A grande maioria da população brasileira está demonstrando altos níveis de preocupação com a segurança de crianças e adolescentes tanto no ambiente digital quanto nas escolas. Segundo dados do relatório “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes no Brasil”, elaborado pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) em parceria com a Quaest, 89% dos brasileiros consideram o público infantojuvenil muito vulnerável a crimes e violências na internet, e 33% conhecem alguma criança ou adolescente que já sofreu bullying ou constrangimento social no ambiente digital.
Os dados foram apresentados nesta quarta-feira no 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância, organizado pelo Infinis em São Paulo. Ao observar as diferentes regiões do país, a pesquisa identifica patamares próximos de preocupação, o que sinaliza que a sociedade brasileira hoje vê a vulnerabilidade de crianças e adolescentes na internet como um problema nacional. De acordo com os dados, 93% se mostram preocupados com o tema no Centro-Oeste e 92% no Sudeste, seguidos por 88% no Nordeste, 86% no Sul e 82% no Norte.
“Chama a atenção o alto nível de preocupação da população. É um debate contemporâneo que inclusive já provocou regulamentação, o ECA Digital, mas ainda há muito a fazer”, afirma ao Valor Márcia Kalvon, diretora-executiva do Infinis. Ela destaca que, embora o levantamento seja uma pesquisa de percepção, os dados apontam que a opinião dos entrevistados está bem amparada na realidade, com um terço conhecendo casos concretos em que o público infantojuvenil sofreu algum tipo de ataque em ambientes digitais.
A pesquisa identificou que um em cada três brasileiros (33%) afirma conhecer alguma criança ou adolescente que já foi humilhado, xingado ou sofreu bullying ou constrangimento social na internet. Entre as regiões do país, o percentual é de 38% no Sudeste, 34% no Centro-Oeste, 32% no Nordeste, 31% no Norte e 23% no Sul.
O relatório também aponta que 25% dos entrevistados conhecem alguma criança ou adolescente que recebeu mensagens de conteúdo sexual e 20% conhecem alguém que recebeu convites para encontros presenciais com estranhos. Além disso, 18% relatam casos de divulgação de informações pessoais com objetivo de intimidação ou perseguição e 10% conhecem crianças ou adolescentes que tiveram imagens falsas e constrangedoras criadas por inteligência artificial.
Diante do cenário, 96% dos entrevistados mostram consenso sobre a necessidade de que pais ou responsáveis supervisionem o conteúdo acessado por crianças e adolescentes na internet. No entanto, o levantamento sugere que esse acompanhamento tende a ir se reduzindo a medida que a idade dos jovens avança. Entre crianças de 0 a 5 anos que acessam a internet, 94% têm o uso acompanhado, enquanto o percentual cai para 68% entre adolescentes de 15 a 17 anos.
Quando questionados sobre medidas de proteção, 56% dos brasileiros defendem o bloqueio de conteúdos perigosos nas redes sociais para crianças de até 11 anos. Outros 49% consideram que os responsáveis devem observar tudo o que elas fazem, inclusive contas e conversas, e 46% defendem limitar o tempo de uso de redes sociais.
Para adolescentes de 12 a 17 anos, o bloqueio de conteúdos perigosos continua sendo a medida mais citada (49%), enquanto orientação para o uso seguro, monitoramento de contas e limite do tempo de utilização são mencionados por 44%.
Em relação ao ambiente escolar, 73% dos entrevistados consideram as escolas pouco ou nada seguras para crianças e adolescentes. Entre os que demonstram essa preocupação, sete em cada dez apontam a violência entre os próprios alunos como motivo principal.
“A pesquisa traz à luz a grande preocupação que os brasileiros têm em relação ao uso da internet por crianças e adolescentes, e aponta quais caminhos a população acredita que podem reduzir a vulnerabilidade dos jovens, como bloqueio de conteúdos perigosos e maior orientação para o uso seguro", declara Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest em nota divulgada junto ao relatório.
Para Márcia Kalvon, do Infinis, os dados revelam que é preciso fortalecer os esforços tanto na responsabilização das plataformas digitais em relação ao conteúdo exposto ao público infantojuvenil quanto em relação à formulação de políticas públicas em todas as esferas de governo. “A questão da violência contra crianças e adolescentes é um problema de saúde pública, mas a articulação não depende só de um setor. Precisa ser intersetorial. E não é dessa forma que governos pensam. Eles costumam pensar de forma muito setorial”, diz.
Os dados da pesquisa foram coletados entre 29 de maio e 7 de junho de 2026. Foram entrevistados pessoalmente 2.202 brasileiros com 18 anos ou mais em 128 municípios brasileiros. A margem de erro estimada é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
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