Quando o cinema entrou em guerra: relembre discurso polêmico de Michael Moore em cerimônia do Oscar em 2003

 

Fonte:


Um dos momentos mais controversos da história do Oscar ocorreu durante a cerimônia de 2003, quando o documentarista Michael Moore usou seu discurso de agradecimento pelo prêmio de Melhor Documentário em Longa Metragem, conquistado com "Tiros em Columbine" (2002), para condenar a guerra do Iraque e atacar o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. A fala, que durou cerca de 30 segundos, provocou uma reação imediata e dividida da plateia, com vaias e aplausos ecoando no teatro em Los Angeles.

Wagner Moura: Depois da The New Yorker, The Hollywood Reporter também atesta que ator brasileiro deveria ganhar o Oscar

O que as estrelas de Hollywood vão comer e beber no Oscar? Festa de gala servirá 70 pratos; veja menu

Na noite de 23 de março de 2003, apenas quatro dias após o início da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, Moore subiu ao palco para receber a estatueta. Ao iniciar o discurso, explicou por que havia levado ao palco os demais indicados da categoria. “Eles estão aqui em solidariedade comigo porque gostamos de não ficção”, disse. “Nós gostamos de não ficção e vivemos em tempos fictícios. Vivemos numa época em que temos resultados eleitorais fictícios que elegem um presidente fictício.”

A partir desse momento começaram as vaias. Mesmo assim, o diretor prosseguiu: “Vivemos numa época em que temos um homem nos enviando para a guerra por razões fictícias, seja a ficção da fita adesiva ou a ficção dos alertas laranja. Somos contra esta guerra, Sr. Bush! Vergonha para você, Sr. Bush! Vergonha para você!”

Logo após a segunda menção de “vergonha”, a orquestra iniciou a música para encerrar o discurso, quase encobrindo sua frase final: “Sempre que você tem o Papa e as Dixie Chicks contra você, seu tempo acabou!”

Quem é 'O agente secreto' do filme de Kleber Mendonça Filho? Personalidades da cultura respondem

A cerimônia daquele ano ocorreu em um clima político tenso nos Estados Unidos. O país havia acabado de iniciar a guerra do Iraque e ainda vivia divisões profundas após a eleição presidencial contestada de 2000. Tradicionalmente, a Academia tenta evitar polêmicas em momentos de crise nacional — como ocorreu após o assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968, e após o atentado contra Ronald Reagan, em 1981. Em 2003, os organizadores optaram por manter a cerimônia, mas sem o tradicional tapete vermelho e com orientações para que apresentadores e o anfitrião Steve Martin seguissem rigidamente o roteiro.

Galerias Relacionadas

Mesmo assim, discursos políticos já tinham marcado a história da premiação. Em 1973, Marlon Brando recusou o Oscar por The Godfather e enviou a ativista Sacheen Littlefeather para denunciar o tratamento de povos indígenas em Hollywood. Em 1978, Vanessa Redgrave criticou a Liga Antidifamação Judaica em seu discurso, e em 1987 Oliver Stone falou contra a guerra ao receber o prêmio por Platoon.

Ainda assim, a fala de Moore ganhou destaque pelo momento em que ocorreu. O documentário vencedor havia se tornado o maior sucesso de bilheteria do gênero até então, arrecadando US$ 21,5 milhões. Apesar disso, o próprio diretor afirmou depois que não acreditava que venceria. “A última vez que um documentário que fez sucesso de bilheteria ganhou o Oscar foi Woodstock, em 1971. Eu simplesmente não achava que as chances estavam a nosso favor”, disse.

Onde será o Oscar em 2026? Saiba como ver a premiação, que tem o Brasil na disputa por troféus

Nos bastidores, Moore havia pedido aos demais indicados que subissem ao palco com ele caso fosse anunciado vencedor. Todos aceitaram. “Achei que seria algo bonito compartilhar o palco com eles”, afirmou o cineasta posteriormente.

A reação à fala foi imediata. Parte das vaias teria vindo da área técnica próxima ao palco. Ainda assim, muitos espectadores permaneceram em silêncio. O produtor da cerimônia, Gil Cates, decidiu encerrar o discurso antes do previsto. “Achei inadequado Michael Moore começar a chamar pessoas pelo nome”, disse depois.

No dia seguinte, grande parte da imprensa criticou o diretor por politizar a premiação. O crítico A.O. Scott, do The New York Times, escreveu que Moore conseguiu “fazer uma questão geopolítica complexa parecer algo totalmente sobre ele”. Já Kurt Loder, da MTV News, descreveu a fala como um “ataque sem sentido”.

Mais de duas décadas depois, o próprio Moore relembrou o episódio em seu site. Segundo ele, a confusão foi tamanha que seguranças precisaram retirá-lo do local após o discurso. “Dentro de 40 segundos um motim começou”, escreveu. “A banda recebeu ordem de me abafar. O microfone foi abaixado até o chão. As vaias eram ensurdecedoras.”

Para o diretor, o momento refletia o clima político da época, quando parecia impossível impedir a guerra. “Lembram como parecia impossível parar Bush em 23 de março de 2003? Tudo parecia sem esperança”, escreveu. “Mas acabamos mudando as coisas.”