Quais os riscos e os sintomas da bactéria identificada em mais de cem lotes de produtos Ypê
Há uma semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a proibição de fabricação, venda e uso de diversos produtos de limpeza da Ypê, incluindo o recolhimento desses itens nos pontos de venda. Segundo o órgão, uma inspeção na fábrica da empresa em Amparo, em São Paulo, identificou a bactéria Pseudomonas aeruginosa em mais de cem lotes.
A medida da Anvisa chegou a ser suspensa após a Ypê apresentar um recurso, que tem efeito automático. No entanto, a agência sanitária brasileira segue contraindicado o uso dos itens e prevê avaliar o tema em reunião da Diretoria Colegiada a ser realizada nesta sexta-feira (dia 15).
O episódio gerou preocupação pelo país devido à extensa lista de itens atingidos: todos os lava-louças (detergentes), sabões líquidos para roupas e desinfetantes cujos lotes terminam com o número 1. A orientação da Anvisa é interromper imediatamente o uso e entrar em contato com a fabricante para informações sobre o recolhimento.
O que é a bactéria Pseudomonas aeruginosa?
A Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria de alta relevância para saúde pública por ser resistente a medicamentos. Segundo a Parceria Global de Pesquisa e Desenvolvimento de Antibióticos (GARDP, na sigla em inglês), ela está associada a 559 mil mortes por ano, o que a coloca entre os patógenos bacterianos mais letais no mundo.
— Ela é uma bactéria ambiental, ou seja, encontrada normalmente no ambiente, mas tem também capacidade de infectar humanos, principalmente os imunossuprimidos, com quadros graves, em ambiente hospitalar. Por isso é muito encontrada em infecções hospitalares — explica o infectologista do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, Alberto Chebabo, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
Estudos estimam que até 23% das contaminações em unidades de terapia intensiva (UTIs) são causadas pela bactéria. Mas, embora grave, as infecções entre pessoas saudáveis são raras. O risco é maior para indivíduos imunossuprimidos, como aqueles que vivem com HIV, câncer, doenças autoimunes ou fazem tratamentos que levam à imunossupressão. Nesses casos, a bactéria pode contaminar e gerar uma doença grave, como uma infecção sistêmica no organismo.
Como é a transmissão dessa bactéria?
A transmissão ocorre pelo contato com superfícies contaminadas, como solo, água e, nesse caso, os produtos possivelmente atingidos, esponjas, panos e outros itens que possam ter sido colonizados. A exposição à bactéria não é incomum, mas é raro que ela consiga infectar pessoas saudáveis.
— Ela é conhecida como um micro-organismo oportunista, ou seja, não costuma causar doença em todas as pessoas expostas, mas pode se tornar um problema quando encontra uma porta de entrada, como uma ferida, uma queimadura, uma mucosa ou um paciente com imunidade reduzida. Os grupos que merecem atenção especial são pessoas imunossuprimidas — diz o patologista clínico Helio Magarinos Torres Filho, diretor médico do Richet Medicina e Diagnóstico.
Como uma bactéria pode estar em produtos que são para limpeza?
Chebabo explica que algumas bactérias conseguem desenvolver uma película que protege a colônia bacteriana, chamada de biofilme, inclusive de produtos com ação antimicrobiana, como desinfetantes.
Além disso, Torres Filho esclarece que nem todo produto de limpeza tem a mesma ação contra micro-organismos, alguns realizam apenas uma remoção superficial da sujeira:
— Sabões, detergentes e lava-roupas, por exemplo, têm como principal função remover sujeira, gordura e matéria orgânica. Eles podem reduzir a quantidade de micro-organismos por arraste, durante a lavagem e o enxágue, mas não são necessariamente produtos esterilizantes.
Logo, o fato de um produto ser destinado à limpeza não significa que ele seja estéril ou que esteja imune à presença de bactérias, especialmente em relação àquelas que conseguem sobreviver bem em ambientes úmidos, como a P. aeruginosa.
Quanto tempo a bactéria pode viver fora dos produtos contaminados?
