Quatro anos sem clube, A2 do Carioca e elo com o Boavista: por que nova estrutura do futebol gera desconfiança no Botafogo - QTU Questões do Universo

Quatro anos sem clube, A2 do Carioca e elo com o Boavista: por que nova estrutura do futebol gera desconfiança no Botafogo

Fonte: Bandeira da fonte

A demissão de Franclim Carvalho, confirmada pelo Botafogo na noite de terça-feira, veio acompanhada de uma mudança que foi além da troca de treinador e provocou desconfiança entre torcedores sobre os rumos do futebol alvinegro.
Ao mesmo tempo em que anunciou a saída do português, o clube criou uma nova configuração para sua comissão técnica permanente: Paulo Bonamigo será coordenador técnico, Ronaldo Torres assume a preparação física e Marcelo Salles, o Fera, passa a ser auxiliar fixo.
Rodrigo Bellão, treinador do sub-20, comanda interinamente a equipe contra o Cienciano enquanto o clube procura um novo técnico.
Franclim deixou o cargo depois de 22 partidas, com dez vitórias, sete empates e cinco derrotas.
A goleada por 6 a 1 para o Cienciano, em Cusco, seguida pela derrota por 1 a 0 para o Vitória, aumentou a pressão sobre o treinador.
Jogo Botafogo x Vitória no Engenhão.
Técnico: Franclim Carvalho
Marcelo Theobald / Agência O Globo
É justamente nesse cenário de transição que os nomes escolhidos para a estrutura permanente ganharam um peso maior.
A chegada dos três alimentou na SAF, em alas do clube social e em parte da torcida a dúvida sobre o tamanho da influência que o Botafogo associativo, presidido por João Paulo, terá no futebol durante a gestão que começa a ser construída pela GDA.
A reação negativa chegou a aparecer imediatamente após o anúncio, com críticas ao perfil dos profissionais.
A questão aberta é se a atual formação representa apenas uma solução para o período de transição ou sinaliza um modelo mais permanente de gestão.
Um ponto em comum ajuda a explicar a desconfiança.
Bonamigo, Ronaldo Torres e Marcelo Salles trabalharam no Boavista durante o período em que João Paulo Magalhães Lins esteve à frente da gestão do clube de Saquarema.
A família de João Paulo passou a comandar o Boavista em 2004, e ele próprio se tornou o principal gestor do futebol em 2012.
Ronaldo era preparador físico do clube em 2013; Fera trabalhou como auxiliar de Joel Santana em 2017; e Bonamigo comandou a equipe em 2020, quando foi vice-campeão da Taça Guanabara.
O controle do Boavista foi negociado com outros investidores em 2024.
Ronaldo ainda retornaria ao clube neste ano, já depois dessa mudança.
A coincidência não torna as contratações, por si só, indicações políticas nem diminui as carreiras dos profissionais.
Os três têm passagens relevantes pelo futebol brasileiro.
Mas o histórico compartilhado ganha importância porque João Paulo foi eleito para comandar especificamente o clube associativo e, em sua posse, disse que sua responsabilidade estaria no Social e nos esportes olímpicos, enquanto o futebol pertencia à SAF.
Ele próprio citou naquela ocasião a experiência acumulada como gestor do Boavista e se colocou à disposição para ajudar a estrutura do futebol.
A escolha simultânea de três profissionais que passaram por aquele ambiente, portanto, torna natural a discussão sobre quanto essa rede de relações participa agora da montagem do novo Botafogo.
Entre os contratados, Paulo Bonamigo é quem apresenta o maior intervalo sem trabalho oficial em um clube.
Campeão brasileiro como jogador e dono de uma longa carreira como treinador, ele comandou Coritiba, Atlético-MG, Botafogo, Palmeiras e Goiás em períodos importantes da trajetória.
Mas a última vez em que dirigiu uma equipe durante uma edição da Série A do Campeonato Brasileiro foi no Goiás, em 2007.
Nos anos seguintes, passou por Paraná, Ponte Preta e Bahia em divisões inferiores, trabalhou por várias temporadas no Oriente Médio, dirigiu o Fortaleza na Série C em 2017 e voltou ao Brasil para assumir o Boavista em 2020.
Paulo Bonamigo no Botafogo em 2004
Alexandre Cassiano
Depois do Boavista, Bonamigo assumiu o Remo e conquistou o acesso da Série C para a Série B em 2020.
Saiu no ano seguinte e retornou para a temporada de 2022, quando foi campeão paraense.
A terceira passagem terminou em 19 de junho daquele ano, após uma derrota para o Altos pela 11ª rodada da Série C.
Desde então, não voltou a exercer uma função oficial em clube até ser anunciado pelo Botafogo, um intervalo superior a quatro anos.
Neste período, seu nome apareceu no mercado e chegou a ser cogitado para outros trabalhos, mas não houve uma nova contratação.

