'Quando o incentivo é maximizar engajamento, o bem-estar das crianças corre o risco', diz ativista por regulação das redes sociais

 

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Uma das principais vozes que denunciam o impacto das redes sociais sobre jovens, a americana Kristin Bride transformou a dor pessoal em ativismo público. Personagem do documentário "Your attention please", que estreia nesta quinta-feira no festival South by Southwest (SXSW), no Texas, Kristin afirma que a morte de seu filho, Carlson Bridge, não pode ser dissociada de um modelo de negócios das plataformas digitais que prioriza engajamento e lucro acima da segurança de crianças e adolescentes. Carson se suicidou em 2020, durante a pandemia da Covid-19. Em seu celular, Kristin descobriu uma série de mensagens com agressões e ameaças enviadas anonimamente pela rede social Snapchat.

'Your attention please': Documentário alerta para o dano das redes sociais em crianças e adolescentes

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Desde então, ela se posiciona em favor da regulação das redes, participando de passeatas e audiências em Washington na tentativa de alterar a legislação. Em entrevista ao GLOBO, Kristin critica a influência das big techs no governo americano, defende maior responsabilização das empresas e alerta que novas tecnologias, como chatbots de IA, podem repetir a mesma lógica que, segundo ela, já colocou em risco a saúde mental de uma geração.

Em um depoimento no Senado em 2023, você disse que as mortes de seu filho e de outros jovens foram um 'resultado direto de produtos concebidos para fisgar e monetizar as crianças americanas'. Por quê?

Em termos simples, quando você não paga por um produto, o produto é você. O modelo de negócios das empresas de redes sociais é construído em torno de métricas de engajamento que priorizam crescimento e tempo de permanência, às vezes à custa da saúde mental e da segurança on-line das crianças. Quanto mais tempo crianças e adolescentes passam nessas plataformas, mais dados são capturados e mais lucro é gerado. Os chatbots de IA começam a seguir uma cartilha parecida, ao estimular apego e interação para coletar dados e treinar seus modelos. Quando o incentivo principal é maximizar engajamento, o bem-estar das crianças corre o risco de ficar em segundo plano.

Como a mudança de prioridades políticas em Washington afeta os esforços para avançar com legislação sobre responsabilização das plataformas?

Tem sido preocupante para muitos pais de vítimas ver a influência que as grandes empresas de tecnologia exercem em Washington. Ao mesmo tempo, nosso movimento continua crescendo. Essas empresas têm recursos e poder de lobby, mas as famílias têm algo muito forte: a experiência vivida. Os relatos sobre o impacto das redes sociais na vida dos filhos sensibilizam pessoas de diferentes campos políticos. Não se trata de uma questão partidária, mas de proteger crianças e adolescentes no ambiente on-line.

No Brasil, o STF alterou o Artigo 19 do Marco Civil da Internet, dispositivo que impedia a responsabilização das plataformas, semelhante ao americano Section 230. Na sua visão, os EUA estão atrás de outras democracias ao lidar com a regulação das redes?

Eu acredito que os Estados Unidos têm sido mais lentos do que algumas outras democracias para atualizar suas leis de modo a refletir as realidades digitais de hoje. Muitos pais de vítimas se sentem encorajados quando outros países dão passos concretos para responsabilizar as plataformas e tornar os produtos mais seguros para as crianças.

Trabalhamos durante anos para avançar com o Kids Online Safety Act (KOSA, um projeto de proteção on-line para jovens), que foi aprovado no Senado em julho de 2024 com amplo apoio bipartidário. Infelizmente, o projeto ainda não foi levado ao plenário da Câmara para votação. No entanto, na ausência do KOSA, um projeto para extinguir a Section 230 foi apresentado no Congresso, na tentativa de rever uma lei que há três décadas garante ampla proteção jurídica às plataformas.

Muitos pais de vítimas acreditam que, sem mecanismos mais fortes de responsabilização, as empresas não têm incentivo suficiente para enfrentar de maneira significativa os riscos que seus produtos podem representar para as crianças.

Na ausência de uma legislação federal abrangente para proteger nossas crianças no ambiente online, vimos muitos estados avançarem com suas próprias medidas de proteção contra os riscos das redes sociais e dos chatbots de IA. Os pais de vítimas seguem comprometidos com essa luta e com a defesa de reformas que coloquem em primeiro lugar a segurança e o bem-estar dos jovens.