A China já domina praticamente todo o mercado global de robôs humanoides, mas as máquinas ainda estão longe de alcançar a produtividade de trabalhadores humanos.
Em um centro de treinamento no sul do país visitado pela Reuters, humanoides conseguiam executar tarefas simples a apenas 20% da velocidade ou da produtividade de uma pessoa – na prática, um ritmo cinco vezes menor.
A constatação faz parte de uma investigação da agência sobre a corrida chinesa para liderar o mercado de robôs com inteligência artificial incorporada ao mundo físico.
A Reuters analisou centenas de documentos empresariais e quase 1 mil contratos públicos, visitou fábricas e centros de treinamento e ouviu 40 executivos, pesquisadores e investidores.
O levantamento aponta uma distância crescente entre a capacidade industrial criada pelo país e o desempenho real dos robôs.
Embora fabricantes chineses tenham respondido por 95% dos cerca de 20 mil humanoides enviados ao mercado mundial em 2025, segundo o BofA Global Research, as máquinas ainda apresentam dificuldades de destreza, confiabilidade e adaptação a situações fora das rotinas para as quais foram treinadas.
Robô humanoide da Figure trabalhando em fábrica
Reprodução\X
No centro de treinamento de Liuzhou, por exemplo, mais de 100 humanoides aprendem atividades como separar caixas, embalar macarrão e preparar café.
Um funcionário disse à Reuters que um treinador iniciante pode precisar de 300 tentativas para obter um único movimento aproveitável de um robô; mesmo um profissional experiente pode precisar de cerca de 50.
US$ 230 milhões em compras públicas
O avanço da indústria é impulsionado por uma combinação de subsídios, compras governamentais e investimentos em capacidade produtiva.
Somente no primeiro semestre de 2026, governos nacionais, provinciais e municipais chineses gastaram pelo menos US$ 230 milhões na compra de humanoides, sistemas de treinamento e equipamentos relacionados.
O valor representa uma forte alta em relação aos US$ 62 milhões do mesmo período de 2025 e aos US$ 6 milhões registrados dois anos antes.
A China já conta com mais de 150 empresas de robôs humanoides, segundo a agência.
O número supera até a quantidade de marcas chinesas de veículos elétricos.
A estratégia repete uma fórmula usada anteriormente pelo país em setores como carros elétricos e painéis solares: subsidiar uma indústria considerada estratégica, criar capacidade produtiva em larga escala e estimular uma competição intensa para reduzir custos.
Robô humanoide chinês executa movimentos de balé
Reprodução/YouTube UBTECH
A diferença é que, nesses casos, as tecnologias já estavam relativamente maduras.
Os humanoides ainda enfrentam problemas básicos que limitam sua adoção comercial.
“O QI dos robôs é baixo demais”, afirmou Tang Wenbin, cofundador e CEO da startup de robótica Yuanli Lingji, durante um painel do setor em março.
“Muito do que vemos é dança disfarçada de trabalho.”
O gargalo está no cérebro
Apesar dos avanços mecânicos, o principal desafio agora está na inteligência dos humanoides.
Diferentemente de chatbots, treinados principalmente com grandes volumes de texto, robôs precisam interpretar imagens e transformar essa informação em movimentos físicos precisos, como segurar um objeto, encaixar um cabo ou aplicar a força adequada em um parafuso.
Esses sistemas, conhecidos como modelos de visão-linguagem-ação, ainda têm dificuldade para lidar com pequenas mudanças no ambiente.
Um robô treinado para realizar uma tarefa em determinada bancada pode falhar quando muda a iluminação, a posição de um objeto ou até o material da superfície.
“O problema passa dos últimos 10 centímetros para o último centímetro e até para o último milímetro”, disse Jia Baoxiong, pesquisador do Beijing Institute for General Artificial Intelligence.
Segundo estimativas do setor citadas pelo analista Poe Zhao, os fabricantes possuem atualmente cerca de 500 mil horas de dados de treinamento de alta qualidade, mas seriam necessárias aproximadamente 100 milhões de horas para que robôs desenvolvessem uma inteligência física realmente ampla.
Ainda assim, a escala chinesa pode dar ao país uma vantagem importante.
O governo espera que fabricantes locais produzam mais de 100 mil humanoides em 2026.
O BofA Global Research projeta que as vendas globais possam chegar a 1,2 milhão de unidades por ano até 2030.
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