Ronaldo Torres também chega com um currículo que mistura conquistas de grande peso no passado e uma sequência recente distante da elite.
O preparador físico fez parte do Botafogo campeão brasileiro em 1995 e do Fluminense campeão nacional em 2010, além de ter trabalhado em outros grandes clubes.
Sua passagem pelo Cruzeiro, em 2021, é uma das últimas por uma equipe de maior projeção nacional, mas ocorreu quando o clube mineiro disputava a Série B.
Naquele trabalho, Ronaldo integrava a comissão de Felipe Conceição, treinador que acompanhou em boa parte dos anos seguintes.
Ronaldo Torres no treino do Botafogo em 1998
Ricardo Gomes
A sequência ajuda a dimensionar o nível das competições em que vinha atuando.
No início de 2024, Ronaldo era preparador físico do Uberlândia.
Deixou o clube junto com Felipe Conceição após quatro rodadas do Campeonato Mineiro, com dois empates e duas derrotas; naquele momento, a equipe tinha a pior campanha da competição e era lanterna de seu grupo.
Em maio de 2025, reapareceu ao lado do mesmo treinador no Itabirito, desta vez registrado como auxiliar, para disputar a Série D do Campeonato Brasileiro.
Em 2026, Ronaldo iniciou a preparação do Araruama e aparece nas súmulas da Ferj como preparador físico da equipe na Série A2 do Campeonato Carioca.
O trabalho atravessou um começo especialmente ruim: depois de seis rodadas, o Araruama tinha apenas três pontos, ocupava a vice-lanterna da segunda divisão estadual e estava na zona de rebaixamento.
Roberto Brum pediu desligamento após a derrota por 1 a 0 para o Maricá, no início de junho, encerrando aquele ciclo da comissão.
Ronaldo também deixou a equipe.
Pouco mais de um mês depois, Ronaldo já estava novamente no Boavista.
Súmulas oficiais da Ferj o registram como preparador físico da equipe na Copa Rio em julho, inclusive em um confronto justamente contra o Araruama, no dia 22.
Menos de um mês mais tarde, foi anunciado pelo Botafogo para assumir a preparação física de forma permanente.
Assim, sua trajetória mais recente passou por Série D, campeonatos estaduais, Série A2 do Rio e Copa Rio antes do salto para uma equipe da Série A do Brasileiro.
Marcelo Salles é a exceção mais clara dentro desse recorte.
O currículo recente de Fera não permite colocá-lo no mesmo grupo dos outros dois em relação ao afastamento da elite.

Auxiliar do Flamengo desde 2019, ele chegou a comandar interinamente a equipe antes da chegada de Jorge Jesus e teve três vitórias e um empate naquele Brasileiro.
Depois de uma tentativa de seguir carreira como treinador, que incluiu o Rubio Ñu, do Paraguai, em 2022, voltou à função de auxiliar com Renato Gaúcho.

Trabalhou no Grêmio, acompanhou Renato no Fluminense em 2025 e esteve com ele no Vasco em 2026.
Neste ano, chegou inclusive a comandar o Vasco em jogos da Sul-Americana, entre eles a vitória por 2 a 1 sobre o Audax Italiano, no Chile.
Marcelo Salles, auxiliar de Renato Gaúcho, comandou o Vasco contra o Audax Italiano
Raul Bravo/AFP
A desconfiança provocada pelo anúncio, portanto, não decorre simplesmente da idade dos profissionais ou apaga trabalhos importantes realizados no passado.
Ela nasce principalmente do contraste entre a dimensão atual do Botafogo e a trajetória recente de duas das três escolhas.
Bonamigo chega depois de mais de quatro anos sem exercer função em um clube e de quase duas décadas sem comandar uma equipe na Série A do Brasileiro.
Ronaldo estava até poucas semanas atrás no circuito da Copa Rio, depois de passar por uma campanha em que o Araruama chegou à sexta rodada como vice-lanterna da Série A2.
Fera apresenta um cenário diferente, com passagem praticamente contínua por equipes da elite nos últimos anos.
Há ainda um componente estrutural.
O Botafogo não anunciou os três apenas para atravessar os próximos dias até a contratação de um treinador.
Na comunicação oficial, Bonamigo aparece como coordenador técnico, Fera como auxiliar técnico permanente e Ronaldo como responsável pela preparação física da nova configuração fixa do clube.
Isso significa que o próximo treinador poderá chegar a uma estrutura que já terá peças definidas antes de sua contratação.
O tamanho da autonomia desse futuro comandante, a possibilidade de levar sua própria comissão e a divisão de responsabilidades com Bonamigo serão sinais importantes para entender o modelo escolhido.