Quase 70 mil latinos já solicitaram visto para viver no Rio, diz pesquisa
No calçadão que liga Leme e Copacabana, o sorriso da adolescente Salma Isabel Herrera, de 14 anos, chamava atenção à distância, assim como a bandeira tremulante da Colômbia, às vésperas do show da Shakira. Ela acompanhava a mãe, Patrícia Herrera, de 45 anos, durante as vendas de arepas e mais quitutes colombianos em meio ao vaivém da orla.
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A falante jovem deixa transparecer a alegria: agora vive num lugar mais fresco do que sua terra natal, a caribenha Cartagena das Índias, já está matriculada num curso de português para, no ano que vem, tentar vaga num colégio da cidade, e a mãe tem mais autonomia do que quando cozinhava em restaurantes no país vizinho. Ela e a família vieram para o Rio há um mês e querem morar aqui para sempre.
— Meu irmão mora aqui há seis anos. E agora viemos nós. Ele, com a namorada e nós duas, numa casa de um quarto no Tabajaras. Viemos pelas oportunidades e pela paisagem — diz a adolescente, com eloquência de adulta.
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Cetralidade simbólica
Segundo um levantamento feito pelo GLOBO junto ao Banco Interativo do Observatório das Migrações, da Unicamp, que se baseia em dados da Polícia Federal, oficialmente quase 70 mil latino-americanos solicitaram visto de residência para trabalhar no Estado do Rio em 25 anos (de 2000 a 2025). A maioria é de argentinos, 22.131; seguidos por colombianos (10.468) e venezuelanos (8.198).
— Os registros oficiais mostram apenas a parte visível do fenômeno migratório. A presença latino-americana no estado tende a ser maior do que os números formais indicam. Eles registram quem chegou ao sistema, não necessariamente todos que já chegaram ao território — explica Vitor de Pieri, professor do Departamento de Geografia Humana da Uerj.
As possibilidades de entrada no país sem passar pelo controle migratório também são consideradas, além de ondas de êxodo como as de venezuelanos e argentinos.
Salma e a mãe, Patricia Herrera, chegaram ao Rio há um mês
Domingos Peixoto
— Na prática, existe um fenômeno conhecido como sub-registro, que envolve migrantes em processo de regularização, pessoas com permanência temporária, trabalhadores inseridos na informalidade e indivíduos que, por diferentes razões, ainda não acessaram os mecanismos institucionais de documentação — frisa o pesquisador.
O Rio ocupa uma posição particular dentro da dinâmica migratória brasileira, principalmente pela centralidade econômica, simbólica e urbana. Por isso, atrai muitos imigrantes em busca de oportunidade. É o caso da peruana Ruth Anani, de 28 anos, que chegou à cidade aos 17 anos, sozinha, depois de deixar para trás a vida numa comunidade rural de seu país. No Rio, trabalha como ambulante perto do Largo da Carioca, no Centro, e tem uma rede de amizade composta por amigas argentinas, chilenas e brasileiras.
— Saímos pela Lapa, pelo Centro — diz ela, que quer curtir o show de Shakira e planeja voltar de vez para o Peru em sete meses.
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Ao lado de sua banca, que vende camisas do Brasil, bonés e chapéus, fica a da equatoriana Miriam Patricia, de 26 anos, grávida de seis meses. Ela se estrutura cada vez mais para seguir sua vida no Rio com o marido: cursa o técnico em Enfermagem e vai aos cultos da igreja evangélica Divino Mestre da Galileia, também no Centro, frequentada apenas por equatorianos.
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