Publicado em inglês em 2013, livro sobre arte construtiva no Brasil e sua influência ganha edição em português

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Quando o crítico e historiador da arte Sérgio Martins começa seu doutorado na University College London (UCL), em 2007, pesquisando a vanguarda artística brasileira entre os anos 1959 e 1979, a produção nacional começava a consolidar de fato sua presença no circuito global, tanto no mercado quanto institucionalmente.

Ao publicar em inglês, em 2013, o resultado de sua pesquisa como o livro “Constructing an avant-garde: art in Brazil, 1949-1979”, pela MIT Press, a obra se tornou prontamente referência nos estudos internacionais sobre as gerações concretas e neoconcretas e sua influência na produção contemporânea.

Era aguardada a sua publicação em português pela Cosac Naify, o que não ocorreu pelo encerramento das atividades da editora, em 2015. 'Íris': Quadro de Monet se torna obra de arte mais cara já vendida na França, por por 50 milhões de euros

Gary Tyler: Como artista preso por 42 anos e condenado à morte ganhou liberdade e agora faz sua primeira exposição individual Agora, 13 anos depois da publicação do original, a obra finalmente ganha sua versão em português, lançada pela Cosac, que voltou ao mercado editorial em 2023 rebatizada apenas com o sobrenome do editor Charles Cosac.

Em 312 páginas, ilustradas com imagens de obras de artistas de diferentes gerações, como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Luiz Sacilotto, Cildo Meireles, Antonio Dias e Rubens Gerchman, “Vanguarda em construção — Arte no Brasil (1949-1979)” aborda a produção nacional do pós-guerra não como uma simples extensão dos movimentos artísticos europeus ou seguindo uma visão linear de acontecimentos, mas mostra como, a partir da apropriação e reinterpretação de referências como Piet Mondrian e Kazimir Malevich, nomes locais produziram ideias que ajudaram a transformar a compreensão dessas mesmas tradições.

— O que me interessava era entender como essa vanguarda brasileira se relacionava com aquilo que se entendia por modernismo de maneira mais ampla. Havia coisas muito instigantes acontecendo aqui que acabavam sendo vistas como fenômenos posteriores, quando, na verdade, eram até anteriores — observa Sérgio Martins, que lança o livro no Rio na terça-feira da próxima semana, às 19h, na Livraria da Travessa de Ipanema, Zona Sul do Rio, em conversa com o filósofo e professor Pedro Duarte.

— Parto da ideia de um “sequestro” da vanguarda europeia, de uma fidelidade a mestres como Mondrian, Malevich, mas que, por outro lado, os reinterpreta de maneira muito radical. A publicação, que conta com prefácio do historiador da arte, crítico e curador britânico-brasileiro Michael Asbury, aborda como o movimento construtivo brasileiro nos anos 1950, e conceitos como o “não objeto” de Ferreira Gullar, divulgado nas páginas do antigo Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, abriu um campo de reflexão que ultrapassou o debate original e foi retomada em diferentes momentos da produção local.

— Você pode abrir os grandes livros sobre minimalismo nos Estados Unidos e todos falam da incrível novidade que foi a discussão sobre o objeto nos anos 1960. Então, você percebe que realmente havia coisas acontecendo aqui muito instigantes que acabavam sendo vistas como posteriores — comenta o autor.

— Preferi desenvolver a pesquisa em um departamento dedicado ao modernismo, e não de arte latino-americana, acho que enquadrar os artistas brasileiros só em uma categoria geográfica poderia restringir o alcance de suas contribuições. E ter uma publicação em língua inglesa que não fosse apenas traduzir o que se sabia sobre o país de maneira mais enciclopédica ajudou a ampliar o alcance do debate.

'“O meu retrato' (1967), de Antonio Dias Divulgação/Espólio Antonio Dias

Entre os artistas contemporâneos examinados na publicação, o capítulo “Enigmagens” aborda como a obra de Cildo Meireles e Antonio Dias (1944-2018) do fim dos anos 1960 e 1970 reveem as transformações do movimento construtivo sob o calor da repressão política no Brasil após o AI-5, em 1968, e a consequente dispersão internacional da vanguarda.

— É importantíssimo a gente ter o livro publicado em português. É um trabalho de pesquisa profunda do Sérgio, e é fundamental você conseguir diferentes visões de um fenômeno cultural — observa Cildo.

— O artista, de alguma maneira, está sempre dialogando com o que está acontecendo, não pode fugir dessa condição. E era justamente o que acontecia com a gente naquele período.

Ao publicar o livro em português no Brasil mais de uma década depois da edição original, o autor observa que o cenário artístico é bem diferente daquele do início dos anos 2010, não só pela ampliação de um reconhecimento internacional, mas também pela maior diversidade da cena local.

— A cara da arte brasileira internacionalmente se torna muito mais complexa e variada. Novas gerações também entram nesse campo, outras vozes, muita coisa muda.

Acho curioso ver esse livro saindo aqui 13 anos depois. Eu começo essa pesquisa em 2007, então obviamente há uma distância dele, e muita coisa mudou no meu trabalho também.

Ao mesmo tempo, vários pontos são muito atuais, capazes de pautar a discussão aqui — avalia Sérgio Martins. — Naquele primeiro momento, publicar aqui seria interessante para trazer para cá o que estava sendo debatido sobre arte brasileira lá fora.

Mas esse delay faz com que ele chegue com um interesse histórico, com elementos que permitem novas leituras. Luiz Sacilotto.

Escultura 'Concreção 5942' (1959) Divulgação/Sergio Guerini

Além da criação artística, o autor também recorre a outros críticos e pesquisadores que ajudaram a desenvolver o arcabouço teórico da produção ao passo em que era realizada, como Ferreira Gullar e Mário Pedrosa. — Era um período em que se tinha pouca, ou relativamente pouca, densidade institucional e acadêmica, e essas figuras assumem um papel de adensadores desse pensamento.

Eles precisavam criar um chão para pisar. A atuação de nomes como Gullar e Pedrosa foi essencial para produzir esse chão, em que as conversas faziam sentido — explica o autor.

— Pessoalmente, considero a crítica de arte do Ferreira Gullar nos anos 1950 o ponto alto da nossa crítica de arte no Brasil. É um ponto de elaboração único, ainda mais considerando que era feito por um jovem poeta maranhense recém-chegado ao Rio.

É muito impressionante. O crítico e historiador da arte Sérgio Martins

Divulgação O crítico e historiador carioca comenta o lado curioso de lançar o livro no país após ser referenciado em debates sobre arte brasileira no exterior.

— É um livro do ponto de vista de alguém daqui que está de fora olhando para cá. O engraçado é que, de certa forma, é uma obra de um brasilianista, mas um brasilianista brasileiro — brinca.

— Acho que autores estrangeiros já fizeram contribuições incríveis, justamente por olhar as coisas de maneira diferente da gente. Às vezes algumas curadorias internacionais, ou museus e a academia, reproduzem certos lugares-comuns, e nem sempre é fácil quebrar isso.

Mas nada está resolvido, há muitos contrapontos. O campo da história da arte se sofisticou muito nos últimos 15 anos.

Capa do livro 'Vanguarda em construção — Arte no Brasil (1949-1979)' Divulgação

'Vanguarda em construção — Arte no Brasil (1949-1979)' Autor: Sérgio Martins.

Tradução: Célia Euvaldo. Editora: Cosac.

Páginas: 312. Preço: R$ 139

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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