Quais são os perigos do fentanil, droga apreendida na Lapa que provoca epidemia de overdoses nos EUA

 

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A apreensão de fentanil durante uma operação da Polícia Civil na Lapa, na Região Central do Rio, trouxe à tona um novo alerta sobre o avanço silencioso dos opioides sintéticos no Brasil. Na quinta-feira, agentes da Polinter prenderam três suspeitos de integrar o tráfico na Travessa do Mosqueira, área dominada pelo Comando Vermelho. Segundo a polícia, os criminosos tentaram fugir por telhados de casarões abandonados usados como pontos de venda de drogas. Durante a ação, os agentes apreenderam cinco tubos contendo fentanil, totalizando cerca de 1 grama da substância, embalado como MDMA, droga sintética conhecida popularmente como ecstasy.

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Apesar da quantidade parecer pequena, especialistas ressaltam o alto poder letal do opioide. De acordo com a European Union Drugs Agency (Euda), a dose potencialmente fatal de fentanil em humanos é estimada em apenas 2 miligramas, cerca de 500 vezes menos do que o volume apreendido na Lapa. O opioide sintético é cerca de 100 vezes mais potente que a morfina e 50 vezes mais forte que a heroína.

Além do fentanil, os policiais apreenderam 1,5 quilo de cocaína divididos em mais de mil pinos e papelotes, 400 gramas de maconha, crack, haxixe e frascos de loló. As drogas estavam embaladas para venda no varejo e faziam referência ao Comando Vermelho.

Os presos foram identificados como Yan Marcelo Machado, o Paulista, de 24 anos; Wagner Wallace Gabetto de Brito, de 23; e Deyerson da Silva Ferreira, de 28. Eles foram autuados por tráfico, associação para o tráfico, resistência e corrupção ativa. Segundo a polícia, Wagner chegou a oferecer R$ 10 mil aos agentes para ser liberado e tentou fugir novamente durante o trajeto para a delegacia, após empurrar um policial.

A apreensão ocorre em meio a um aumento das preocupações sobre a presença de opioides sintéticos no mercado ilegal brasileiro. Reportagem do GLOBO mostra que o fentanil ilegal ainda “engatinha” no país, sem registros de epidemia semelhante à vivida pelos Estados Unidos, mas com sinais de expansão do uso criminoso da substância.

Quantidade considerada letal de fentanil ao lado de uma moeda, segundo a Administração de Repressão às Drogas dos EUA.

Administração de Repressão às Drogas dos EUA

Investigações conduzidas em estados como São Paulo e Espírito Santo apontam que traficantes vêm utilizando opioides para potencializar os efeitos de drogas já consolidadas no mercado, como a cocaína. O objetivo seria aumentar o potencial de dependência química e reduzir custos, usando menor quantidade da droga original.

Segundo o delegado Tarcísio Otoni, do Departamento de Narcóticos da Polícia Civil do Espírito Santo, todas as apreensões realizadas até agora no estado indicam que o fentanil chega ao mercado clandestino brasileiro principalmente por meio do desvio de ampolas hospitalares.

— Nossas operações têm indicado que o fentanil tem sido utilizado de duas formas pelo crime organizado: seja misturando a outras drogas para potencializar os efeitos, e também na sua forma pura — afirmou o delegado.

A primeira apreensão da droga em um laboratório do tráfico no Brasil ocorreu em 2023, em Cariacica, no Espírito Santo. Desde então, autoridades vêm monitorando o aumento de ocorrências envolvendo opioides sintéticos e substâncias ainda mais potentes, como os nitazenos, encontrados recentemente em apreensões em São Paulo.

Especialistas da área da saúde alertam que o principal risco é justamente o consumo involuntário do opioide em drogas adulteradas. O pesquisador Francisco Bastos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), afirma que o tráfico costuma testar novos produtos conforme avalia a resposta do mercado e da repressão policial.

Usuário com fentanil em Baja Califórnia, na fronteira do México com os EUA, onde o consumo disparou

VALENTE ROSAS/El Universal/GDA

— É difícil para a gente que é da área da saúde compreender a lógica do mercado ilegal, porque é como se um cortasse o efeito do outro. Os opioides cortam aquele pico que a cocaína dá, e por outro lado, a cocaína corta a possível baixa que você tem quando usa opioide — explica ao GLOBO Francisco Bastos, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e autor de alguns dos principais levantamentos sobre fentanil no Brasil. — De uma forma geral, o tráfico sempre faz teste de mercado e também da repressão. O crack, por exemplo, surgiu assim. Se a repressão estiver frouxa e o mercado for promissor, o traficante vai para lá.

Nos Estados Unidos, o fentanil é o principal motor da chamada epidemia dos opioides, responsável por dezenas de milhares de mortes anuais por overdose. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) apontam que cerca de 71 mil americanos morreram em 2021 em overdoses relacionadas ao opioide sintético.

Embora especialistas considerem improvável, ao menos por enquanto, um cenário semelhante no Brasil, a apreensão na Lapa reforça o temor de que a droga esteja entrando gradualmente na cadeia do tráfico urbano fluminense. Segundo a Polícia Civil, a Travessa do Mosqueira e a Rua Joaquim Silva concentram pontos de venda subordinados aos traficantes Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, e Anderson Venâncio Nobre de Souza, o Piu. Desde janeiro do ano passado, 92 traficantes já foram presos na região em operações das mesmas equipes policiais.

Fentanil avança na América Latina

Autoridades da América Latina vêm reforçando medidas de prevenção diante do avanço do fentanil ilegal na região. Nos últimos anos, países latino-americanos ampliaram treinamentos policiais, endureceram penas, atualizaram legislações e passaram a monitorar novas drogas sintéticas de alta potência, como nitazenos e xilazina.

Especialistas alertam que o principal risco é a mistura do fentanil a drogas como cocaína, LSD e canabinoides sintéticos, estratégia usada pelo crime organizado para potencializar efeitos e aumentar o poder viciante das substâncias. Em vários países do Cone Sul, incluindo Brasil, Chile, Peru e Argentina, o opioide tem circulado principalmente em ampolas desviadas de hospitais e sistemas públicos de saúde.

No Chile, mais de 2 mil ampolas foram apreendidas apenas em 2024. Já no Peru, a polícia desmantelou neste ano uma quadrilha especializada na venda clandestina de medicamentos como fentanil, morfina e tramadol, além de realizar a maior apreensão da história do país: 6 mil ampolas que tinham como destino os Estados Unidos e a Holanda.

No México, apontado pelos EUA como principal centro produtor do fentanil ilegal, o consumo também cresce em estados próximos à fronteira americana. Dados do serviço forense de Mexicali apontam que 20% dos corpos analisados entre 2022 e 2025 tinham presença do opioide.