Durante muito tempo, a ideia de sucesso esteve ligada a conquistas bastante concretas: uma casa, um carro, um bom cargo e uma rotina profissional estável. Entre jovens que trabalham com tecnologia e negócios digitais, porém, outras prioridades começam a ganhar espaço.
Poder escolher onde viver, viajar sem interromper a carreira e ter mais controle sobre o próprio tempo passaram a fazer parte da percepção de qualidade de vida. Uma rotina de trabalho intensa pode afetar a saúde? Veja os sinais de que é hora de desacelerar
Saúde mental dos homens: por que tantos só procuram ajuda quando chegam ao limite? Essa mudança também aparece nas redes sociais.
Celebridades, influenciadores e empreendedores compartilham uma rotina em que aeroportos, hotéis e diferentes cidades substituem o escritório tradicional. O computador acompanha os deslocamentos e o trabalho deixa de depender necessariamente de um único lugar.
Na prática, porém, existe uma diferença entre viajar durante as férias e fazer dos deslocamentos parte da rotina profissional. Fusos horários, reuniões, conexão, organização financeira e a dificuldade de separar expediente e lazer entram na conta.
O empresário e estrategista digital Pedro Silvestrini, de 24 anos, vive essa experiência. Ele já visitou 24 países e passou aproximadamente um ano fora do Brasil enquanto administrava seus negócios à distância.
Sua atuação inclui infoprodutos e aplicativos com milhões de downloads. Segundo ele, essas atividades já somaram R$ 14 milhões em faturamento acumulado.
"Durante muito tempo, também associei sucesso ao que conseguia comprar. Com o tempo, percebi que poder escolher onde estar, ter mais liberdade sobre meu tempo e continuar trabalhando de qualquer lugar passou a ter um valor muito maior para mim", diz.
Dos primeiros trabalhos à liberdade geográfica Antes de conhecer diferentes países e construir negócios digitais, Pedro teve uma relação com o trabalho bastante diferente daquela que mantém hoje.
Aos 13 anos, morava próximo a um cemitério e aproveitava o movimento do Dia de Finados para conseguir dinheiro lavando túmulos e cuidando de carros. "Comecei a trabalhar muito cedo.
Aos 13 anos, morava perto de um cemitério e, no Dia de Finados, lavava túmulos por R$ 5 e cuidava dos carros das pessoas. Naquela época, minha preocupação era conseguir meu próprio dinheiro.
Eu não imaginava que, anos depois, estaria construindo minha carreira enquanto passava por diferentes países. Acho que essa experiência me ensinou muito sobre o valor do esforço e, principalmente, sobre a liberdade que eu gostaria de conquistar no futuro", relembra.
A experiência profissional também passou por grandes empresas de tecnologia e comércio eletrônico. Pedro conta que se tornou o líder mais jovem da Amazon, na área de treinamento, onde coordenava uma equipe de 21 pessoas e participou de iniciativas de capacitação que alcançaram aproximadamente 5 mil novos funcionários.
Posteriormente, recebeu uma proposta profissional do Mercado Livre, onde passou a liderar uma equipe de 17 pessoas. Em julho de 2022, decidiu pedir demissão para se dedicar aos próprios negócios.
"Eu tive experiências muito importantes na Amazon e no Mercado Livre. Na Amazon, liderei uma equipe de 21 pessoas na área de treinamento, em um trabalho que alcançou cerca de 5 mil novos funcionários.
Depois, recebi uma proposta para trabalhar no Mercado Livre, onde passei a liderar 17 pessoas. Aprendi muito nessas duas empresas, mas chegou um momento em que percebi que queria construir algo próprio.
Em julho de 2022, pedi demissão e decidi seguir esse caminho", afirma. A decisão representou uma mudança na maneira como enxergava o futuro profissional.
Em vez de seguir uma carreira corporativa, passou a desenvolver projetos digitais que poderiam funcionar sem depender de sua presença física em um escritório. Com o tempo, os negócios envolvendo aplicativos e infoprodutos alcançaram, segundo Pedro, R$ 14 milhões em faturamento acumulado.
Alguns aplicativos também chegaram à marca de milhões de downloads. "Construir negócios que chegaram a R$ 14 milhões em faturamento e trabalhar com aplicativos que alcançaram milhões de downloads são conquistas importantes para mim.
Mas, hoje, valorizo principalmente ter criado uma estrutura que me permite trabalhar de diferentes lugares. O resultado financeiro continua sendo importante, mas poder transformar isso em mais autonomia e liberdade também faz parte do que considero uma conquista", explica.
