Quando Paris virou isca: conheça a cidade falsa criada para enganar bombardeios alemães na Primeira Guerra

 

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Paris aprendeu cedo, e da pior forma, que a guerra moderna também vinha do céu. Quando os primeiros ruídos metálicos cortaram o ar da capital francesa, em agosto de 1914, ainda não se falava em radar, sirenes ou defesa antiaérea sofisticada. Falava-se em medo. E, mais tarde, em ilusão — no sentido mais literal da palavra.

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Desde o início da Primeira Guerra Mundial, a cidade foi alvo de bombardeios alemães, primeiro esporádicos, depois cada vez mais letais. Em 29 de janeiro de 1916, dois zepelins lançaram bombas sob um céu de inverno, matando 24 civis e ferindo outros 30. O ataque aprofundou o trauma coletivo iniciado meses antes, quando aeronaves — até então usadas apenas para reconhecimento — passaram a ser armas de destruição. A ameaça aérea expunha sobretudo mulheres e crianças, longe de qualquer frente de batalha.

O luto tomou as ruas dias depois. Em 7 de fevereiro, milhares de parisienses acompanharam um funeral solene até a igreja de Notre-Dame de la Croix, no leste da cidade. Ao presidir a cerimônia, o cardeal Léon-Adolphe Amette afirmou que as vítimas haviam tombado “não em um campo de batalha”, mas sob a barbárie da guerra moderna, em referência aos ataques alemães.

Uma capital feita de luz e papelão

Os bombardeios não cessaram. Em 1917, enquanto Londres se tornava o principal alvo do novo bombardeiro pesado alemão Gotha G.IV, os franceses passaram a esperar que Paris voltasse à mira. Foi então que o Ministério da Guerra apostou numa estratégia incomum: construir uma Paris falsa para ser bombardeada no lugar da verdadeira.

A lógica era simples e arriscada. Sem instrumentos de navegação avançados, os pilotos alemães se guiavam por referências visuais, como o curso do rio Sena, ferrovias e zonas industriais. A solução foi criar réplicas dessas paisagens fora da cidade, capazes de enganar observadores aéreos durante ataques noturnos.

O plano permaneceu secreto até 1920, quando a imprensa britânica revelou os detalhes. Segundo o jornal The Globe, a França chegou a erguer uma “capital inteira” fictícia, com ruas, casas, fábricas, trilhos e estações de trem. A reportagem fotográfica do The Illustrated London News, publicada em novembro daquele ano, mostrou mapas e imagens da operação, descrita como “uma Paris falsa fora de Paris”.

A concepção ficou a cargo do engenheiro elétrico italiano Fernand Jacopozzi, conhecido na época como o “mágico da luz”. Contratado pela Défense Contre Avions (DCA) no fim de 1917, com aval do então primeiro-ministro Georges Clémenceau, Jacopozzi aplicou sua experiência em iluminação monumental para criar cenários verossímeis vistos do céu, sem exageros que levantassem suspeitas.

Três zonas de isca foram planejadas. A principal ficava em Maisons-Laffitte, aproveitando uma curva do Sena semelhante à que corta o centro de Paris. Outras duas imitariam áreas industriais e ferroviárias: Vaires-sur-Marne, a leste, e Villepinte, ao nordeste, como réplica de Saint-Denis. Em Villepinte, Jacopozzi chegou a construir uma falsa Gare de l’Est, com vagões de madeira e faixas de luz simulando trens em movimento. Fábricas de papelão, tetos de lona e jogos de lâmpadas reproduziam incêndios e colunas de fumaça industriais.

Apesar da sofisticação, o projeto nunca entrou em operação. As obras começaram apenas em 1918 e uma das três zonas foi parcialmente concluída. Em setembro daquele ano, um bombardeiro alemão ainda atingiu Paris real, matando seis pessoas. Dois meses depois, com o armistício de novembro de 1918, a guerra terminou, e a cidade falsa foi desmontada sem jamais ter sido testada em combate.

Ainda assim, o governo francês considerou a iniciativa uma defesa relevante contra futuras ameaças, segundo registros do The Globe. O autor da façanha permaneceu anônimo por algum tempo, embora Jacopozzi tenha sido condecorado com a Legião de Honra. Nos anos seguintes, tornou-se uma figura central na transformação visual de Paris, iluminando a Torre Eiffel, a Praça da Concórdia e o Arco do Triunfo, além do célebre painel luminoso da Citroën exibido na torre.

Após sua morte, em 1932, os obituários celebraram o artista da luz, mas silenciaram sobre sua contribuição ultrassecreta à defesa francesa. A Paris falsa, feita de madeira, lona e lâmpadas, acabou esquecida — um lembrete de que, na guerra, até a salvação pode depender de uma boa encenação.