Quando o risco pode ser bom

 

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Ninguém gosta da ideia de expor os filhos ao risco de se machucarem. É claro. Mas essa palavra pode ser vista de diversas maneiras, e há grandes diferenças entre elas.

Para alguns pais, os filhos são como a chama de uma vela. Qualquer brisa, qualquer sopro podem apagá-la. Por isso oferecem proteção permanente, como uma cúpula de vidro que bloqueia o vento. Mas se essa cúpula fechar completamente, vai eliminar o oxigênio e apagar o fogo. Sufocar, literalmente.

Prefiro ver as crianças como outro tipo de chama - a de uma fogueira. Para elas, o vento alimenta e fortalece o fogo. Riscos leves, ou sua sensação – sem implicar em real perigo – são muito importantes para crianças e adultos. Se não fosse assim, não haveria esportes, parques de diversão e outras formas comuns de entretenimento, prazer e emoções intensas. A sensação do risco é o que define a aventura.

Imagine uma criança num parque natural. Será que eu posso rolar esse barranco sem me machucar? Será que se eu andar me equilibrando no tronco eu posso cair? Ou na escola: Será que se eu levantar a mão e responder a pergunta do professor vou ser ridicularizada? Será que se eu insistir para bater o pênalti e perder eu vou ser odiado pelos amigos? Quantas oportunidades ela perde ao não enfrentar os riscos que elas envolvem?

Além disso, se seu filho ralou o joelho, vai viver uma experiência incrível: entender que o corpo dói, que a vida dói, mas que a dor passa. Entender que é preciso limpar e passar um remedinho que arde um pouco. No dia seguinte não dói mais, três dias depois tem uma casquinha, cinco dias depois a pele está nova de novo. Veja o quanto ele aprendeu sobre biologia, regeneração, auto cura, confiança na saúde e no seu corpo. É maravilhoso.

Bons riscos são aqueles em que a criança pode se engajar com os desafios, a incerteza, as infinitas possibilidades. A vida é cheia de mistérios, aventura e desafios, sensações que lhe dão sabor e sentido. Se protegemos demais as crianças, estamos privando-as dos aprendizados fundamentais que as levam a se proteger e se cuidar mais tarde. Ao contrário, se recuamos um pouco, ela vai construindo um repertório de avaliação de riscos, e isso a permitirá se aventurar melhor no futuro. E tomar atitudes essenciais: questionar uma ordem, sair da "boiada", se aproximar de alguém que lhe atrai, tentar um novo emprego, empreender. Se eu vivi uma infância muito protegida, sem sequer subir numa árvore, como posso me arriscar diante desafios tão complexos? Vai faltar preparação, coragem, experiência. Crianças precisam de pequenas doses de estresse e perigo para desenvolver resiliência.

Desde os anos 80 e 90, famílias tornaram-se mais e mais obcecadas com a segurança física. O resultado foi a extinção gradual do brincar livre e não supervisionado, e a segurança excessiva – por exemplo, nos parquinhos, reformados para serem "macios" e totalmente seguros. Aos poucos, crianças foram sendo confinadas em casa e nas escolas (há algumas que proíbem correr no recreio!), e em seguida, aprisionadas em seus celulares. E isso sim, configura o maior risco para todas as infâncias hoje em dia.

Segundo Jonathan Haidt, na medida em que as fraturas de braço em meninos foram diminuindo, os índices de depressão, ansiedade e automutilação dispararam. E aqui entre nós, 2 semanas com um gesso é bem melhor que anos tomando antidepressivos.

"Não prepare a estrada para mim, me prepare para a estrada". Crianças precisam ir aos parques naturais, onde há mais bons riscos. Fazer uma trilha, um esporte mais duro, pegar um ônibus sozinhos – na idade certa, claro. São gestos que fortalecem e fazem crescer. Hoje em dia, é na vida digital que os perigos são muito maiores, e é ali que eles estão mais desprotegidos. Precisamos inverter essa equação.