PSD amplia base nos estados antes de definir candidato ao Planalto, tenta resolver palanques e enfrenta conflitos regionais
Com a intenção de lançar uma candidatura à Presidência, o PSD tem acelerado a reorganização de sua estrutura nos estados como forma de preparar o terreno eleitoral de 2026. A estratégia inclui a filiação de novos nomes para fortalecer as articulações regionais e a tentativa de reduzir tensões que possam comprometer a sustentação de um projeto nacional. O movimento, conduzido pela direção comandada por Gilberto Kassab, ocorre sob o entendimento de que a musculatura estadual será determinante tanto para uma candidatura própria quanto para eventual composição no segundo turno.
Nas últimas semanas, a ofensiva ganhou novo capÃtulo em São Paulo. Kassab anunciou a filiação ao PSD de sete dos 11 deputados da federação PSDB-Cidadania na Assembleia Legislativa paulista. A articulação foi costurada em reunião no apartamento do dirigente e reforça a estratégia de ampliar presença em estados-chave antes da definição presidencial.
A leitura dentro do partido é que o avanço sobre quadros do PSDB em São Paulo tem peso simbólico. Além de ampliar a bancada estadual, o movimento fortaleceu a capacidade de influência do PSD no maior colégio eleitoral do paÃs. Também sinaliza que a sigla pretende ocupar espaços deixados por legendas tradicionais do centro polÃtico, ampliando a margem de negociação para 2026.
Esse avanço sobre nomes de outras siglas já vinha ocorrendo em relação aos governadores. Os mais recentes foram Marcos Rocha, de Rondônia, e Ronaldo Caiado, de Goiás, que deixaram o União Brasil em direção ao PSD. Antes, Kassab já havia atraÃdo para a sigla Raquel Lyra, de Pernambuco, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, que haviam sido eleitos pelo PSDB.
Ao lado de Ratinho Jr., governador do Paraná, Leite e Caiado são os nomes que Kassab considera como opções para a disputa ao Planalto. Internamente, a sigla trabalha com o prazo de meados de abril para definir qual deles representará o partido, encurtando o perÃodo de indefinição e pressionando negociações locais que dependem desse posicionamento.
Tensão em Goiás
Em Goiás, onde a filiação de Ronaldo Caiado ao PSD alterou o equilÃbrio interno da sigla, o governador busca separar o arranjo estadual da disputa presidencial. Segundo ele, a mudança partidária não interfere na composição local nem impõe alinhamentos automáticos.
— Aqui em Goiás vamos preservar a composição do estado. Não interfere na posição nacional. Na Bahia, o PSD local apoia o Lula. Os deputados não têm obrigatoriedade. Tenho uma ótima relação com o União Brasil. A minha decisão nacional não altera o quadro do estado. Isso ficou claro — afirmou Caiado ao GLOBO.
O governador sustenta que a estrutura majoritária para 2026 vinha sendo construÃda em Goiás, independentemente de quem o PSD escolher para o Planalto. O atual vice-governador, Daniel Vilela (MDB), é o nome ao governo, e o desenho inicial previa as duas vagas ao Senado para a primeira-dama, Gracinha Caiado, e para o deputado federal Gustavo Gayer (PL).
Gracinha assumiu recentemente o comando do União Brasil no estado, movimento que reforça a influência do grupo do governador na sucessão local e amplia o controle sobre a montagem da chapa.
O cenário mudou na semana passada, quando o PL lançou Wilder Morais como pré-candidato ao governo estadual. A decisão inviabilizou o acordo que previa a presença de Gayer na chapa alinhada a Caiado e reabriu as negociações sobre a ocupação das vagas ao Senado. Com o entendimento anterior desfeito, ainda não há definição sobre quem poderá ocupar o espaço que seria destinado ao PL, e o nome do senador Vanderlan Cardoso (PSD), que mantém a intenção de disputar a reeleição, voltou a ser cogitado nas articulações internas.
Com o novo cenário, o impasse passou a envolver diretamente Vanderlan, que mantém a intenção de disputar a reeleição e aguarda definição sobre seu espaço na chapa. Caiado afirma que vai conversar com o senador sobre a situação.
