Qual a história de ‘O que é, o que é?’, de Gonzaguinha, que vai ser cantada por Shakira e Bethânia no show em Copacabana

 

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No concorrido ensaio para o show deste sábado da colombiana Shakira na Praia de Copacabana, de cara chamaram a atenção as presenças dos irmãos Maria Bethânia e Caetano Veloso, numa aposta até inusitada de um encontro da diva pop de “Hips don’t lie” com lendas da MPB – astros do funk, trap ou pop seriam apostas mais certas. Feliz da vida com os ídolos, Shakira cantou “O leãozinho” com Caetano e “O que é, o que é?”, standard de seu repertório, de autoria de Gonzaguinha, com Bethânia.

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Lançada em 1982 pelo próprio autor no disco “Caminhos do coração” (que também tem sucessos como “Felicidade” e a faixa-título), “O que é, o que é?” – sim, aquela que fala de viver e não ter a vergonha de ser feliz – tem gravações de nomes como Beth Carvalho, Ana Costa, Diogo Nogueira, Maria Rita, Zé Ramalho, Padre Fábio de Melo, Bruna Caram, Ana Costa e outros.

Gonzaguinha na gravadora Odeon, em 1989

Paulo Moreira/Agência O GLOBO

“O que é, o que é?” ganhou novo significado nos tempos de pandemia, quando foi regravada em espanhol (em versão “mântrica”) pelo grupo argentino Indra Mantras. O idioma de Mercedes Sosa foi agraciado recentemente com mais uma versão, esta do popstar uruguaio Jorge Drexler, que a levou para o candombe, ritmo afro-uruguaio, em seu disco “Taracá”, lançado em março.

— Esta música sempre me chamava a atenção nas rodas de samba, quando tocava no Brasil, e era um momento de elevação espiritual – disse Drexler ao GLOBO ao lançar o disco. – Tem uma série de questões ontológicas e filosóficas sobre o ser e sobre a vida, que ampliam o escopo do gênero musical. É o tipo de reflexão que se encontra mais em livros do que em canções.Adoro a estrutura dela: começa com um refrão grandioso, com toda a sua glória, passa por várias partes menores, atravessa estágios de dor e perplexidade, terminando de volta naquela parte maior, a celebração. Sem saber qual a definição de vida, Gonzaguinha fica com aquela que lhe dá uma criança. Para mim, essa criança era (o filósofo holandês Baruch) Espinosa.

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“Es bonita, es bonita y es bonita”, diz a versão de Drexler, já apresentada no tradicional Samba do Trabalhador, no Andaraí.

Jorge Drexler com Moacyr Luz no Samba do Trabalhador, no Rio

Silvio Essinger

Morto em um acidente de carro há 35 anos, Gonzaguinha segue com a popularidade crescente: no momento, é mais de 1,5 milhão de ouvintes mensais no Spotify.

— É importante lembrar o lado político do Gonzaga, presente mesmo em músicas românticas como “Explode coração” — lembrou Daniel Gonzaga, filho mais velho do compositor, ao GLOBO em 2021, nos 30 anos da morte do pai. — Quando diz “como se fosse o sol desvirginando a madrugada”, ele fala de liberdade, num viés político oculto. Dribla o ouvinte, driblava inclusive a censura. Acho que a genialidade dele está aí. Para mim, ele é o Machado de Assis da MPB, com esse humor fino, cáustico, e trata muito do dia a dia, da vida das pessoas: o trabalhador, a fila do ônibus.

A popularidade de “O que é, o que é?” (a mais gravada composição de Gonzaguinha, à frente de “É”, “Começaria tudo outra vez”, “Explode coração” e outras) já a levou a um lugar inusitado: a missão de servir como samba-enredo do Império Serrano, em 2019, na única vez em que uma música já existente foi para a avenida na voz de uma grande escola.

– É uma música que sintetiza em três ou quatro minutos uma visão de vida, o amor pela vida – diz Daniel. – Ela é uma grande pergunta. Gonzaga diz que sabia que de nada sabia, mas diz que confia na moça, na parceria, e nela põe a força da fé. É um hino que está na cabeça dos brasileiros, que diz que a vida é bonita.

Na noite deste sábado, mais um possível recorde um milhão de pessoas deve ouvi-la ao vivo, no encontro de Santo Amaro da Purificação com Barranquilla.