Qual é o risco real de uma guerra entre Rússia e Alemanha?

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Drone com explosivos encontrado no aeroporto de Leipzig foi plantado pela Rússia, segundo governo alemãoChristoph Hasselbach Os alertas sobre uma ameaça russa à Alemanha vêm se multiplicando. O presidente do Verfassungsschutz, o serviço de inteligência interna alemão, Sinan Selen, afirmou na segunda-feira (12/10), em Berlim, que ataques encobertos e ações de desestabilização promovidos pela Rússia contra a Alemanha e outros países europeus não representam "um fenômeno passageiro, mas um ataque híbrido planejado para o longo prazo".Segundo Selen, a ameaça representada pela Rússia não desaparecerá com o fim da guerra na Ucrânia. "Para a Rússia, está em jogo uma redefinição completa do mapa político da Europa e de seu próprio papel no continente e na política mundial", disse o presidente do Verfassungschutz. De acordo com ele, as ações agressivas de Moscou continuarão sendo vistas não apenas na Ucrânia, mas também nos países bálticos, na Polônia e, sobretudo, na Alemanha.Rússia continua concentrada na Ucrânia – por enquanto.O ministro do Interior, Alexander Dobrindt, resumiu a situação de outra forma. "Nosso país não está em guerra, mas somos alvo diariamente de uma guerra híbrida", declarou. Segundo ele, a Rússia não busca derrotar a Alemanha militarmente, "mas submetê-la política e socialmente".Especialistas em segurança, porém, não têm tanta certeza de que a Rússia esteja interessada apenas em influência política e social. Já no ano passado, o cientista político Carlo Masala afirmou, na televisão alemã, que "a Rússia está se preparando para uma grande guerra". E ele não se referia apenas a uma guerra cibernética. O general Carsten Breuer, comandante máximo da Bundeswehr, as forças armadas alemãs, concorda com a avaliação.Por enquanto, a Rússia segue fortemente envolvida na guerra na Ucrânia. Na avaliação do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, não existe atualmente uma ameaça militar imediata ao território da aliança. No entanto, segundo avaliações convergentes de especialistas militares, serviços de inteligência europeus e do Ministério da Defesa da Alemanha, Moscou terá até 2029 capacidade humana e material para travar uma guerra convencional contra a Otan. A indústria bélica russa opera em ritmo acelerado, e o Kremlin planeja ampliar seu contingente militar para 1,5 milhão de soldados.Para Stefan Meister, especialista em Europa Oriental da Sociedade Alemã de Política Externa, o objetivo de Moscou neste momento é outro. "Acredito que a Rússia não tem interesse atualmente em um confronto militar direto com a Otan. O que ela quer é testar a aliança e expor suas fragilidades", diz ele à DW.Confronto por acidente?Um exemplo disso foi a tentativa frustrada, em agosto, de atacar com um drone carregado de explosivos aeronaves de transporte ucranianas no aeroporto de Leipzig-Halle, no leste alemão. Grande parte da ajuda militar enviada à Ucrânia passa por esse terminal. Pouco depois, o governo da Alemanha declarou estar convencido de que a Rússia estava por trás da ação.Na época, o especialista em segurança Nico Lange afirmou à DW que o explosivo não foi detonado por sorte. "Sinceramente, foi puro acaso e não resultado das medidas de defesa alemãs", avaliou ele. De acordo com Lange, a Alemanha foi alvo da ação porque sempre foi um dos principais alvos da influência russa e da guerra híbrida. "Moscou acredita que Berlim é a chave para as decisões europeias. Além disso, a Alemanha lidera atualmente o apoio à Ucrânia", complementou.Após a acusação do governo alemão, Moscou reagiu com veemência. O chanceler russo, Sergei Lavrov, classificou a acusação como "o começo de uma guerra de verdade". Apesar disso, não houve escalada adicional da crise.Ainda assim, permanece o risco de que uma provocação russa e as consequentes medidas de resposta acabem saindo do controle, alerta Stefan Meister. "Você pode derrubar um avião por