Sobre a possibilidade de o PSD reivindicar a vice na chapa estadual, o governador evitou antecipar a definição e disse que esta decisão será tomada mais próximo às convenções partidárias, que ocorrem em junho. Caiado também enfatizou que sua movimentação no PSD está vinculada ao debate nacional e não a uma imposição pessoal.
O próprio Vanderlan reconhece que o novo arranjo polÃtico em Goiás pode redefinir seu espaço dentro da legenda. O senador afirmou que aguarda uma reunião com a direção partidária para discutir o desenho eleitoral no estado e avaliar inclusive sua permanência no PSD, já que pretende disputar a reeleição. Segundo ele, a aproximação de Caiado com o PL pode reduzir o espaço disponÃvel ao partido na chapa majoritária.
— Dependendo de como ficar essa conversa em Goiás, eu posso até não permanecer no partido, porque sou candidato à reeleição. O Caiado tem preferência por uma aliança com o PL, que já teria uma vaga ao Senado, e nós acabamos ficando sem espaço nesse processo — disse.
Apesar das incertezas locais, o senador avaliou que, no plano nacional, o PSD saiu fortalecido com a presença de três nomes competitivos na disputa presidencial e relatou, em tom de brincadeira, conversa com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, sobre a possibilidade de reunir lideranças que perderiam espaço com a reorganização interna.
Autonomia regional e dilemas
A filiação de lideranças locais de outras siglas pelo PSD também tem gerado dilemas. A legenda passou a abrigar polÃticos de perfis ideológicos diversos e alianças regionais frequentemente incompatÃveis. Em alguns estados, por exemplo, mantém proximidade com o governo federal, do PT; em outros, dialoga com campos oposicionistas. Essa heterogeneidade, historicamente responsável pela capilaridade do PSD, torna-se agora um desafio para a construção de uma candidatura presidencial coesa.
O impacto dessas tensões aparece de forma clara no Acre. O senador Sérgio Petecão afirmou que a definição de alianças foi adiada e depende também da decisão nacional sobre o nome que disputará o Planalto. Segundo ele, o cenário local é marcado pela escassez de candidatos com estrutura e pelo peso das máquinas administrativas.
— Aqui é difÃcil, porque são poucos candidatos com estrutura, e quem está agarrado na máquina, seja da prefeitura ou do governo, sempre leva vantagem. Além disso, temos dificuldade de aliança com o PL, que tenta passar para a população que só eles são de direita, o que não corresponde à realidade. Não acredito que o Kassab vá forçar qualquer barra; a tendência é dar liberdade para cada estado decidir seu caminho — disse Petecão
No Mato Grosso do Sul, o PSD adota estratégia distinta, centrada na preservação do espaço já ocupado na estrutura de poder. O senador Nelsinho Trad afirmou que a prioridade é a reeleição do governador Eduardo Riedel (PP) e a manutenção das posições do partido na chapa majoritária.
— O PSD aqui tem senador, vice-governador, vários prefeitos, vices, vereadores e um deputado estadual. Estamos num alinhamento pela reeleição do governador Eduardo Riedel, e o projeto está focado em manter as duas vagas da majoritária, tanto a de vice quanto a do Senado — afirmou.
No Congresso, parlamentares defendem que a escolha presidencial esteja acompanhada de uma estratégia clara para preservar bancadas e alianças estaduais. A avaliação é que uma decisão precipitada pode provocar perdas regionais difÃceis de recompor.
Nos bastidores, aliados de Ratinho Jr., Caiado e Eduardo Leite intensificaram suas articulações em busca de consolidar suas pré-candidaturas. Embora evitem confronto direto, os três grupos disputam apoios dentro da estrutura partidária e observam o comportamento das bases estaduais.
A expectativa no PSD é que, até abril, o cenário nacional esteja suficientemente definido para permitir uma escolha que minimize rupturas. Até lá, a prioridade seguirá sendo ampliar presença nos estados, reduzir conflitos locais e preservar a flexibilidade que transformou o partido em peça relevante do tabuleiro eleitoral.
