida. Falar de Carolina Maria de Jesus é enfrentar diretamente o apagamento histórico que atinge intelectuais negros no Brasil. Criar a Move Maria nasce desse propósito: contar histórias diversas e provocar um movimento positivo na sociedade, na cultura e na educação através do cinema e da televisão. Para mim, ser atriz, apresentadora e poder criar estratégias para captar recursos e produzir através da minha produtora é um ato de audácia como dizia nossa Carolina e de responsabilidade histórica. Quando apresentei e produzi o documentário, que está no Globoplay, a intenção era justamente iluminar territórios, memórias e personagens que foram invisibilizados ao longo da nossa história oficial. A "Pequena África" é um símbolo desse apagamento, mas também é símbolo de resistência e construção cultural. Carolina sofreu esse mesmo processo. Ela foi transformada em fenômeno editorial nos anos 1960, traduzida para diversos idiomas, mas depois foi silenciada, marginalizada, reduzida a uma narrativa conveniente. Como se sua potência literária fosse circunstancial. Trazer Carolina para o cinema é reescrever esse lugar. É dizer que ela não foi um episódio. Ela é estrutura. Ela é uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Quando contamos a história de Carolina, não estamos olhando para o passado apenas. Estamos disputando o futuro.
Como tem sido a troca com a comunidade da Unidos da Tijuca durante este pré-Carnaval?
Receber o carinho da comunidade da Unidos da Tijuca na quadra, no ensaio de rua e na Sapucaí tem sido algo muito profundo. A quadra da escola é um espaço de pertencimento. Quando eu entro ali, eu sinto que não estou apenas participando de um desfile, estou entrando numa família. O samba é memória coletiva. Cada batida do surdo carrega ancestralidade, cada verso do samba-enredo carrega história. Estar ali representando Carolina é perceber que a literatura dela encontra o tambor. A palavra vira ritmo. A denúncia vira canto. A troca com a comunidade tem sido de muita generosidade. Eu escuto, aprendo, observo. Porque a escola vive essa construção o ano inteiro. Existe disciplina, dedicação, amor e uma força comunitária que me emociona profundamente. Poder representar nossa Carolina como destaque na abertura do desfile ao lado do presidente da escola Fernando Horta, que estará como Dr. Euripedes, personagem tão importante na vida de Carolina, é de uma honra imensa!
E sua preparação para o desfile? Ansiosa? Animada? Emocionada?
Muito animada e profundamente emocionada. Eu entendo que o Carnaval é espetáculo, mas também é narrativa. Estou me preparando com responsabilidade, estudando ainda mais a trajetória de Carolina, me conectando com o enredo, com o que vamos contar na Avenida. Ensaiei também e conversei com a musa da comunidade, Natany. Aprender com quem vive aquele chão é essencial. Existe técnica, existe preparo físico, existe postura, mas existe principalmente entrega. Não é apenas sobre atravessar a Sapucaí com brilho. É sobre atravessar com consciência. Eu sinto que levo comigo não só Carolina, mas tantas mulheres negras que escreveram suas histórias em silêncio e nunca tiveram palco. Desfilar é celebrar, mas também é afirmar presença. Eu não entro na Avenida sozinha. Eu entro com memória, com propósito e com a certeza de que contar essa história é parte da minha missão.