Antes de adotar uma rotina mais flexível, Pedro também viveu uma fase em que bens materiais representavam conquistas. Chegou a comprar uma Range Rover Evoque e morar em um apartamento de padrão mais elevado em Balneário Camboriú.
Depois de enfrentar dificuldades em uma operação, reorganizou os negócios e passou a buscar modelos que não dependessem de uma estrutura presencial. "Não acho que seja sobre deixar de valorizar as coisas materiais.
Elas continuam tendo importância, mas hoje penso muito no que essas conquistas me permitem fazer. Quando algo me dá autonomia, tempo e a possibilidade de conhecer outros lugares, isso passa a ter um significado diferente para mim", comenta.
A experiência acompanha uma transformação mais ampla na maneira como parte dos jovens enxerga estabilidade. Para gerações anteriores, construir uma carreira significava, muitas vezes, permanecer durante anos na mesma empresa e estabelecer raízes em uma cidade.
Para quem pode trabalhar remotamente, porém, estabilidade também pode estar relacionada à possibilidade de organizar a própria rotina. Trabalhar de qualquer lugar tem um preço
A imagem de um computador diante do mar pode transmitir a sensação de uma vida sem horários. A realidade é menos simples.
Durante viagens internacionais, Pedro continuou participando de reuniões, acompanhando projetos e tomando decisões relacionadas aos negócios, mesmo com milhares de quilômetros entre ele e a equipe. A atuação no mercado de aplicativos também faz parte dessa dinâmica.
Embora alguns dos projetos com os quais trabalha tenham alcançado milhões de downloads, o alcance digital não elimina as responsabilidades de gestão. Acompanhamento de resultados, decisões estratégicas e organização das operações continuam fazendo parte do cotidiano, independentemente do país em que esteja.
"Existe uma diferença grande entre viajar e estar de férias. Hoje, estou à frente de negócios com aplicativos que alcançaram milhões de downloads, então preciso acompanhar tudo mesmo quando estou em outro país.
As responsabilidades continuam existindo, esteja eu em uma praia, em um hotel ou em uma cidade que sempre quis conhecer. Em alguns momentos, precisei fazer reuniões de madrugada por causa do fuso.
A liberdade existe, mas vem acompanhada de responsabilidade", conta. A rotina também exige uma estrutura mínima.
Moradia, internet, deslocamento, documentação e organização financeira fazem parte da experiência. Quanto maior a mobilidade, maior a necessidade de planejamento.
Há ainda o desafio de aproveitar o lugar onde se está. Uma nova cidade pode ser apenas o cenário entre uma reunião e outra quando o trabalho ocupa boa parte do dia.
"Também aprendi que não adianta estar em um lugar incrível se você passa o dia inteiro trabalhando e não consegue aproveitar. Hoje, tento organizar minha rotina para ter tempo de conhecer o lugar, descansar e viver a experiência.
Sem esse equilíbrio, no fim, você só troca o cenário do escritório", avalia Pedro. A contradição ajuda a explicar por que o nomadismo digital não significa necessariamente uma vida sem rotina.
A flexibilidade amplia possibilidades, mas exige organização para que o trabalho não ocupe todos os espaços. Uma nova relação com o sucesso
A discussão também passa pelo consumo. Se antes determinados bens funcionavam como símbolos de ascensão, hoje parte desse público demonstra interesse por experiências, tempo livre e autonomia.
Isso não significa que carros, imóveis ou estabilidade financeira tenham perdido valor. A mudança está na possibilidade de combinar conquistas materiais com outras formas de realização.
Para alguns, sucesso continua relacionado a uma casa confortável, patrimônio e uma carreira previsível. Para outros, pode incluir a possibilidade de passar alguns meses em outro país sem interromper a atividade profissional.
O trabalho remoto tornou essa escolha mais visível, embora ela ainda esteja restrita a determinadas áreas. Não se trata de uma substituição do modelo tradicional, mas de uma alternativa que passou a fazer parte do imaginário de uma geração.
"Hoje, penso muito em liberdade de escolha. Não quero que o trabalho determine onde preciso estar o tempo inteiro.
Poder decidir onde vou passar os próximos meses, continuar cuidando dos meus negócios e, ao mesmo tempo, construir uma rotina que faça sentido para mim é algo que valorizo muito", conclui. Pedro Silvestrini fala sobre trabalho remoto, liberdade geográfica e a nova relação com a ideia de sucesso
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O Globo