Quando o passado vira prisão: o desafio de mudar e seguir em frente
Sabe quando o passado bate à porta como quem nunca foi embora? Ele não toca a campainha. Entra, senta no sofá, cruza as pernas e começa a explicar por que tudo é do jeito que é. E, pior: muitas vezes a gente deixa. Serve um café, escuta e concorda. Como se aquela narrativa fosse a única possível.
Tenho ouvido muita gente dizer a mesma coisa: “Só cheguei até aqui porque fiz isso e aquilo”. Como se o caminho percorrido fosse um contrato vitalício com o presente. Como se questionar ou modificar o método fosse desrespeitar a própria história. Como se mudar fosse negar tudo o que já foi vivido.
Até quando vamos deixar que situações dolorosas do passado travem o nosso presente? É uma pergunta simples, quase direta. Daquelas que parecem tiradas de um oráculo contemporâneo. E talvez incomode justamente por isso. Obriga a gente a encarar algo que, muitas vezes, prefere chamar de maturidade, quando, na real, é só exaustão emocional e medo do desconhecido.
Gastamos uma energia enorme revisitando cenários imaginários. E se tivesse sido diferente? E se eu tivesse escolhido outro caminho? A verdade é que não existe como mudar o que foi feito para que estivéssemos aqui agora. E tudo bem. O passado cumpriu o papel dele. O problema começa quando a gente tenta viver o presente como se ainda estivesse se defendendo do que já passou.
Existe uma armadilha silenciosa nisso tudo: projetar o passado sobre o presente como se fosse garantia de futuro.
Mas na verdade, algo deu certo. Trouxe resultados. Sobrevivência. Reconhecimento. E, sem perceber, a fórmula vira identidade. O jeito vira destino. Entramos em piloto automático achando que estamos sendo coerentes, quando talvez só estejamos sendo previsíveis.
Outro dia, ouvi uma reflexão sobre cores, fenômenos cromáticos e ópticos que virou metáfora de vida. Quando você fixa o olhar por muito tempo numa cor intensa e depois desloca o olhar para outro ponto, o olho projeta aquela mesma cor no novo espaço, mesmo que ela não esteja lá. É previsível, o olhar aprende a repetir.
Talvez seja isso que aconteça quando não mudamos a forma de olharmos a própria história. E seguimos presos a padrões que um dia fizeram sentido, mas que hoje já não cabem mais no contexto. Fazer diferente do que fizemos no passado não é apagá-lo. É ser grato sem ser refém. Isso é responsabilidade afetiva com a própria trajetória.
O ano que temos pela frente é uma folha a ser desenhada. Não porque nada tenha sido escrito antes, mas porque a caneta continua na nossa mão. Já não somos quem éramos.
O que nos trouxe até aqui nos honra. Mas o que pode nos levar ainda mais adiante é a coragem de mudar.
