O sonho era sobrevoar de balão as paisagens da Capadócia, na Turquia, para comemorar os 60 anos. Mas o mau tempo impediu o passeio, e a viagem precisava continuar.
O dono do hostel conseguiu alterar a reserva da hospedagem seguinte e encontrar uma nova data para o voo. Dias depois, a pedagoga Marcia Reis estava nas alturas, emocionada.
— Eu chorava de felicidade. Foi indescritível.
A aventura teria sido impensável alguns anos antes. Marcia passou boa parte da vida seguindo uma rotina rigorosamente planejada.
Criou duas filhas, construiu uma carreira e cuidou da família. Quando elas saíram de casa, encerrou a vida profissional, e a igreja que frequentava fechou.
Sem essas referências, ficou perdida. — Eu sabia cuidar dos outros, mas nunca tinha parado para pensar no que gostava, no que queria fazer.
Decidiu viajar sozinha. Aos poucos, a mulher metódica trocou os roteiros detalhados por viagens com passagem de ida e apenas algumas noites de hospedagem reservadas.
O restante passou a ser decidido pelo caminho. — Às vezes, a gente se programa tanto que acaba perdendo lugares e pessoas que deixam a viagem muito mais especial.
Abrir espaço para o inesperado pode trazer benefícios emocionais. Embora os hábitos ajudem a organizar o cotidiano, uma rotina excessivamente controlada pode dificultar a adaptação, limitar as descobertas e impedir que novos caminhos sejam explorados.
Segundo a psicóloga Arlete Portella Fontes, doutora pela Unicamp, ter horários e compromissos definidos oferece segurança e ajuda a reservar espaço para o descanso. O problema surge quando a organização passa a restringir as escolhas.
— Uma rotina excessivamente rígida pode trazer prejuízos emocionais e dificuldades para se abrir para mudanças. Lidar com o inesperado
A disposição para sair do habitual está relacionada a uma habilidade importante para o bem-estar: saber lidar com situações que escapam ao nosso controle. — Ser flexível exige uma capacidade emocional de permanecer calmo diante do inesperado.
Também está associado à autoconfiança e à percepção de que somos capazes de mudar uma resposta quando a situação exige — explica Arlete. Essa disposição ganha importância com o passar dos anos.
O envelhecimento traz transformações na saúde e nas relações sociais. Saber ajustar expectativas e descobrir novas fontes de satisfação ajuda a lidar com essas mudanças.
A especialista explica que a flexibilidade integra os recursos psicológicos associados à resiliência, ao lado da regulação das emoções e do enfrentamento do estresse. Embora algumas pessoas tenham mais facilidade para lidar com imprevistos, essa disposição também pode ser desenvolvida.
Não se trata de uma característica imutável, mas de uma habilidade que pode ser exercitada ao longo da vida. Sempre é tempo
Para Marcia, uma das maiores descobertas proporcionadas pelas viagens foi perceber que não precisava continuar sendo a mulher que todos conheciam. Acostumada a ouvir que era controladora, encontrou liberdade para agir de outra maneira.
Hoje, dança na rua quando sente vontade, dá gargalhadas e se diverte em qualquer lugar. — Descobri que posso ser quem eu quiser.
Não fico mais preocupada com o que as pessoas estão pensando. Arlete observa que a personalidade apresenta características relativamente estáveis, mas isso não impede mudanças de comportamento.
A vivência acumulada pode favorecer uma maior tolerância ao que não podemos controlar. Para cultivar a espontaneidade, a psicóloga recomenda ampliar o contato com diferentes pontos de vista, exercitar a curiosidade e, principalmente, abandonar a necessidade de ter tudo sob controle.
— Ser espontâneo significa abrir-se para um novo modo de pensar, sentir ou agir. E ninguém precisa comprar uma passagem de avião para experimentar essa sensação.
Voltar a estudar, aprender a cantar ou começar um curso de culinária também pode representar uma oportunidade de fazer algo diferente. Aos 63 anos, Marcia já não precisa saber o que acontecerá na manhã seguinte para se sentir segura.
Aprendeu a gostar das possibilidades que surgem quando os planos mudam. E adotou um lema para a vida:
— Está com medo? Vai com medo mesmo. Mas vai.
Uma rotina excessivamente rígida pode trazer prejuízos emocionais e dificuldades para se abrir para mudanças Exercite sua flexibilidade
Pequenas mudanças de comportamento podem ajudar a desenvolver a capacidade de lidar com imprevistos e experimentar novas possibilidades. Experimente algo diferente: comece uma atividade nova, aprenda uma habilidade ou visite um lugar desconhecido.
Conheça outros pontos de vista: converse com pessoas que pensam de maneira diferente e esteja aberto a novas ideias. Pratique a curiosidade: permita-se fazer perguntas, explorar assuntos desconhecidos e descobrir novos interesses.
Revise suas expectativas: nem tudo acontece como planejado. Aprenda a ajustar os planos sem encarar as mudanças como fracassos.
Solte o controle aos poucos: deixe espaço para decisões espontâneas no cotidiano, sem precisar antecipar cada detalhe.
O Globo