engano ao tentar afastá-lo, e isso gera uma reação em cadeia. Mas não acredito que a Rússia esteja buscando uma guerra direta neste momento. O foco é provocar, dividir e gerar insegurança na população."AfD: sem apoio à Ucrânia, haveria mais dinheiro para a AlemanhaNem todos concordam com a avaliação de que a Alemanha está ameaçada pela Rússia ou acreditam que essa ameaça possa ser evitada. Políticos do partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD) e da legenda de esquerda antiwoke BSW defendem melhorar as relações com Moscou, retomar as importações de energia russa e encerrar o apoio à Ucrânia. Durante a campanha para eleições regionais, no início de setembro, o líder da AfD, Tino Chrupalla, afirmou que as pessoas estão "cansadas dessa escalada contra a Rússia e dos bilhões desperdiçados em um sistema financiado com o dinheiro dos contribuintes alemães".A mensagem encontrou eco entre os eleitores. A AfD registrou forte crescimento em três eleições estaduais. Na Saxônia-Anhalt, o partido se tornou a maior força política, garantindo ampla vantagem nas urnas, e pode assumir o comando do governo local, algo inédito na Alemanha.Já Roderich Kiesewetter, especialista em segurança da CDU, partido de centro-direita do chanceler federal Friedrich Merz, rejeita a tese defendida por AfD e BSW de que encerrar a ajuda à Ucrânia aumentaria a segurança e liberaria recursos para políticas sociais. "Investimentos em educação, políticas sociais e infraestrutura só são possíveis quando vivemos com liberdade, democracia e, acima de tudo, segurança. Quem acredita que haverá mais dinheiro para programas sociais se abandonarmos a Ucrânia e deixarmos a Rússia agir livremente está profundamente enganado ou serve de instrumento para a propaganda russa", disse Kiesewetter.Décadas de mentalidade pacifistaPor causa das ameaças, a Bundeswehr vem passando por um amplo processo de modernização financiado com grandes investimentos. No entanto, as forças armadas alemãs enfrentam dificuldades para recrutar pessoal suficiente para a expansão planejada. Estudantes protestam contra o serviço militar obrigatório, assim como se mobilizavam em defesa do clima. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, também recebeu críticas dentro de seu próprio partido ao afirmar que a Alemanha precisava estar "pronta para a guerra". Muitos consideraram a expressão excessivamente beligerante.A Alemanha está preparada para enfrentar uma ameaça militar? Na avaliação de Stefan Meister, da Sociedade Alemã de Política Externa, não. "De forma alguma. O país não está adequadamente preparado nem do ponto de vista militar, nem no plano civil, e a população também não está psicologicamente pronta. Continuamos vendo manifestações contra o serviço militar e contra a Bundeswehr, embora a Alemanha precise do alistamento obrigatório. Fomos educados durante décadas dentro de uma cultura pacifista e de uma zona de conforto. A resiliência da sociedade é limitada e, principalmente, não estamos mentalmente preparados para uma guerra", dizO chanceler federal Friedrich Merz e seu partido, a CDU, enfrentam crescente pressão política, principalmente da direita, para reduzir o apoio à Ucrânia. Merz, no entanto, insiste que o auxílio continuará durante seu governo. Segundo ele, a questão diz respeito também à segurança da Alemanha. Recentemente, o chanceler voltou a Kiev, onde visitou áreas destruídas pela guerra ao lado do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski.Mas isso também significa que a ameaça representada pela Rússia deve continuar e até se intensificar, afirma Stefan Meister. "Acredito que veremos um aumento expressivo de ataques como o de Leipzig e de provocações envolvendo drones. Também poderemos assistir a ações contra infraestrutura crítica e até contra pessoas ligadas ao complexo militar-industrial. Essa é, na minha avaliação, a ameaça concreta que a Alemanha enfrentará nos próximos meses", finaliza o especialista.

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