Quando já se matavam cachorros

 

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Meu colega de ofício Eduardo Affonso, brilhante titular da coluna da página três nas edições de sábado, me manda zap dizendo ter compartilhado com os alunos de sua oficina de crônicas o texto que perpetrei aqui semana passada e que ele chama carinhosamente de “saudade das cigarras”.

“Eu não tenho nenhuma”, escreve Affonso. “Junto com as plantas carnívoras e as areias movediças, cigarras estavam na minha suprema trindade dos terrores infantis.”

Uma infância é feita do doce de muitas balas Toffee grudadas nos dentes e do primeiro dia da volta às aulas, quando o bullying ainda não existia e era permitido, gritando “selo!”, pisar o sapato novo do colega. Tem o amargo também. Eu sou de uma geração anterior à de Affonso e, sem cartar marra de medos, sem querer ostentar assombrações, havia mais terrores. Outro dia — e não sei com que consequências noturnas ao sono dos petizes — contei aos meus netos, tutores do elegante pinscher Zack, sobre a existência da carrocinha de cachorro. Era uma espécie de ICE dos caninos.

Um furgão da prefeitura percorria os bairros à procura de cães sem coleira ou desacompanhados, possíveis transmissores da raiva. Ao avistar um, saltava da carrocinha o “laçador” empunhando um cambão — a vara com uma argola de metal ou um laço na ponta. Dava-se, então, do meu decálogo de terrores, o mais supremo deles.

Sofri o temor do vento encanado, do óleo de fígado de bacalhau, do homem do saco, de ficar de castigo com a cara para a parede durante o recreio. Na Sexta-Feira Santa, as rádios só tocavam música religiosa, as crianças precisavam acompanhar o silêncio rigoroso do resto da família e todos os espelhos da casa eram cobertos por panos roxos — o que impediria a quem olhasse de “prender” a alma neles ou ver a imagem do diabo refletida sobre o próprio ombro. Tudo isso me aterrorizou muito — mas eis que se aproxima a carrocinha, e Tupiara, minha cadelinha de estimação, está solta na rua.

A propósito, o vencedor do primeiro Prêmio Esso de Fotojornalismo, de 1960, registrou exatamente esse drama: um laçador carregando um cachorro como troféu enquanto ao fundo um menino chora desesperado. Poderia ter sido eu.

Tupiara foi pega. O laçador, irredutível no cumprimento de sua odiosa missão, insensível ao meu desespero, informava apenas que ela seria levada ao depósito municipal, podendo ser retirada sob o pagamento de multa sanitária em 72 horas. Caso contrário — e isso ele não disse, por ser abominável demais até para um laçador —, o animal seria sacrificado, asfixiado a gás.

Eu me solidarizo com o terror de Eduardo Affonso pela areia movediça, pelas plantas carnívoras, e muitas vezes torci para Jim das Selvas se livrar delas num seriado da TV Rio — mas o que dizer do pavor real de ter vivido a infância em meio ao horror da carrocinha, da espinhela caída, do bate-bola, do Verdugo, da explosão do Paiol de Deodoro e dos mortos velados na mesa da sala?

Tupiara foi resgatada no dia seguinte, mas as marcas da cena persistem na memória. Nada se compara ao medo de que acontecesse com ela o que todo mundo dizia ser o destino dos animais vítimas do laçador. Foi no tempo em que a prefeitura pegava cachorro para virar sabão.