Quando o olfato se torna prova: a odorologia no cerne da ciência forense

 

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Em janeiro de 2012, em Montceau-les-Mines (Saône-et-Loire), um homem encapuzado assaltou um banco logo após a abertura. Alguns meses depois, um segundo banco na mesma cidade foi atacado com um método semelhante.

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Os investigadores possuem vídeos de vigilância, mas as imagens estão muito desfocadas para identificar formalmente o suspeito. O ADN, geralmente crucial, não fornece resultados úteis. Resta um vestígio, mais sútil, quase invisível: o cheiro deixado no veículo de fuga. É este vestígio que os peritos forenses irão analisar utilizando uma das suas técnicas especializadas: a odorologia, uma disciplina ainda pouco conhecida do público em geral, na qual cães especialmente treinados comparam e identificam odores humanos. No julgamento, esta análise especializada leva à condenação do assaltante.

Cães com habilidades únicas

Quando falamos de cães policiais, a imagem que naturalmente nos vem à mente é a de unidades destacadas em campo, mobilizadas para a detecção de explosivos, narcóticos ou para a busca de pessoas desaparecidas. No entanto, paralelamente a essa realidade operacional, outra atividade, menos visível, acontece: a dos cães e seus condutores trabalhando na unidade de perícia forense.

Na França, existe uma instalação única chamada Plataforma Nacional de Odorologia, que abriga os únicos cães capazes de comparar um rastro de cheiro deixado em uma cena de crime com o odor corporal de um suspeito ou vítima. Essa especialidade canina, criada em 2000 (por Daniel Grignon, um adestrador de cães treinado na Hungria), tornou-se totalmente operacional em 2003.

Atualmente, o serviço de odorologia conta com quatro treinadores e sete cães (Pastores Belgas Malinois, Pastores Alemães e Springer Spaniels Ingleses) que, assim como os especialistas humanos do laboratório, não trabalham em campo, mas atuam exclusivamente no centro nacional de treinamento em Écully (perto de Lyon, Rhône), onde realizam comparações de odores. Outros dois cães estão em treinamento, que começa aos seis meses de idade e dura aproximadamente um ano.

Toda análise odorológica começa com uma fase de amostragem, que é crucial para o restante do procedimento. Realizadas exclusivamente por policiais autorizados (500 agentes de amostragem autorizados na polícia nacional até 2025), as amostras abrangem dois tipos complementares de odores.

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Por um lado, amostras de odor são coletadas no local do crime, em qualquer superfície que tenha entrado em contato com uma pessoa, seja um assento, um volante, uma maçaneta ou uma peça de roupa. Por outro lado, amostras de odor corporal são coletadas diretamente dos indivíduos envolvidos ou das vítimas: tecidos específicos são amassados ​​por alguns minutos para transferir as moléculas de odor características de sua assinatura química. Essas amostras são armazenadas em uma sala dedicada: a biblioteca de odores, onde, até o momento, estão armazenadas 9.600 peças de evidência.

Uma fila de reconhecimento

Após a coleta das amostras, inicia-se a fase de análise. Os vestígios de odor coletados na cena do crime são comparados ao odor corporal do suspeito ou da vítima durante um reconhecimento realizado por cães especialmente treinados.

O cheiro é apresentado primeiro ao cão, que o cheira e memoriza, e depois percorre uma linha composta por cinco frascos, cada um contendo um odor corporal diferente: apenas um corresponde ao odor do suspeito ou da vítima a ser identificada, os outros quatro servem como odores de comparação.

Se o cão reconhecer o cheiro, deita-se em frente ao frasco correspondente; se não reconhecer nenhum dos cheiros, volta para o dono. Todo o processo leva aproximadamente 0,6 segundos, o tempo que o cão leva para colocar o nariz no frasco, descobrir o cheiro que ele contém, analisá-lo e decidir se deve ou não parar.

A posição dos cinco frascos é então alterada aleatoriamente, e a tarefa é repetida uma segunda vez antes de uma terceira passagem ser feita sobre uma linha de controle que não contém o odor do suspeito ou da vítima. Assim que o primeiro cão terminar seu trabalho, o mesmo procedimento é realizado com pelo menos mais um cão.

A identificação é considerada estabelecida quando dois cães marcaram o mesmo rastro, cada um durante pelo menos duas passagens, e cada um deles também completou pelo menos uma linha vazia.

A ciência do odor humano: uma assinatura química individual

Cada ser humano possui um odor corporal único, composto por moléculas voláteis resultantes principalmente da decomposição bacteriana de secreções da pele, como suor e sebo. Esse odor não é uniforme; ele consiste em diversos elementos. Apenas o componente primário do odor humano permanece estável ao longo do tempo. É precisamente esse componente primário que os cães farejadores utilizam para identificar um indivíduo, pois ele não pode ser alterado por componentes variáveis, como perfumes.

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Constitui uma verdadeira assinatura química individual, comparável em princípio a uma impressão digital biológica. O cão continua sendo o único animal capaz de reconhecer esse componente invariável, essencial para a identificação. Seu sistema olfativo explica essa capacidade. Quando as moléculas de odor entram na cavidade nasal, elas se ligam a receptores no epitélio olfativo, desencadeando um impulso nervoso transmitido ao bulbo olfativo e, em seguida, ao cérebro, onde o odor é analisado e armazenado.

Odorologia, uma verdadeira ferramenta de investigação

A odorologia baseia-se num protocolo rigoroso concebido para garantir a fiabilidade científica e jurídica dos resultados obtidos. A sua utilização está sujeita a um quadro legal estrito e é reservada a infrações de determinada gravidade, que vão desde contravenções agravadas (roubo com violência, furto qualificado, rapto, etc.) a crimes graves.

Essa perícia, plenamente integrada às práticas da ciência forense, não determina por si só a culpa de um indivíduo, mas fornece um elemento objetivo essencial ao raciocínio judicial. Quando se estabelece uma ligação, confirma-se um fato específico: a presença de um indivíduo (autor ou vítima) na cena do crime ou o contato com objetos.

Essa técnica é frequentemente usada em conjunto com outros métodos de investigação, mas também pode se tornar crucial quando as imagens estão borradas, os depoimentos das testemunhas são pouco confiáveis ​​ou não há vestígios biológicos. Desde 2003, a plataforma nacional de odorologia processou 787 casos, resultando em 195 identificações. Os peritos foram chamados a depor 44 vezes perante tribunais de justiça, demonstrando o reconhecimento legal dessa disciplina.

Numa época em que os avanços tecnológicos desempenham um papel central na ciência forense, a odorologia nos lembra que o mundo vivo, por vezes, permanece insubstituível. Baseada num processo complexo e rigoroso, a comparação de odores não deixa nada ao acaso. Ela faz parte de um conjunto de provas, contribuindo para a descoberta da verdade.

Invisível, silenciosa, mas persistente, essa perícia serve como um lembrete de que o crime sempre deixa um rastro, ecoando o princípio formulado já em 1920 por Edmond Locard: "ninguém pode agir com a intensidade que a ação criminosa implica sem deixar múltiplos rastros de sua passagem."

*Estelle Davet é inspetora-Geral, Chefe do Serviço Nacional de Polícia Científica (SNPS), Centro Nacional de Pesquisa Policial

*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o original.