A P. aeruginosa é uma bactéria ambiental, ou seja, consegue viver por muito tempo em diversos locais, precisando basicamente de água para sobreviver. No entanto, geralmente em quantidades pequenas, que não levam a uma exposição preocupante no dia a dia.
— Em superfícies secas, ela sobrevive de algumas horas a poucos dias. O mais comum são ambientes úmidos, como esponjas, ralos, panos molhados, onde pode sobreviver por semanas ou meses, formando os biofilmes que são extremamente difíceis de remover apenas com limpeza comum — diz Giulia Sarabando, médica clínica da UPA Vila Santa Catarina, unidade gerida pelo Einstein Hospital Israelita.
Em caso de uso dos produtos possivelmente contaminados, quais sintomas devem ser observados? Em quanto tempo eles podem aparecer? O que fazer caso apareçam?
Os sintomas dependem do local do contato e, geralmente, surgem entre 24 e 72 horas da contaminação, embora não exista um intervalo único para todos os casos, explica Giulia:
— Na pele, pode causar vermelhidão local, coceira, presença de pus ao redor dos pelos ou dor local. Nos olhos também pode causar vermelhidão intensa, dor e secreção amarelada. De forma geral, se evoluir para uma infecção mais grave, pode causar febre e mal-estar. Se notar esses sinais, procure assistência médica e informe que teve contato com um produto que sofreu recall por risco de contaminação.
Qual o risco de contaminação cruzada dentro de casa, por exemplo em esponjas, panos, máquinas de lavar ou roupas que tenham usado esses produtos?
Torres Filho explica que essa possibilidade existe, principalmente em materiais que retêm umidade, como panos molhados, esponjas, ralos, pias, reservatórios, compartimentos de máquina de lavar e superfícies com acúmulo de água ou resíduo orgânico. Já roupas que foram lavadas, bem enxaguadas e completamente secas tendem a representar risco menor, porque a lavagem, o enxágue e a secagem reduzem bastante a viabilidade bacteriana.
Devo higienizar itens que tiveram contato com os produtos contaminados?
Por precaução, os especialistas recomendam higienizar ou descartar itens que tiveram contato direto com o produto possivelmente contaminado, principalmente os que permanecem úmidos, como as esponjas. Já materiais lisos e não porosos, como vidro, cerâmica, aço inox, plástico rígido, bancadas e pisos laváveis, podem ser limpos com desinfetantes, sempre respeitando as instruções do rótulo.
Embora o risco seja menor, para garantir maior segurança, roupas, tecidos e talheres podem ser lavados novamente com um detergente ou lava-roupas sem risco de contaminação, com bom enxágue e secagem total. Isso já é suficiente para reutilizar esses utensílios sem nenhum risco adicional.
Estou preocupado, devo procurar o serviço médico mesmo dias após o uso dos produtos?
Chebabo explica que não há qualquer recomendação generalizada para que as pessoas que utilizaram os produtos busquem atendimento médico, até porque a infecção pela P. aeruginosa é incomum mesmo após o contato com superfícies contaminadas. A orientação é para, em caso de sintomas infecciosos, buscar atendimento, como já é feito normalmente:
— É importante entender que o corpo humano é naturalmente colonizado por bactérias. Normalmente, são micro-organismos que fazem parte da nossa flora bacteriana e que nos dão inclusive proteção. E que combatem, nas pessoas saudáveis, a invasão de outras bactérias patogênicas. Então não há uma grande preocupação de que, para a população saudável, a exposição à P. aeruginosa vá provocar uma infecção. A exceção são os imunossuprimidos, que precisamos ter um maior cuidado.
Quanto tempo a bactéria vive dentro do corpo?
— Não existe um prazo único. Em muitas pessoas, uma exposição eventual não leva à doença nem a uma colonização duradoura. Em outras situações, ela pode apenas colonizar uma região e estar presente sem causar sintomas. Nesses casos, a duração depende do local acometido e da imunidade da pessoa. Portanto, mais importante do que saber quanto tempo ela vive no corpo é avaliar se houve apenas exposição, colonização sem sintomas ou infecção verdadeira — esclarece Torres Filho.
