Próximas dos R$ 200 milhões: o que ofertas vultuosas dizem sobre realidade e futuro do futebol brasileiro

 

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Em sua terceira tentativa na insistente busca pela contratação do atacante Kaio Jorge, o Flamengo ofereceu nada menos que 30 milhões de euros — ou R$ 188 milhões — ao Cruzeiro. Os mineiros recusaram a investida, enquanto eles próprios, SAF que investe alto no mercado, fazem outro acordo de valores assombrosos: a compra do meia Gerson junto ao Zenit-RUS, que custará 27 milhões de euros (R$ 176 milhões). Negócios que revelam o crescimento de patamar de algumas das principais potências financeiras do futebol brasileiro, que inclui também o Palmeiras entre os expoentes, mas que não necessariamente refletem uma realidade equivalente para todos os clubes da elite do país ou ditam o que será o futuro do ecossistema brasileiro.

Kaio Jorge é alvo do Flamengo

Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Cruzeiro tenta tirar Gerson do Zenit

X/Zenit

A lista de transferências mais caras da história do futebol do país tem Vitor Roque, atacante do Palmeiras, no topo, em negócio que custou 25,5 milhões de euros (R$ 154 milhões). Samuel Lino, que levou o Flamengo a investir 22 milhões de euros (R$ 143 milhões) para tirá-lo do Atlético de Madrid-ESP, e Danilo, que foi do Nottingham Forest-ING ao Botafogo em negócio de mesmo valor, fecham o top 3.

Transferências mais caras do futebol brasileiro

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Para se ter uma ideia, os valores já se aproximam dos altos gastos que clubes de médio e até de grande porte fazem na Premier League. Na última temporada, por exemplo, o Arsenal, atual líder do Campeonato Inglês, pagou € 32 milhões para tirar o volante espanhol Mikel Merino da Real Sociedad-ESP. O brasileiro Igor Thiago, sensação do futebol local, custou € 33 milhões na transferência do Brugge-BEL ao Brentford.

Transferências relevantes de valores próximos na Premier League

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Mas mesmo essa lista reflete certa distância. Entre premiações, vendas de jogadores e alto potencial de receitas, Flamengo e Palmeiras se credenciaram a ter 13 das 20 maiores contratações. O Botafogo, SAF turbinada pelos investimentos iniciais de John Textor e por uma rede multiclubes até então coesa, tem seis nomes, mas vê todos os fatores que o colocaram nessa posição se tornarem voláteis. O Bahia, outra SAF, é o último a aparecer no top 20, com a contratação de Lucho Rodríguez.

Para o sócio-diretor do Sport Insider e especialista em finanças do esporte Rodrigo Capelo, o cenário não mostra exatamente um ecossistema mais forte no futebol brasileiro e ressalta que os valores de transferências e salários têm crescido dentro de um mesmo círculo de jogadores:

— Os clubes fazem, alucinadamente, há muitos anos, promessas de salários altos e compras de jogadores. O que vemos é que, a cada ciclo de direitos de transmissão, eles têm um pouco mais de dinheiro, gastam mais e se sentem mais confortáveis para fazer isso. E acabam se endividando mais, assumindo salários mais altos. Isso cria uma disparidade muito grande na própria primeira divisão — explica, citando as políticas de fair play financeiro como um possível marco de transição cultural no futebol do país.

Ofertas e negócios de alto valor no futebol brasileiro em 2026

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Limite de custos

A partir de 2026, o fair play começa a ter suas primeiras regras aplicadas no Brasil. Uma delas, que dá seus primeiros passos em termos de fiscalização, mas será passível de punições entre 2028 e 2029, é o limite de custos (salários, encargos e direitos de imagem) dos elencos, que terão o teto de 70% da soma de receitas, transferências e aportes. Ou seja, o crescimento das receitas guiará a capacidade de oferecer altos salários por parte dos clubes. Num panorama geral, Capelo vê as receitas de transmissão como fonte mais sólida que o mercado de bets, que domina os patrocínios master, neste momento:

— No cenário macro, 2026 é o segundo ano do novo contrato de transmissão, que, de maneira geral, aumentou o faturamento de R$ 2,1 bilhões para R$ 2,7 bilhões, somados os acordos de Libra e LFU. Um aumento que ajuda a inflacionar o mercado. Na área de patrocínios, as bets têm colocado valores também muito altos, e o próprio Flamengo teve um aumento brutal no último acordo. As bets também ajudam a aumentar esse valor. Do ponto de vista da televisão, não é possível esperar queda de receitas. Do ponto de vista das bets, talvez.

Bap e Leila, presidentes de Flamengo e Palmeiras

Divulgaçao CBF Academy

O especialista também rechaça teorias de que o Flamengo ou outros clubes com mais poder de receitas consigam manipular, sozinhos, os panoramas salariais do mercado e inviabilizar rivais no futuro.

— Não faz muito sentido. O Flamengo aumenta os valores porque pode pagar mais e fatura mais. As pessoas que trabalham nas finanças do Flamengo são bem lúcidas. A comparação com a precificação predatória do varejo é muito atrapalhada, porque a precificação predatória é reduzir muito os preços dos seus produtos e serviços para quebrar a concorrência. Não é o contrário: subir muito seus próprios custos, assumindo um risco desnecessário para tentar fazer com que os outros acompanhem o seu ritmo — concluiu.